Setores da esquerda passaram tanto tempo falando em “disputa de narrativa” que acabaram acreditando que tal coisa existe, ou tem importância. O artigo de Esmael Morais, CNT põe Lula perto da vitória no 1º turno, publicando no Brasil 247 nesta terça-feira (14), segue essa tendência.
Morais afirma que “o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em posição para tentar liquidar a disputa já no primeiro turno, segundo a 167ª Pesquisa CNT de Opinião, divulgada nesta terça-feira (14). No cenário estimulado, Lula tem 39,2% das intenções de voto, contra 30,2% de Flávio Bolsonaro, enquanto os demais nomes testados ficam muito atrás e não conseguem romper a polarização”. Tem muita água para rolar por baixo dessa ponte essa é apenas uma pesquisa dentre as muitas que ainda serão feitas.
Dos dados apresentados, pelo menos um, de fato, favorece Lula, o de que os nomes fora dos dois principais estão muito atrás. Esbanjando otimismo, Morais diz que “o dado bruto já é forte, mas a leitura política é ainda mais relevante. Ronaldo Caiado marca 4,6%, Romeu Zema 3,3%, Renan Santos 1,8% e Aldo Rebelo 1,5%. Somados, esses quatro chegam a 11,2%, menos de um terço do que Lula tem sozinho. Isso mostra uma direita dividida fora do bolsonarismo e uma terceira via ainda sem lastro nacional”.
Outras pesquisas, porém, apontam crescimento estável de Flávio Bolsonaro e derrota de Lula no segundo turno com a soma dos votos de uma direita supostamente unificada.
Já ganhou?
Segundo o jornalista, “na prática, Lula está perto do patamar decisivo quando se olha apenas para os votos em candidatos, sem branco, nulo e indecisos. Pelo cenário da CNT, ele beira 49% dos votos válidos projetados nesse recorte, porque branco e nulo somam 10,4% e os indecisos, 8,9%. Não é vitória fechada, mas é distância curta para quem lidera com folga sobre o segundo colocado”. Mas ainda estamos em abril, as eleições serão em outubro.
O que o governo tem para apresentar para tentar manter esse quadro descrito acima, e como ampliá-lo? Até agora, a política econômica não apresenta nada de positivo, apesar da propaganda e dos índices apresentados. O que é inútil, pois índices não se come, nem servem para se diminuir as dívidas no cartão de crédito.
“Há outro ponto a favor do presidente”, diz Esmael Morais, “Entre os eleitores de Lula, 77% dizem que seu voto é definitivo. No caso de Flávio Bolsonaro, esse índice cai para 69%. Isso sugere uma base lulista mais consolidada neste momento, menos sujeita a deserção no meio da campanha”.
Morais aponta que “a pesquisa também mostra que Lula segue sendo o nome com maior alcance eleitoral. Seu potencial de voto está em 50,5%, acima dos 40,7% de Flávio Bolsonaro. Em português claro, Lula tem mais espaço para crescer do que seu principal adversário, mesmo carregando rejeição alta”.
O jornalista escreve que “o desenho da disputa reforça essa possibilidade. A própria síntese da CNT registra que Lula lidera na espontânea e na estimulada e mantém vantagem em todos os cenários de segundo turno. Ao mesmo tempo, o instituto anota que quase um terço do eleitorado prefere um nome fora de Lula e da família Bolsonaro, mas nenhum dos candidatos apresentados conseguiu ocupar esse terreno de forma competitiva”.
De onde conclui que “é aí que mora a chance real de vitória já em outubro no primeiro turno”, e completa dizendo que “se a campanha caminhar para um voto útil contra o bolsonarismo, parte desse eleitor que hoje flutua entre nomes fracos ou ainda está indecisa pode migrar para quem já aparece na frente. A CNT mostra essa avenida aberta para Lula”.
Não deve ter ninguém na equipe de Lula, apesar do otimismo incorrigível, que trabalhe com a hipótese de vitória na primeiro turno. Mesmo uma vitória já está dando mostras de que pode vir a ser uma realidade.
Encarar a realidade
Ninguém pode afirmar neste momento quem vencerá as próximas eleições, mas ficar se prendendo a números e criando fatos a partir de dados parciais, não ajuda em nada.
O identitarismo acostumou a maior parte da esquerda a dizer que quando se vence uma “narrativa”, as coisas mudam no mundo. Um exemplo é a questão de gênero. Durante muito tempo se “narrou” a questão de gênero. Leis foram criadas a partir desse conceito absurdo. No entanto, a realidade reage e passa desmentir tudo o que se inventou sobre o assunto.
As melhores “narrativas” sobre o desempenho de Lula não vão substituir a realidade material. A burguesia está em uma campanha aberta para que o presidente desista de concorrer.
Existem ainda duas questões importantes em andamento: a crise no Supremo Tribunal Federal e o escândalo do INSS. Se a imprensa trabalhar esses temas, o desgaste de Lula será enorme.
O governo, conforme já apontamos mais de uma vez, cometeu um grave erro ao se aliar ao STF. Lula esteve em público aconselhando Alexandre de Moraes a preservar a própria biografia, na qual consta, inclusive, um voto para manter Lula ilegalmente na cadeia.
Quanto ao INSS, o filho de Lula, o Lulinha, aparece como envolvido; e mesmo que não haja qualquer irregularidade, basta que a imprensa faça com que as pessoas acreditem que sim. Passadas as eleições, bastará publicar uma ou duas matérias desmentindo tudo, mas o estrago já estará feito.
O PT, caso queira vencer as eleições, precisa largar as “narrativas” e encarar os fatos. Na última eleição, Lula quase perdeu, pois passou quase toda campanha atrás dos cercadinhos.
Até agora, muito pouco foi feito e nada indica que haverá grandes mudanças.





