O artigo A guerra contra o Brasil, de Charles Gentil, publicado no sítio PTSaoPaulo, levanta alguns pontos sobre a política da esquerda brasileira diante do avanço da extrema direita.
A primeira questão que se coloca é o tratamento que se dá aos bolsonaristas, diz ali que “da mesma forma que há lobo em pele de cordeiro. Há também traidores da pátria disfarçados de patriotas”, e que “os bolsonaristas são assim: dissimulados. E mais. Vestem o verde-amarelo, mas o fazem por mero ardil, para ocultar sua submissão e covardia extrema, para disfarçar seu antipatriotismo crônico, para encobrir, enfim, sua sujeição voluntária ao imperialismo norte-americano”.
A esquerda deveria, em primeiro lugar, entender o porquê de setores da classe trabalhadora estarem se movendo para o lado da direita. Muitos trabalhadores estão ali por desilusão com a esquerda. Não é possível atribuir a quase metade da população — levando em consideração o resultado eleitoral anterior — características tão negativas. Se assim fosse, qualquer perspectiva de mudança social seria impossível.
Nesse sentido, em vez de tratar os bolsonaristas como inimigos, ou como gado, como alguns costumam fazer, é necessário fazer o debate político e trazer esses trabalhadores para o programa da esquerda.
O nacionalismo
Em seu artigo, Charles Gentil diz que “hipócritas, de fato, são os bolsonaristas, porque escondem sua obediência conivente ao projeto de poder de uma superpotência estrangeira, declarando, mentirosamente, que sua subordinação é triunfo nacionalista.” E ainda que, “na verdade, os bolsonaristas intitulam de patriotismo a ideia que acatam de que o Brasil deve ser dependente e servir aos interesses econômicos estadunidenses”.
Feitas essas considerações, qual tem sido a política da esquerda? Em vez levar adiante uma política de reestatização, o que se vê é a esquerda querendo “pegar de volta” as cores da bandeira brasileira, o que é um erro.
Não faltam convocações para atos e eventos da esquerda em que predominam o verde amarelo. E essa é uma batalha perdida, além de inútil. O verde-amarelo são as cores nacionais, não devem ser reivindicadas por nenhum grupo em especial, ainda que os bolsonaristas o tenham feito.
Partir para o xingamento, dizer que “essa súcia de gangsters antipatriótas se organiza para fazer guerra contra o Brasil”, apenas afasta o debate. É preciso explicar o quanto a política bolsonarista, como se vê expressa nas intenções de Flávio Bolsonaro, são entreguistas e lesivas para o Brasil. Há, seguramente, dentre seus apoiadores, aqueles que são contra, ou que estão em dúvida sobre essa política, e aí se abre uma oportunidade o debate e a aproximação.
Por exemplo, como e possível falar em nacionalismo se Jair Bolsonaro (PL) entregou a Eletrobrás aos capitalistas? Como é possível falar em nacionalismo se Eduardo Bolsonaro atuou para que o governo norte-americano interviesse diretamente no regime político?
A pandemia de Covid-19
Gentil escreve que “durante a pandemia da Covid-19, 700 mil cidadãos tombaram diante da omissão, descaso e negligência de Jair Bolsonaro, no tocante à falta de disponibilização da cobertura vacinal”. Sim, mas Jair Bolsonaro não foi o único. Praticamente todos os governadores aderiram e fizeram demagogia, enquanto diminuíram a frota de ônibus expondo a população à doença.
A esquerda, à exceção do Partido da Causa Operária (PCO), o que fez diante da pandemia? Se acovardou, em vez de exigir testes para toda a população, cobertura vacinal universal, ajuda financeira de verdade. Deveria ter exigido a quebra da patente das vacinas, ou que se tivesse comprado as primeiras disponíveis, como as da Rússia e China, a esquerda se omitiu.
Jair Bolsonaro deveria ser punido, mas não vai, não por esse motivo, pois muita gente importante teria que ir junto e a burguesia não vai permitir.
Apenas durante as eleições a esquerda, que tinha aderido ao “fique em casa”, hipocritamente saiu às ruas para pedir votos, e tratou de correr de volta quando se concluiu a disputa.
A esquerda perdeu uma grande oportunidade de aparecer como a grande defensora dos interesses do povo e apareceu na foto como quem se interessa apenas por votos.
O Supremo
Gentil escreve que “a guerra contra o Brasil, levada a cabo pelos bolsonaristas, se fez com os inúmeros ataques verbais ao Supremo Tribunal Federal [STF], ainda sob o comando de Jair Bolsonaro”. Esse é um grande erro que precisa ser corrigido. A população rejeita majoritariamente o STF, e faz isso com razão. Ao se misturar com essa instituição golpista, o PT apenas faz com que parte dos trabalhadores se afastem e enxerguem o partido como parte do sistema. Para piorar, a Corte se encontra com vários de seus ministros envolvidos com o maior escândalo financeiro da história do País.
O povo vê os ministros do Supremo como um bando de privilegiados, que podem ganhar por mês aquilo que um trabalhador não receberá durante a vida toda, e que ainda assim aparecem como corruptos, não bastando os altíssimos salários e os “penduricalhos”.
A classe trabalhadora sabe os descalabros que fez o STF contra o PT durante o Mensalão, seu papel na Lava Jato e no golpe contra Dilma Rousseff. Não fosse a prisão inconstitucional de Lula, é muito provável que Bolsonaro não teria sido eleito.
É incompreensível que o Partido dos Trabalhadores se misture a uma Corte golpista, autora das mais vergonhas farsas judiciais para colocar os principais dirigentes petistas atrás das grades.
E não se pode de maneira nenhuma confundir o Brasil com o STF, criticar este não é atacar aquele. Antes o contrário. Ao colocar Lula na cadeia, o Supremo estava agindo sob ordens dos norte-americanos, que planejaram e conduziram o golpe de 2016.
8 de janeiro
Boa parte da esquerda não entendeu que o julgamento da “trama golpista”, é mais uma farsa jurídica, se trata de outra etapa do golpe, que tinha como plano a prisão de Jair Bolsonaro para depois negociar com este o apoio a um candidato da “terceira via”.
O julgamento de cidadãos comuns, sem foro privilegiado, pelo STF, é extremamente malvisto pela população, que sabe que apenas uma ditadura seria capaz de condenar uma mulher por passar batom em uma estátua.
Finalmente, há um ponto que chama a atenção no texto, o que diz que “a tecnologia (IA) e similares devem ser controladas para não influenciarem negativamente o processo democrático de escolha dos mandatários do Brasil”. Esse é um erro, a esquerda deveria abraçar as tecnologias, pois elas possibilitam um amplo alcance a um preço baixo, o que é especialmente importante para democratizar as eleições. Além disso, a grande imprensa, as que mais influenciam, desde sempre, agem livremente e ninguém, além da burguesia, as controla.





