Polêmica

Não dá para ser a favor da ‘democracia’ e da revolução ao mesmo tempo

Defesa da 'democracia', sem especificar para qual classe ela serve é um erro teórico e uma armadilha política

Democracia burguesa

A esquerda que se diz “revolucionária”, conforme se aproximam as eleições, acaba se revelando o que sempre foi: uma gente reformista que defende a democracia, não o socialismo. Temos isso muito claro no artigo Para ganhar a eleição, Lula tem razão!, assinado par André Valuche e publicado nesta terça-feira (21) no sítio Esquerda Online.

“Todos que estão empenhados na reeleição de Lula precisam refletir sobre sua fala na Espanha”, inicia o texto, que também diz que “nela, o presidente reafirma a importância do debate sobre quais caminhos políticos devem ser seguidos para derrotar a extrema direita e impedir um eventual governo de Flávio Bolsonaro”.

O primeiro problema está na proposição de que o problema é derrotar a extrema direita, o que, como se sabe, é também a política do imperialismo.

Para supostamente derrotar a extrema direita e o bolsonarismo — isso já vimos na prática nas prévias da última eleição —, a esquerda pequeno-burguesa propôs a unidade com setores do “campo progressista”, o que incluía, como já denunciamos, figuras como João Doria, que também atendia à época pela alcunha “Bolsodoria”.

Conforme o artigo, “quando Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a esquerda virou “o sistema”, ele parece finalmente admitir que governar conciliando com elites econômicas, banqueiros e velhos privilégios transforma qualquer projeto popular em mera gerência do neoliberalismo. A ironia é que quem diz isso não é um analista externo, mas o próprio presidente”.

Antes mesmo de Lula, este Diário já vinha apontando que o fato de a esquerda se identificar como o sistema é que estava empurrando setores inteiros da classe trabalhadora para o bolsonarismo e que seria preciso dar o combate político em vez da estratégia pouco inteligente de tratar todo mundo como “gado”.

Também denunciamos que a proximidade com o Supremo Tribunal Federal – detestado pelo povo –, o apoio à censura, a luta contra a liberdade de expressão, a defesa da criação de novos crimes e aumento de penas, tudo isso seria determinante para a classe trabalhadora se afastar dessa esquerda e procurar alternativas.

No terceiro parágrafo, o texto afirma que “hoje, no Brasil, posar de antissistema virou moda entre setores da extrema direita. Mas o verdadeiro gesto antissistema seria mexer no bolso dos poderosos e redistribuir riqueza. Algo que Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Romeu Zema, Sergio Moro, entre outros, jamais fariam. Afinal, eles são parte desse sistema concentrador de riqueza, machista, racista e LGBTfóbico”.

“Mexer no bolso dos poderosos e redistribuir riqueza” em si não é ser antissistema. Afinal, o que foi a política de bem-estar social que vigorou em alguns países da Europa? A burguesia pode muito abrir mão de parte de seus ganhos para evitar a radicalização da sociedade.

Por outro lado, mudanças que não sejam estruturais podem ser facilmente destruídas, basta ver o que fez o golpista Michel Temer na sua curta passagem pela presidência da República: arrasou tudo o que o PT deixou nas gestões de Lula e Dilma. Implementou o teto de gastos e fez terraplanagem na Previdência e nas condições trabalhistas.

A esquerda, por outro lado, deveria esquecer essa questão de machismo, racismo e fobias em geral, pois a classe trabalhadora, na sua maioria, não liga, ou é contra, como no caso do uso de banheiros femininos por mulheres trans. O identitarismo não é bem-visto pela população.

Mais adiante o texto traz que “não se trata de gritar contra Brasília enquanto se protegem privilégios. Trata-se de democratizar radicalmente o Estado e enfrentar os donos do dinheiro.” Democracia radical, é essa a proposta do Esquerda Online?

Lênin argumentava que falar em “democracia” sem especificar para qual classe ela serve é um erro teórico e uma armadilha política. Em sua obra A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky (1918), ataca a ideia de uma democracia neutra, pois mesmo a república democrática mais radical e avançada (com sufrágio universal, liberdade de imprensa, etc.) permanece sendo uma ditadura da burguesia. Nesta, os trabalhadores são impedidos de exercer o poder real por barreiras invisíveis, como o custo das campanhas eleitorais, a propriedade dos meios de comunicação e a estrutura da burocracia estatal.

Em O Estado e a Revolução (1917), Lênin utiliza uma metáfora famosa: a república democrática é o “melhor invólucro político possível” para o capitalismo.

Lênin visava não menos democracia, mas sim uma mudança de sua base social. Defendia, por exemplo, que a Comuna de Paris e os Sovietes (Conselhos) eram formas de democracia “mil vezes mais democráticas” que a democracia parlamentar.

Em contraste com o que pensa um verdadeiro marxista, o Esquerda Online propõe coisas do tipo: “redução dos salários e penduricalhos parlamentares”, “combate aos privilégios da alta cúpula do serviço público”, “taxação dos super-ricos”, e ainda acredita que isso seja “radicalizar na democracia”.

No final do texto, o grupo lista aquilo que entende restar como saída: “Menos conciliação com os de cima. Mais ligação com os de baixo. Menos Faria Lima. Mais povo.”

As propostas dessa esquerda se inserem todas dentro da democracia burguesa e de seu aprofundamento. A “luta contra o fascismo” leva à conciliação de classes, o que demonstra a falência ideológica e programática de todo um setor que até outro dia se dizia do lado da revolução proletária.

O fascismo nada mais é que uma faceta do imperialismo, e este é o verdadeiro inimigo a ser derrotado.

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