Durante o ato em memória dos mártires da ditadura de 1964, realizado em 31 de março no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), em São Paulo, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, defendeu que a principal tarefa de uma organização revolucionária é elevar a consciência política dos trabalhadores e esclarecer quem são seus inimigos de classe. Segundo ele, a ditadura militar foi a maior ofensiva desses inimigos contra o povo brasileiro e sua herança continua presente na situação política atual.
Ao tratar do golpe de 1964, Pimenta afirmou que a burguesia e o imperialismo recorreram a uma manobra para desviar a mobilização operária e popular, substituindo a luta direta contra os exploradores por uma política de ilusões democráticas. Na avaliação do dirigente, esse problema permanece no centro da crise política nacional, agora sob a forma da colaboração entre a esquerda e setores da própria burguesia que participaram dos principais golpes contra os trabalhadores.
Pimenta também criticou duramente o PT, que, segundo ele, abandonou a tarefa de educar politicamente os trabalhadores ao promover alianças com partidos e figuras diretamente ligadas aos interesses da burguesia. Para o presidente do PCO, essa política de conciliação desorienta a população e compromete a luta popular, ao apresentar como aliados justamente os setores responsáveis pelos ataques mais profundos contra os direitos democráticos e sociais do povo.
“A política do PT é a política em que a raposa é chamada para tomar conta do galinheiro. É apresentada como amiga das galinhas e até como salvadora das galinhas. Porque se o Geraldo Alckmin, o Alexandre de Moraes, o Gilmar Mendes e outras figuras da política nacional que são apresentadas como grandes defensores da democracia são os guardiões do povo brasileiro, nós estamos perdidos”, declarou.
Ao encerrar sua fala, Pimenta afirmou que o ato, embora modesto, tinha como objetivo marcar uma posição política clara sobre o significado do golpe de 1964 e sua ligação com a conjuntura presente. Segundo ele, a principal obrigação dos revolucionários é esclarecer os trabalhadores sobre o que está em curso no País e combater a confusão política fomentada pela colaboração com a burguesia.
Confira, abaixo, a fala de Rui Costa Pimenta na íntegra:
Boa noite a todos. Nunca é demais a gente lembrar, companheiros, que o principal objetivo de toda atividade revolucionária é a evolução da consciência dos trabalhadores. Eu digo isso porque, se nós assistimos ao lamentável espetáculo da esquerda brasileira, nós vemos um conjunto de partidos e personalidades cujo grande objetivo é galgar postos no Estado. Segundo eles, o fato de você eleger um ou mais deputados, prefeitos, vereadores, ou coisa que o valha, é um passo no caminho da libertação dos trabalhadores. Isso é falso, não se sustenta. Na realidade, a única coisa que permite, ou que vai permitir, em algum momento da história nacional, a superação da situação que nós vivemos — que é uma situação de extrema opressão e exploração do povo brasileiro — é justamente o nível de consciência e de organização dos trabalhadores e do povo.
É claro que esse nível de organização tem que se expressar, esse nível de consciência tem que se expressar numa determinada organização — quer dizer, uma organização que recolhe as experiências do passado, que assimila as experiências do presente e organiza os trabalhadores para a luta política.
No marco desse problema da consciência dos trabalhadores, nós temos que considerar o seguinte. Um dos problemas-chave que dizem respeito à consciência política dos trabalhadores é educar os trabalhadores, ensinar os trabalhadores a reconhecer os seus inimigos políticos, os seus inimigos de classe. A ditadura militar de 64 foi a maior ofensiva dos inimigos dos trabalhadores contra os trabalhadores e o povo. São 21 anos de ditadura. Esses 21 anos acarretaram aí um retrocesso extraordinário em todos os sentidos. Os sindicatos foram desmantelados, os partidos políticos foram colocados na ilegalidade.
E quando a ditadura entrou em crise, os trabalhadores iniciaram um movimento muito importante, muito forte, no sentido de atacar os seus inimigos. A burguesia manobrou naquele momento, colocada na defensiva, diante da mobilização gigantesca dos trabalhadores. A burguesia manobrou para confundir os trabalhadores colocando, ao invés da luta contra a burguesia e o imperialismo, a luta pela democracia. Apresentou aí os partidos que haviam servido o regime, que haviam sido instrumentos do regime militar, como sendo os partidos da democracia — principalmente o MDB e o PMDB, que já mudou de nome várias vezes.
Esse problema da identificação do inimigo político é um problema-chave. Nós vemos, na história recente do Brasil, que os trabalhadores tendem a se agrupar por trás de um partido que expressa a oposição à burguesia. Por imaturidade política, por problemas no desenvolvimento político da classe operária, os trabalhadores se agruparam em torno do PT e da figura do Lula, que eles entendem que seria um representante da classe operária, dos setores populares, contra a burguesia. O PT nunca conseguiu efetivamente cumprir esse papel. Os governos do PT foram governos de colaboração com a burguesia.
