A Federação Internacional de Futebol (FIFA) exigiu a alteração do uniforme do Haiti para a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, na quinta-feira (11), por causa de uma ilustração em homenagem à independência do país. A fornecedora Saeta confirmou que modificou a camisa para garantir a participação da seleção no torneio. A arte censurada fazia referência à Batalha de Vertières, marco da vitória haitiana contra tropas de Napoleão Bonaparte em 1803.
Foi a segunda vez no ano que um uniforme esportivo do Haiti sofreu veto por celebrar a luta de independência. A intervenção da FIFA atingiu uma estampa discreta no canto inferior direito da camisa azul. A imagem retratava um episódio central da Revolução Haitiana e da consolidação da independência em relação à França.
A fornecedora do material esportivo afirmou que o desenho havia sido pensado como homenagem à resiliência, ao orgulho e à história de homens e mulheres que construíram o Haiti. A empresa negou que a camisa tivesse o objetivo de fazer uma declaração política atual. Mesmo assim, a FIFA considerou que o elemento violava suas regras de vestuário e equipamentos.
A entidade proíbe a exibição de mensagens ou slogans políticos, religiosos ou pessoais em uniformes de jogo, uniformes de equipe ou outras vestimentas usadas por jogadores e membros de comissão técnica. Com base nessa regra, a FIFA tratou a referência histórica à luta anticolonial haitiana como uma mensagem política.
A decisão expõe o caráter seletivo da neutralidade esportiva. A história da independência do Haiti não é apenas um detalhe nacional; foi a primeira revolução vitoriosa de escravizados no mundo moderno e uma derrota direta do colonialismo francês. Ao censurar uma referência a esse processo, a FIFA retira do uniforme uma parte fundamental da identidade histórica nacional.
A fornecedora e a Federação Haitiana de Futebol aceitaram a exigência para evitar problemas com a participação da seleção. A escolha mostra a pressão exercida por entidades esportivas internacionais sobre países mais pobres, que muitas vezes precisam ceder a decisões administrativas para não colocar em risco sua presença em competições de alcance mundial.
Em março, episódio semelhante ocorreu nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão. Dois atletas haitianos desfilaram na cerimônia de abertura com uniformes idealizados pela estilista Stella Jean e pintados à mão com base na obra do artista Edouard Duval-Carrié. Por exigência do Comitê Olímpico Internacional (COI), a figura de Toussaint Louverture, principal líder da Revolução Haitiana e referência mundial da luta contra a escravidão, foi retirada do traje original sob a justificativa de que representava tema político e polêmico.
O Haiti retorna à Copa em um momento simbólico para seu futebol. A censura ao uniforme, porém, mostra que a presença do país no torneio ocorre sob controle rígido de entidades que aceitam símbolos comerciais, marcas globais e interesses de patrocinadores, mas restringem a memória histórica de uma revolução anticolonial. A camisa foi modificada, mas o episódio reforça o incômodo internacional diante de símbolos que recordam a vitória de um povo escravizado contra uma potência colonial.
A FIFA não criou problemas para o uniforme da Alemanha Nazista nas copas de 1934 e 1938, que tinham a águia do Império Alemão e uma suástica. O histórico da organização mostra que ela nunca teve problema com símbolos políticos coloniais e de guerra, como a mesma águia que foi símbolo do país germânico na Primeira Guerra Mundial, o que se vê nesse caso é somente uma censura da identidade nacional haitiana, condicionando a participação de um país pequeno à ocultação de sua história.


