Presidente Lula

Afinal, amigo ou inimigo de Donald Trump?

Jornalista mostra a contradição da esquerda pequeno-burguesa, completamente desorientada diante dos acontecimentos internacionais

Lula

O artigo O Brasil é Lula, de Marcelo Zero, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (22), tem posicionamentos no mínimo estranhos. A começar pelo primeiro parágrafo, que diz que “quem prejudica as relações bilaterais entre Brasil e os EUA é a extrema direita. Não é o governo Lula”. Mas o governo Trump não é ele mesmo de extrema direita? Talvez isso seja coisa do passado, desde que Lula declarou que tinha o mandatário americano como amigo seu.

Marcelo Zero sustenta que “as sanções adicionais de 40% sobre todos os produtos brasileiros, que tanto prejudicaram nossa economia, e ainda prejudicam (embora em grau bem menor), foram articuladas diretamente por Eduardo Bolsonaro e outros” e diz também que “Jair Bolsonaro o enviou aos EUA exatamente para isso”, mas ninguém vai acreditar que um brasileiro tenha o poder de dar diretrizes para o governo norte-americano.

Adiante, o jornalista diz que o mesmo aconteceu ou acontece no caso da aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, no cancelamento de vistos de autoridades brasileiras, nas investigações contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio estadunidense, na pressão para caracterizar as organizações criminosas do Brasil como ‘narcoterroristas’, etc”. O jornalista, porém, se esquece de dizer que a aplicação da Lei Magnitsky, dentre as arbitrariedades de Donald Trump, não foi contestada por nenhuma das “democracias”, pois elas todas concordam com essa lei, bem como todo tipo de sanções impostas a pessoas e países “rebeldes”.

Portanto, nem por um segundo se pode concordar que “todos esses atritos foram e são articulados por nossa extrema-direita”. Quem provocou os EUA, por exemplo, para darem um golpe em 2016? Fizeram porque acharam que deveriam.

Marcelo Zero escreve sobre o caso de Alexandre Ramagem, “foragido da justiça do Brasil, condenado a mais de 16 anos por participação abundantemente comprovada na tentativa do golpe de Estado de 2022/2023”. O problema é que nada foi provado abundantemente, muito menos se tentou um golpe de Estado, a menos que alguém acredite que portar um batom é o mesmo que estar armado. O julgamento foi nos moldes da Lava Jato: uma farsa.

Apesar de toda crítica que Trump vem recebendo sobre sua política de extradição, o jornalista diz que Ramagem está com passaporte anulado “e seu visto estadunidense está vencido. Está, portanto, em situação irregular, nos EUA, ou seja, está qualificado para a deportação.”

De que adianta a desculpa de que “é o que os EUA, sob Trump, vêm fazendo com milhares de imigrantes, inclusive brasileiros”? Pois, querendo ou não, o Marcelo Zero quer que Trump faça valer sua doutrina.

A guerra contra o Irã

O articulista diz que “o mundo inteiro está criticando Trump por causa da guerra no Irã, um erro estúpido e crasso de um presidente totalmente desclassificado para o cargo, que está prejudicando fortemente a economia internacional”. E diz ainda que “até mesmo a Itália de Meloni está procurando manter distância de Trump, principalmente depois que ele atacou o próprio Papa. Trump está se tornando cada vez mais ‘tóxico’”.

Acontece que o “mundo inteiro” estava apoiando a guerra de agressão contra o Irã, inclusive a Itália, e só começaram a ficar “contra” quando a operação se demonstrou um fracasso.

O jornalista deve se lembrar que, além da Itália, Reino Unido, Alemanha, França e Austrália, e também as monarquias petrolíferas, participaram do ataque ao Irã.

Não apenas isso, as “democracias” deixaram cair suas máscaras nessa guerra contra o Irã; também estiveram envolvidas no genocídio na Faixa de Gaza e esse envolvimento foi amplo, envolveu o envio de tropas especiais, fornecimento de informações de inteligência, armas, financiamento, etc. Além da repressão brutal contra manifestantes que se atrevam a apoiar a Palestina.

Na super democrática Alemanha, pessoas são presas se disserem a frase “Palestina livre do rio ao mar”. No Reino Unido, pessoas idosas, e mesmo em cadeiras de rodas, foram presas por portarem cartazes denunciando o genocídio contra os palestinos. Qual a diferença disso para a extrema direita?

Eleições 2026

Segundo Marcelo Zero, “os candidatos trumpistas do Brasil, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Caiado etc. tendem a se desgastar, com essas demonstrações desavergonhadas de submissão vil”. Mas, por falar em submissão, como caracterizar a postura do governo Lula com relação às eleições venezuelanas, no veto da entrada da Venezuela no BRICS e no descaso com o sequestro de Nicolás Maduro?

Por outro lado, não é muito provável que os bolsonaristas se desgastem por sua política com relação aos EUA, é muito comum que se vejam bandeiras desse país e até mesmo de “Israel” nas manifestações da direita.

Enquanto isso, a aproximação do governo Lula com o STF tem um grande potencial de desgastar a imagem do presidente.

Marcelo Zero termina seu artigo afirmando que “Brasil é Lula”. Pode ser, mas o cenário não é tão tranquilo. Aliás, não é nada tranquilo. Além da aproximação com o STF, a burguesia deixou em aberto a questão do escândalo do INSS, que pode ser explorado a qualquer momento para prejudicar a imagem de Lula, uma vez que seu filho é citado no caso.

A política econômica de Lula foi péssima, especialmente na questão dos juros, que estão elevadíssimos e corroem a renda das famílias, muito endividadas.

Talvez o Brasil ainda seja Lula, mas a burguesia deu sinais de que não quer sua candidatura e é pouco provável que o governo dê uma guinada tendo em vista as eleições. A questão é que o tempo está muito curto e sem perspectivas de mudanças da parte do petista.

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