O artigo EUA-Irã: do fracasso nas negociações ao bloqueio e o impasse estratégico, de Juan Chingo, publicado no sítio Esquerda Online, ligado ao MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores, chama a atenção pelo tom “neutro” que assume; o que é estranho para um grupo de esquerda. O jornal tem que ser, como formulou Lênin, uma arma de luta, de organização partidária, não uma peça de reprodução de textos que podem ser encontrados em qualquer jornal burguês.
No primeiro parágrafo está escrito que “o fracasso das conversas entre Estados Unidos e Irã em Islamabad abriu uma nova fase, marcada pela escalada e pela manutenção de canais de comunicação entre Teerã e Washington. Após mais de vinte horas de negociações sem resultados, a resposta de Washington foi o início de um bloqueio naval orientado a restringir o tráfego de petroleiros iranianos no estreito de Ormuz e seus acessos no Golfo Pérsico e no mar de Omã”.
O texto continua nesse tom, tenta fazer um panorama das negociações, de seu fracasso, mas deveria ter partido do ponto em que o cessar-fogo e as negociações representam uma terrível derrota do imperialismo. Em vez disso se lê que “or enquanto, a via militar mostrou limites claros. Após semanas de bombardeios intensivos por parte dos Estados Unidos e de Israel, não chegou-se a destruir as principais capacidades do Irã e nem alterar decisivamente o equilíbrio estratégico. A ideia de forçar uma mudança de regime mediante a superioridade aérea voltou a demonstrar sua ineficácia”.
Se o imperialismo não atingiu seus objetivos e se pediu cessar-fogo e pede negociações, qual é o nome disso?
O MRT diz que “o bloqueio naval já em curso aparece como uma saída intermediária. Sua lógica é clara: aumentar o custo para o regime iraniano sem cruzar – no entanto – a fronteira de uma confrontação direta renovada”, etc. A questão é que essa proposta é uma impossibilidade, nem de longe se trata de uma “saída intermediária”. Donald Trump está tentando arranjar uma saída honrosa para sua derrota e esse “bloqueio” é uma pantomima.
A China já avisou que se houver algum ataque a seus navios responderá. O Irã, por sua vez, ameaçou que se os EUA tentarem bloquear seus portos ou o Estreito de Ormuz, perderá também o Estreito de Bab el-Mandeb, controlado pelo Iêmen, que dá acesso ao Mar Vermelho.
União Europeia
Juan Chingo diz que “no plano internacional, aliados tradicionais tem evitado alinhar-se plenamente com a escalada. As tensões com as potências europeias são evidentes, enquanto que atores como a Coreia do Sul tem expressado críticas abertas às ações israelenses”. Apenas se esqueceu de dizer que no início da guerra de agressão as potências “democráticas” europeias estavam com Trump, o fascista. As tensões foram surgindo conforme o Irã foi impondo perdas catastróficas a “Israel” e alvejado a poderosa marinha americana. Além de derrubar caças bombardeios e derrubar uma quantidade enorme de drones caríssimos dos inimigos.
O tom frio da matéria tem um motivo, não pode elogiar a vitória sem precedentes do Irã sobre o imperialismo, que se encontra em uma situação inusitada: um verdadeiro atoleiro.
A esquerda pequeno-burguesa não reconhece o caráter revolucionário do Irã, trata o país como se fosse uma teocracia, uma ditadura sanguinária, tudo em conformidade com a imprensa burguesa.
Guerreirismo?
Partindo para o final do texto, o MRT apresenta um texto complemente estranho, fala sobre “o custo para a classe trabalhadora e a oposição ao guerreirismo”. Diz textualmente que “enquanto a escalada avança, os custos recaem de maneira desproporcional sobre a classe trabalhadora, tanto na região como a nível global”.
Adiante, se lê que “o Oriente Médio, as consequências são diretas: milhares de mortos, destruição de infraestruturas e economias devastadas. No Irã e no Líbano, a população paga o preço imediato da guerra”.
Não fica claro que o Irã não tinha saída. Aliás, o país esteve sob a mira do imperialismo desde a Revolução Islâmica, em 1979; por isso, vem se preparando desde então para a guerra. Planejou e viabilizou o Eixo da Resistência.
A crítica às guerras não podem ser feitas de maneira abstrata, um pacifismo burguês enrustido. Existem guerras justas, como a do Irã, dos palestinos e dos libaneses contra o imperialismo.
Sobre a guerra, o MRT diz que “o resultado é claro: mais gasto militar, mais tensões, mais risco de guerra. E esse custo não é pago pelas elites que tomam as decisões, é a classe trabalhadora que paga, através da inflação, deterioração das condições de vida e, em última instância, a possibilidade de ser arrastada a conflitos colocando-a para enfrentar trabalhadores de outros países”.
O que se nota no texto é uma tentativa de transportar para os dias atuais a oposição que os bolcheviques fizeram à I Guerra Mundial. Ali, no entanto, a denúncia era correta, pois se tratava de uma guerra entre potências imperialistas que colocava trabalhadores de diversos países uns contra os outros para defenderem os interesses do grande capital.
No caso do Irã, da Palestina e da Líbia, os trabalhadores de países atrasados estão lutando contra o imperialismo, é uma situação completamente diferente.
Levar essa questão para o custo de vida é uma capitulação.
Dizer que “a oposição ao guerreirismo é uma necessidade vital: rechaçar desde o início uma lógica que obriga as maiorias a pagar com seu nível de vida – e potencialmente com suas vidas – guerras que não respondem aos seus interesses”, é uma falsidade.
Os trabalhadores de todos os países afetados pela guerra contra o Irã devem se solidarizar com os iranianos, pois estão fazendo um sacrifício enorme. Aliás, já vêm pagando há décadas em função de um bloqueio econômico criminoso imposto pelo imperialismo.
Essa questão do custo de vida nem deveria ter sido levantada. A classe trabalhadora iraniana e a do restante do mundo são uma só e o imperialismo é seu inimigo comum. Não é à toa que o Manifesto Comunista termine com a palavra de ordem “Proletários de Todos os Países, Uni-vos!”.





