A fé na vitória de Lula para as próximas eleições parecia inabalável para alguns setores da esquerda, mas o tom já não é tão otimista, como mostra o artigo Números das pesquisas oscilam, mas Lula não se abala, faz aquecimento, de Denise Assis, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (14). O texto é sobre a entrevista do presidente no mesmo dia, no qual, segunda afirma a articulista, “Lula marcou posição e o que se viu foi um candidato indignado, mobilizado e, sim, irritado com uma guerra que se mostrou suja nos primeiros passos dessa estrada, que ele vai percorrer até as urnas”.
Essa atitude mais “agressiva” de Lula deve ser uma reação às pesquisas que apontam o crescimento de Flávio Bolsonaro e um segundo turno onde perderia para qualquer candidato com a direita unificada.
O presidente teria iniciado sua fala tratando da questão das “bets”, casas de apostas, que estariam endividando as famílias. Lula trata o tema com cuidado, pois, segundo a jornalista, “é um tema espinhoso, que envolve grandes conglomerados de mídia, empresários poderosos, jogadores famosos, times de futebol e outros segmentos que podem abalar os alicerces de sua candidatura”.
Outra preocupação de Lula seriam os jovens, que enfrentam o mundo cruel das entregas, e que quer “amenizar um pouco a crueza do cotidiano dos que levam na garupa o que não comem, sem ter nem sequer onde parar para um xixi ou para carregar o celular, o seu instrumento de trabalho”. Isso contrasta bastante com o que tem sido divulgado sobre os índices incríveis de desemprego em baixa histórica, etc. Muitos brasileiros estão se virando fazendo entregas, um tipo de trabalho sem nenhuma garantia, benefícios, ou controle de horário.
Denise Assis diz que “Lula demonstrou na conversa que ter no seu calcanhar a nulidade de um Flávio Bolsonaro, com um histórico que está mais para folha corrida do que para currículo de candidato, o faz corar e falar com a veemência que usava em seus palanques de campanha”. A tática de falar de “folha corrida” dos Bolsonaros também tem se mostrado uma nulidade, pois o candidato não tem recuado nas pesquisas.
Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO, assinalou que, em vez de ficar falando “rachadinha” e outros temas, Lula deveria discutir a política econômica apresentada por Flávio Bolsonaro, abertamente entreguista. Isso deveria ser tema de um grande debate que, seguramente, mobilizaria o debate. Além de ser um tema realmente importante.
A culpa é de quem?
“Não há nos desvalidos que ele beneficiou”, segundo a jornalista nenhum reconhecimento. ‘Não fez mais do que a obrigação’, parecem dizer, numa época em que as redes e as igrejas neopentecostais ditam as regras na política”. Além de coloca a culpa na população que seria ingrata, Assis também cita as redes sociais e as igrejas pentecostais. Não ocorre a ela que o problema talvez esteja no governo que tem entregado muito pouco para a população.
Com relação às redes, qual é a dificuldade do Partido dos Trabalhadores e a esquerda utilizarem as redes sociais em seu benefício? É uma arma poderosa que a direita tem utilizado. No quesito “igrejas pentecostais”, que trabalho tem sido feito aí? Existem evangélicos de esquerda e a maioria dos fiéis é da classe trabalhadora. Será que o PT não sabe como falar com essa gente?
Para Denise Assis, o presidente “á mostras de que está doido para entrar em campo, voltar para as ruas e enfrentar a concorrência no seu velho estilo. Mas, até lá, vai ter que avaliar se seu estilo está mesmo velho. Se o tal “olho no olho”, de que tanto fala, ainda resulta na faísca que hipnotiza o eleitor e o arrasta para apertar o 13. Isso é trabalho para a sua equipe. O que Lula quer mesmo é entrar logo no jogo”.
Vamos ver se o PT vai conseguir reverter o quadro desfavorável, pois o que se vê, além de seus concorrentes, é uma imprensa claramente querendo que desista da eleição.
Após falar da dança dos números, do quadro eleitoral de 2022, Assis escreve que “apesar da subida de Bolsonaro, Lula mantinha uma liderança sólida, vencendo em todos os cenários de segundo turno projetados pelos institutos (com margens que variavam entre 15 e 20 pontos de vantagem) naquele cenário. A tal da terceira via nunca vingou”.
De certo modo, que a polarização esteja entre Lula e Flávio Bolsonaro favorece o petista. O projeto da terceira via teima em não querer vingar em uma sociedade cada vez mais dividida, como no Brasil.
Preparo
“Lula demonstrou na entrevista”, escreve Assis, “não ter ainda um discurso pronto e acabado para a classe média. Essa mesma, endividada no cartão de crédito, nas páginas digitais da Shein, da Temu e outras pragas, que levam todo o dinheiro das famílias”.
A jornalista põe novamente a culpa na população. Diz que “enquanto o vício dos homens são os tigrinhos, as bets, as mulheres se afogam em promoções de blusas, bolsas e calçados nos sites de compras pela internet. Lula, como descreveu, sabe onde aperta os sapatos da classe média, adquiridos via online”.
Não ocorreu à jornalista que a culpa do endividamento seja culpa de uma economia fraca e de uma taxa de juros monstruosa.
Após afirmar que a classe média aumenta suas dívidas no empréstimo consignado, cujas taxas são um verdadeiro roubo, quem se convence com argumentos do tipo “o governo conseguiu segurar o dólar, que caiu abaixo de cinco reais, elevar a movimentação da bolsa de valores e a oferta de emprego”?
Não adianta dizer que “o difícil é traduzir para o povo que quando esses índices vão bem, a vida melhora” se a vida está piorando.
Segundo Denise Assis, “Lula aguarda no aquecimento a hora de explicar, com a sua linguagem clara, o que é fascismo, o que é defasagem salarial, e por que, afinal, o que é dito lá fora, reverbera aqui, e sacode o preço da gasolina”. Mas teria feito melhor se reestatizasse integralmente a Petrobrás, e estaria explicando como essa medida gera empregos e segura o preço dos combustíveis enquanto o mundo sofre com a crise da guerra contra o Irã.
“O presidente não teme os números das pesquisas”, diz a jornalista, mas deveria temer. Além do mal desempenho na economia, Lula ainda deverá enfrentar o desgaste do Supremo Tribunal Federal no caso do Banco Master, Além do caso do INSS, que envolve seu filho, e que “os produtores de falsos Powerpoints” vão saber explorar.





