Brasil

A prisão de Bolsonaro visa abrir caminho para terceira via

A prisão de Bolsonaro é apenas uma etapa do plano que visava também tirar Lula da eleição para eleger um candidato de terceira via

Bolsonaro preso

O artigo O Brasil precisa conter o massacre social das direitas, de Eduardo Guimarães, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (27), traz uma incompreensão logo no olho do texto, que diz que “esses fascistóides da mídia golpista saíram da toca depois que sua última ‘proeza’, Jair Bolsonaro, foi debelada pelo STF a duras penas”.

Acontece que o Supremo Tribunal Federal colocou Jair Bolsonaro na cadeia a mando da direita, do grande capital. E não foi às duras penas. Trata-se de outra etapa do gole iniciado em 2016.

Quando lemos que “o Estadão exige um candidato que faça ‘um duro ajuste fiscal’ e faz alusões ao ‘”populismo’ de Lula.” e quando o articulista diz que vê “essa cantilena desse e de outros jornalões engordados pela ditabranda de 1964-1985 desde os anos 1970”, é preciso pensar em nome de quem o Estadão está falando; este, que é um tradicional porta-voz da burguesia.

Em 2016, a burguesia deu um golpe em Dilma Rousseff, com auxílio do STF, fez subir Michel Temer ao poder, que atacou duramente as conquistas sociais, além de implantar um teto de gastos que asfixia até hoje o governo de Lula; e tinha em mente, com essa medida, colocar no poder um candidato de terceira, via, um Geraldo Alckmin, que não decolou, não chegou a 5%.

Como alternativa, a burguesia colocou Jair Bolsonaro no Planalto, visto que não queria um novo mandato do Partido dos Trabalhadores.

O plano de ter um presidente “legítimo” nunca foi abandonado pelo grande capital, apenas foi adiado. A oportunidade ressurgiu agora, em 2026. A questão era tirar da frente Bolsonaro, um candidato difícil de administrar; e Lula, que com sua base na classe trabalhadora acaba tendo como medir força com a classe dominante.

Agente do neoliberalismo

Como já disse diversas vezes este Diário, a intenção da burguesia é colocar no poder um candidato ferozmente neoliberal. Fomos nós que dissemos desde o início que se queria um Javier Milei na presidência. O grande capital tinha em mente Tarcísio de Freitas, mas esse plano foi frustrado por Jair Bolsonaro, que não aceitou a chantagem de trocar sua liberdade pelo apoio a Tarcísio, e lançou seu próprio filho como candidato.

Quando se diz que “na verdade, o Estadão quer um Javier Milei, que promoveu uma desgraça social na Argentina e depois maquiou os números para esconder que a pobreza se mantém no país em níveis catastróficos”, é preciso sempre deixar claro que essa é uma exigência do imperialismo. Portanto, quando o STF tira da frente um dos candidatos indesejáveis, está trabalhando par o grande capital.

Segundo Guimarães, “em reajuste duro como o argentino no Brasil detonaria uma guerra civil”, mas isso é apenas uma possibilidade que a burguesia pode querer pagar para ver. Na verdade, o imperialismo precisa desesperadamente sangrar ainda mais o Brasil para assim diminuir a crise pela qual vem passando. Especialmente após a derrota vergonhosa contra o Irã.

Propaganda eleitoral

A frase que diz que “a enorme queda na pobreza e na desigualdade dos últimos anos transformar-se-ia em um mergulho em um processo de miserabilização do país sem precedentes”, não passa de propaganda eleitoral. O Brasileiro está completamente endividado, tanto que o governo planeja fazer um programa, também com vista nas eleições, para ajudar as pessoas a quitarem suas dívidas.

É preciso lembrar que muito dessas dívidas é resultado da pobreza e dos juros altíssimos praticados pelo Banco Central, sob comando dos banqueiros.

O que virá pela frente?

Guimarães diz que “esses lunáticos neoliberais não estão de brincadeira. Não aceitarão nada menos do que um genocídio pela fome, pela miséria e pela desigualdade mais cruéis que o mundo já viu. O Brasil terá que pegar em armas para desfazer essa loucura que estão pedindo”.

Não parece que esteja na ordem do dia uma guerra civil, ou que a população pegue em armas. Aliás, a esquerda pequeno-burguesa tem horror a armas, vive dizendo que isso aumenta a criminalidade, feminicídio, etc.

Segundo o articulista, “quem não entender isso agora, entenderá quando o Brasil estiver se afogando em um mar de sangue, suor e lágrimas”. Primeiro, é mais provável que antes aconteçam manifestações de rua, e essas pessoas serão tratadas como terroristas, como golpistas, e serão condenadas a décadas de cadeia, assim como fizeram os guardiões da democracia do STF com os bolsonaristas que invadiram prédios públicos na Praça dos Três Poderes.

Os manifestantes de amanhã, sofrerão as consequências de leis cada vez mais draconianas, todas apoiadas por uma esquerda que assina embaixo de tudo o que propõe o Supremo golpista.

Esses que aplaudiram a condenação de uma cabeleireira a 14 anos de detenção por escrever com batom em uma estátua, não reconhecerão no futuro que eles apoiaram essa verdadeira barbárie instaurada por uma ditadura de toga. Um tribunal que já foi chamado de “o último bastião da democracia”, o que chega a ser inacreditável.

Existe ainda outra questão: a maioria da esquerda abandonou a luta social pelo identitarismo. Fica se batendo em “questões de gênero”, “lugares de fala”, mudanças climáticas e na defesa da democracia burguesa. Muita gente recebe dinheiro de ONGs, por que se preocupariam com uma população empobrecida que eventualmente saia às ruas para se manifestar?

No futuro, caso um manifestante quebre um vidro no STF, a maioria da esquerda será a primeira a pedir cadeia e penas rigorosas.

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