Recente entrevista de Lula ao ICL repercutiu por causa de sua declaração sobre o “companheiro Moraes”, a quem aconselhou manter distância dos julgamentos do caso Master e justificar com mais firmeza a bem-sucedida atuação de sua mulher no mercado da advocacia empresarial, ao mesmo tempo que reconhecia como imoral o recebimento da dinheirama do banqueiro desonesto. A última entrevista, agora concedida aos sites 247, Fórum e DCM, não teve frases de impacto. O ponto alto, aparentemente, seria a disposição de Lula a concorrer ao pleito, contrariando especulações lançadas na imprensa da burguesia. Ainda assim, ficamos com a sensação de que a entrevista foi “chocha”, na falta de termo mais erudito e menos claro.
Logo de início, Lula desandou a falar de sua forma física, numa atitude um tanto defensiva – naturalmente desnecessária, pois estava entre simpatizantes, mas provavelmente ensaiada em alguma sessão de “media training”. Muito distante do velho Lula (ou do Lula jovem), que falava com espontaneidade e conquistava multidões, este Lula é o retrato de seu governo: “sem lide”, como se diz no meio jornalístico, ou sem uma marca forte.
Quando lhe foi perguntado a que se deve a sensação da população, inclusive da classe média, de que o salário até aumentou, mas não chega ao fim do mês, Lula entrou no tema do endividamento popular e das “bets”, que drenam o dinheiro da população e às quais ele é contra. Depois de contar que conversa com o “povo” à beira da piscina, ele disse que as pessoas gastam mal, desperdiçam, e relatou um caso pessoal. Dizendo não gostar de cartão crédito, porque é uma forma de gastar “sem sentir”, ele se lembrou de estar na Suíça quando cobiçou um objeto que custava US$ 200 e, como não tinha dinheiro vivo, comprou-o com o cartão que nunca usava. Subentende-se que, caso não tivesse cartão, teria evitado a compra por impulso. Enfim, a conclusão talvez seja a de que pobres desperdiçam em sites de aposta e a classe média compra no cartão por impulso, como ele fez na Suíça. Assim, o problema é de comportamento e de falta de educação financeira.
Sobre a Venezuela, apenas repetiu que Nicolás Maduro prometeu mostrar as atas da eleição e não mostrou. Sendo assim, ele não reconheceu a eleição, embora tenha optado por não fazer críticas severas ao processo. Na opinião de Lula, ao que se depreende, Maduro deveria provar para o imperialismo, patrocinador da oposição, que não houve fraude eleitoral. Por que não? Simples assim. Simplista, simplório. Depois vetou a Venezuela no BRICS e, já na fase da química com Donald Trump, que garantiu o alívio das taxas de importação e a liberação do cartão de crédito do companheiro Moraes, optou por silenciar quanto ao sequestro de Maduro, hoje preso com sua mulher nos Estados Unidos.
Uma pergunta, do próprio Leonardo Attuch, sobre a possibilidade de o Brasil romper relações com “Israel” desencadeou mais uma resposta ensaiada. Não sem antes dizer que precisaria tomar muito cuidado para falar sobre isso, atribuiu a carnificina de Gaza e os ataques ao Irã e ao Líbano à falta de humanidade de Netanyahu, que não representa o povo de “Israel”. Explicou que não poderia tomar a atitude de romper com “Israel” porque a comunidade judaica no Brasil tem mais de 250 mil pessoas que ajudaram a construir o país. Então fica a dúvida: se Netanyahu não representa nem o povo de “Israel”, que, de fato, em parte, desaprova os seus atos, por que uma ruptura com esse governo assassino desagradaria à comunidade judaica do Brasil? Vamos trocar “comunidade judaica” por “lobby sionista” e talvez as coisas façam mais sentido. Lula, claro está, tem medo desse poderoso e beligerante “lobby”. Sabemos que é muito difícil para ele, dado o rumo que optou por seguir, fazer qualquer coisa diferente, mesmo que queira.
Sobre a reestatização da Petrobras, uma promessa de campanha lembrada por Attuch, Lula avisou que o contrato prevê prazo até 2029 para que se faça qualquer mudança – o mesmo valendo para a Eletrobras, que também tem lá um contrato a ser respeitado. Além disso, reiterou que tem de pagar a dívida pública, nada disse sobre a taxa de juros – e vida que segue. A sensação é que Lula assumiu um tom peessedebista, sem graça, em cima do muro. Não custa lembrar que o espírito do tempo exige posicionamento claro e, talvez por isso mesmo, a extrema direita se saia bem nas redes sociais. Sem medo de ofender quem quer que seja – e dando uma banana para a cultura woke –, passa a impressão de ter convicção de seus princípios.
O Lula que se apresenta disposto a conquistar o quarto mandato parece falar mais com a burguesia, a quem parece pedir licença, do que com o povo. Talvez isso tenha dado certo em outros tempos, quando o povo o identificava como um dos seus e os votos populares estavam garantidos. Hoje Lula fala com o povo à beira da piscina, como a pequena burguesia que troca um dedo de prosa com a empregada doméstica para saber como é a vida de quem ganha tão pouco e se locomove nas latas de sardinha do transporte público. Que fique claro: o problema não é Lula ter melhorado de vida (e assumido os cacoetes da classe média), mas o fato de o povo continuar na mesma situação de sempre, agora apostando nas “bets” na esperança de completar o orçamento ou preferindo “bicos” a emprego formal de R$ 1.500 para não perder o Bolsa Família, que pode representar a segurança de conseguir pagar o aluguel, e assim por diante.
Em suma, Lula está bem-disposto e disposto a pleitear o quarto mandato, mas, pelo menos por enquanto, não há sinais de uma guinada à esquerda. Resta saber se fazer a política de “combater o fascismo”, que, reiterando ser “cristão”, Lula disse ser a sua missão, sem confrontar o imperialismo e a burguesia entreguista, vai conquistar corações e mentes.





