População mexicana protesta desde março contra decisão de herdeiro de coleção de arte de transferi-la para a Espanha. O acervo, conhecido como Coleção Gelman, está atualmente em exibição no Museu de Arte Moderna da Cidade do México e deve deixar o país em julho, como parte de um acordo entre a família mexicana Zambrano, atual proprietária das obras, e o Banco Santander, da Espanha. O banco administrará a coleção enquanto ela permanecer no exterior, e autoridades e pessoas ligadas ao acordo já admitem a possibilidade de as peças ficarem fora do México por um período de cinco a dez anos.
A exposição em cartaz atraiu multidões nas últimas semanas. Cerca de 70 peças da coleção foram reunidas em mostra que, segundo o Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura, recebeu quase 120 mil visitantes desde meados de fevereiro. Para o público mexicano, porém, a exibição assumiu um caráter contraditório: ao mesmo tempo em que permite rever obras que não eram mostradas no país havia quase duas décadas, funciona como despedida de um patrimônio artístico que poderá desaparecer do circuito cultural nacional por muitos anos.
A reação foi imediata entre artistas, pesquisadores, professores e figuras da vida cultural mexicana. Cerca de 380 acadêmicos, artistas e outros nomes do setor assinaram uma carta exigindo que o governo da presidente Claudia Sheinbaum explique por que está autorizando a saída de obras de tamanha relevância. Em outra carta, também tornada pública, o grupo apelou a museus da Noruega, Suíça e Alemanha, que têm exposições programadas com obras de Kahlo, para que se solidarizem com a defesa do direito dos mexicanos ao acesso a esse patrimônio.
O centro da revolta está no entendimento de que a operação representa um despojo cultural. A coleção foi constituída no México por Jacques e Natasha Gelman e, ao longo de décadas, tornou-se uma referência cercada de enorme prestígio simbólico. Entre as peças expostas estão autorretratos de Kahlo e obras de Diego Rivera, José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros, Gunther Gerzso e María Izquierdo. Trata-se de um conjunto ligado diretamente à história do modernismo mexicano e à formação visual do país no século XX. Permitir sua retirada prolongada significa, para muitos, privar o povo mexicano de parte decisiva de sua própria herança artística.
A polêmica também envolve a legislação patrimonial. A obra de Frida Kahlo foi declarada monumento artístico em 1984, e as peças que estavam no México naquele momento não podem deixar o país de forma permanente, ainda que possam ser emprestadas temporariamente ao exterior por até dois anos. O ponto que alimenta a controvérsia é justamente a incompatibilidade entre esse limite legal e a perspectiva, admitida em declarações públicas, de que o acervo possa permanecer na Espanha durante um prazo muito superior. Isso transformou o caso em escândalo cultural e político.
Nesse quadro, a transferência da Coleção Gelman para a Espanha aparece como mais um golpe contra o acesso do povo mexicano à sua própria produção artística. A revolta expressa, portanto, não apenas apreço por Frida Kahlo, mas rejeição a uma operação vista como espoliação cultural.