O melhor que a gente pode dizer para caracterizar essa ação do PT é que essa política jogava fumaça nos olhos dos trabalhadores. O PT fez aliança com o Partido Liberal no primeiro governo, depois fez aliança com o PDT do Brizola, depois fez aliança com o MDB. Quer dizer, ao invés de ensinar os trabalhadores a reconhecer os seus inimigos, ensinou os trabalhadores a ver nos seus inimigos amigos. Isso daí, para muita gente do PT, teria sido uma grande realização, porque permitiu as reformas sociais que o PT fez. Mas, olhando agora, depois de vinte e tantos anos de PT, nós podemos ver que essas reformas sociais são extremamente superficiais. Nós vimos inclusive que, com o golpe de 2016, essas reformas foram completamente varridas do mapa.
A única coisa que sobrevive aí como sendo um ponto importante — mas é um ponto também muito duvidoso — é o problema do Bolsa Família. Por que é duvidoso? Porque o PT estabeleceu em 2002 o Bolsa Família, nós estamos em 2025 e o Bolsa Família não para de crescer. O que deveria ser uma solução paliativa para a situação de miséria dos trabalhadores, para você poder relançar a economia, incorporar essa gente ao mercado de trabalho, dar emprego, dar melhores condições, se transformou num auxílio perpétuo para uma situação que nunca vai se resolver — que é o que todo mundo já está percebendo que é o que vai acontecer.
Em 2016, nós tivemos uma oportunidade muito grande de separar o joio do trigo, que foi o golpe de 2016. A burguesia toda se unificou, tirou a máscara da democracia, derrubou o governo eleito da Dilma Rousseff e mostrou que, na realidade, a democracia é uma farsa. No momento em que sentiram a vontade para derrubar o governo do PT — que não é um governo revolucionário, que não é um governo classista, que não é um governo radical em nenhum sentido; na América Latina nós tivemos muitos governos mais radicais do que o do PT —, a burguesia não hesitou: foi lá e derrubou o governo. Foi um golpe de Estado.
Nós participamos da luta contra o golpe de Estado. E naquele momento se estabeleceu no País uma divisão clara entre a esquerda, concebida num sentido amplo, e a burguesia. Os partidos da burguesia, todos, participaram do golpe de Estado. Quer dizer, havia aí uma ruptura da própria burguesia com as ilusões políticas que ela tinha alimentado durante todos os governos do PT. Muita gente que, durante todo esse período, achava que a democracia brasileira era uma coisa totalmente realizada — uma fantasia política — viu naquele momento que não se tratava disso. O problema é que não há democracia nenhuma. A hora que a burguesia decide dar meia-volta no processo político, ela vai lá e derruba o governo que foi eleito democraticamente. Isso criou uma situação extremamente favorável para a luta contra a burguesia.
No entanto, o que é que nós vimos depois? Nós vimos que o PT e os outros partidos de esquerda, praticamente todos eles, trataram de encobrir o golpe de 2016. E praticamente só faltou os dirigentes do PT e da esquerda falarem: “Esqueçam que no Brasil aconteceu alguma coisa em 2016, foi tudo normal.” A derrubada do governo do PT, do governo da Dilma, foi uma coisa normal. Só faltou essa declaração. Mas a falta de declaração nunca é desvinculada da realidade dos fatos.
O PT retomou a política de aliança com a burguesia. Tomaram o problema do Bolsonaro, do 8 de Janeiro — que foi, de uma maneira muito espantosa, aquele ato dos bolsonaristas — e o converteram em golpe de Estado, em reação armada. Bolsonaro foi eleito como grande inimigo da democracia, e aqueles que haviam dado o golpe em 2016 foram transformados em baluarte da democracia. Particularmente, o senhor Alexandre de Moraes, que chegou ao STF das mãos de um dos comandantes do golpe em 2016, Michel Temer.
Quer dizer, era evidente para as pessoas que têm uma apreciação realista da situação política que os golpistas estavam com as suas manobras habituais. Nós chamamos atenção para o fato de que não havia luta nenhuma contra o fascismo, que isso era uma farsa. O que se tratava era de manipulação eleitoral. O grande capital, a burguesia, aqueles que estiveram por detrás do golpe de 1964 — essas figuras conhecidas como a Rede Globo, o Banco Itaú e outros grandes bancos, as grandes empresas, o capital estrangeiro — estavam por detrás do golpe de 2016. O Alexandre de Moraes era um instrumento desse setor para manipular a situação política no Brasil.
