O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu neste domingo (12) a derrota de seu partido, o Fidesz, nas eleições parlamentares do país, encerrando um ciclo de 16 anos no poder. Com mais de 98% dos votos apurados, o partido Tisza, liderado por Péter Magyar, aparecia com 138 das 199 cadeiras do Parlamento, maioria de dois terços suficiente para alterar a Constituição, enquanto o Fidesz ficava com cerca de 54 ou 55 assentos. Orbán classificou o resultado como “claro” e “doloroso” e afirmou que seu partido seguirá na oposição.
A vitória de Magyar foi imediatamente saudada pelos principais dirigentes do bloco imperialista europeu. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que “a Hungria escolheu a Europa”. A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou que “o lugar da Hungria é no coração da Europa”. Emmanuel Macron disse receber o resultado como uma vitória do apego do povo húngaro aos “valores da União Europeia”. O chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o premiê polonês Donald Tusk e outros chefes de governo também comemoraram a derrota de Orbán.
A reação foi reveladora do que estava em jogo. Orbán havia se transformado em um dos principais obstáculos internos à política de guerra da União Europeia. O governo húngaro vinha bloqueando ou atrasando medidas de apoio ao regime ucraniano, opunha-se ao aprofundamento do confronto com a Rússia e resistia à integração plena da Ucrânia aos organismos imperialistas. Também vetou um pacote europeu de cerca de 90 bilhões de euros para a Ucrânia e manteve a cooperação energética com a Rússia, em especial por meio do oleoduto Druzhba.
Durante toda a campanha, a guerra na Ucrânia esteve no centro da disputa. Orbán insistiu que a eleição definiria se a Hungria permaneceria fora da guerra ou se passaria a seguir a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em pronunciamento no dia da votação, afirmou que “a paz e a segurança da Hungria podem depender de um único voto”, advertindo contra as ameaças vindas do bloco europeu e acusando o Tisza de agir em sintonia com a política europeia e ucraniana. Em outro momento da campanha, sustentou que havia um eixo “Bruxelas–Berlim–Varsóvia–Kiev” atuando para derrotá-lo, fazendo referência, respectivamente, a União Europeia, Alemanha, Polônia e Ucrânia.
A oposição de Péter Magyar assumiu posição abertamente favorável à reaproximação com a União Europeia. Em seu discurso de vitória, o dirigente do Tisza declarou que os húngaros haviam dito “sim” à Europa e prometeu reintegrar o país ao sistema judicial da União Europeia, além de tornar a Hungria novamente uma “forte aliada” da União Europeia e da OTAN. Também anunciou que sua primeira viagem como primeiro-ministro será à Polônia, seguida de Áustria e Bélgica (sede da União Europeia).
A vitória foi celebrada também por Vladimir Zelensqui, que felicitou Magyar pela “vitória retumbante” e disse que era importante quando prevalece uma “abordagem construtiva”. A declaração expôs de maneira aberta o interesse do regime ucraniano no resultado húngaro. Orbán vinha sendo um dos poucos chefes de governo europeus a resistir à escalada militar em torno da Ucrânia e a manter relações diretas com a Rússia. Durante a campanha, foi justamente essa posição que o colocou sob ataque cerrado do imperialismo europeu.
O próprio governo húngaro denunciou repetidamente a ingerência estrangeira no processo eleitoral. Dias antes da votação, o porta-voz do governo, Zoltan Kovacs, acusou o Facebook de reduzir o alcance das publicações de Orbán e ampliar a visibilidade de Péter Magyar. Segundo a denúncia, o algoritmo da plataforma estaria “basicamente trabalhando contra os partidos do governo”. Um relatório do centro MCC Brussels, citado pelo governo, apontou que as publicações de Magyar registravam engajamento muito superior ao do campo governista, apesar de volumes semelhantes de visualização. A Meta negou as acusações.
A denúncia de interferência não se restringiu às plataformas digitais. O governo húngaro já vinha sustentando que a União Europeia, junto com a Ucrânia, conduzia uma campanha articulada para derrubar Orbán. O ministro das Relações Exteriores, Péter Szijjártó, chegou a denunciar que serviços de inteligência da União Europeia teriam grampeado seu telefone com ajuda de um jornalista ligado ao Tisza. Em março, Orbán determinou medidas extraordinárias de segurança e denunciou planos de desestabilização com ligação estrangeira.
O tema apareceu até mesmo na visita do vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, a Budapeste, na reta final da campanha. Embora Vance tenha ido ao país em demonstração de apoio a Orbán, seu discurso também indicou o peso da disputa internacional em torno da eleição. Ele acusou os burocratas da União Europeia de promover um dos piores exemplos de interferência estrangeira em eleições e afirmou que o bloco tentava destruir a economia húngara por se opor a Orbán. O presidente Donald Trump também fez manifestações públicas em favor do premiê húngaro e prometeu apoio econômico caso ele permanecesse no poder.
A importância da eleição foi admitida pela própria imprensa imperialista. A CNN classificou a derrota de Orbán como um grande alívio para os dirigentes da União Europeia, destacando que o premiê húngaro vinha sendo uma “dor de cabeça” para o bloco por bloquear acordos sobre apoio à Ucrânia. A BBC destacou que a vitória de Magyar permitirá “reiniciar” as relações exteriores da Hungria, afastando o país da Rússia em favor de laços mais cordiais com a União Europeia e a Ucrânia.
Péter Magyar chega ao poder com um mandato parlamentar extraordinário. Ex-integrante do próprio círculo do Fidesz, ele rompeu com o governo em 2024 e passou a se apresentar como alternativa ao regime dirigido por Orbán. Na campanha, enfatizou o combate à corrupção, a recuperação da economia, a saúde e a educação, mas evitou detalhar em profundidade sua posição sobre a guerra. Ainda assim, sua linha internacional foi suficientemente clara: aproximação com a União Europeia, restauração do alinhamento com a OTAN e revisão da política de Orbán em relação à Rússia.