Nós dissemos em mais de uma oportunidade que o que estava em jogo aí era simplesmente conseguir tirar o Bolsonaro da eleição para colocar um candidato dos golpistas de 2016 no poder. Nós assinalamos também que esse tipo de luta contra o fascismo era uma farsa total e só poderia dar como resultado um resultado negativo. O tiro saiu pela culatra: o PT se comprometeu profundamente com os golpistas de 2016, com as estripulias antidemocráticas do senhor Alexandre de Moraes, ficou completamente comprometido com toda a política de perseguição aos bolsonaristas, e nós estamos agora, véspera da eleição, com os bolsonaristas empatados com o candidato do PT no primeiro e no segundo turno. Quer dizer, um desastre político total.
Eu chamo a atenção para esses fatos porque o que a esquerda fez nos últimos dois, três anos — principalmente desde o dia 8 de Janeiro — é uma obra de confusão política sem paralelo. Eles transformaram elementos profundamente antidemocráticos, que são a verdadeira ameaça ao povo brasileiro — sempre foram, são aqueles que deram o golpe de 64, são os que se beneficiaram do golpe de 64, que se transformaram em grandes monopólios econômicos, são os aliados de sempre do capital estrangeiro — e o que nós vemos é que a confusão se estabeleceu novamente pelas mãos do PT.
Outro elemento de confusão muito importante que diz respeito ao golpe de 64 é o seguinte. O presidente Lula, quando teve a eleição nos Estados Unidos, falou que seria bom que ganhasse a Kamala Harris e propôs uma frente dos partidos e governos, como ele chama, democráticos, contra a extrema-direita. Depois, ele se desmoralizou com essa colocação porque virou amigo do Trump, que seria o fascista a ser combatido. O malabarista escorregou e quase que caiu da corda na qual estava fazendo o seu malabarismo.
É interessante essa colocação porque, justamente, quem deu o golpe de 64 — o principal autor do golpe — é o imperialismo norte-americano. Não haveria golpe se não fosse o imperialismo. Os capitalistas locais não teriam força para levar adiante o golpe. Tanto que a gente vê: a presença, no decorrer dos anos, foi aparecendo na história do golpe de 64 e da ditadura militar — a presença ostensiva da CIA, dos militares norte-americanos, do Pentágono e tudo mais.
E, mais importante do que isso: quem é que estava no governo dos Estados Unidos naquele momento? O Partido Democrata. Quer dizer, o golpe de 64, uma das grandes catástrofes políticas nacionais, foi organizado pelo Partido Democrata dos Estados Unidos. E hoje nós vemos, em 2025, 2026, um partido de esquerda falando que nós temos que ter confiança no Partido Democrata dos Estados Unidos. É uma confusão total.
Eu chamo a atenção para esse fato, que está diretamente relacionado com o episódio do golpe militar de 64, porque essa confusão é um dos grandes obstáculos da luta dos trabalhadores. Muita gente pergunta ao PCO o que seria preciso fazer para que os trabalhadores se mobilizassem. Não existe fórmula para isso. Nós não temos uma receita mágica para mostrar como é que os trabalhadores poderiam se mobilizar — depende de uma série de condições e de circunstâncias. No entanto, um problema-chave que dificulta sobremaneira a mobilização dos trabalhadores é essa confusão. Porque a primeira coisa que se deveria perguntar é: contra quem os trabalhadores vão se mobilizar?
Os trabalhadores de São Paulo lutaram durante anos contra o governo do PSDB. Aí o Lula escolheu o ex-governador do Estado de São Paulo, do PSDB, Geraldo Alckmin, como vice-presidente. Parece que vai ser novamente o vice-presidente do Lula. O PT apresenta isso como grande sabedoria política. Mas, na verdade, isso não é sabedoria política nenhuma — é apenas uma política desmoralizante. É uma política que leva a que as pessoas percam a esperança, as pessoas que acreditam no PT, de ver alguma coisa mudar nesse País. Quem pode acreditar que, com Geraldo Alckmin como vice-presidente, nós vamos ter reformas minimamente significativas na situação do Brasil? É impossível.
É por isso, em grande medida, que a esquerda não faz menção, não tem feito menção, durante todo o governo Lula, à questão do golpe militar de 64. Procuram apresentar o golpe como se a ameaça golpista viria de um Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro é uma figura secundária desse ponto de vista na política nacional. Sem o apoio do grande capital e sem o apoio do imperialismo, ele não tem a menor possibilidade de fazer as coisas que as pessoas atribuem a ele. Ele precisaria ser escolhido pelo grande capital para poder dar um golpe de Estado bem-sucedido no Brasil e implantar uma ditadura, coisa que o valha. É criar uma fantasia política.
Por isso, companheiros, é muito importante — decidimos, apesar de toda a correria da questão do Irã e outras questões nas quais o Partido está envolvido, decidimos fazer esse ato político, modesto, muito modesto, mas ele é importante para que a gente deixe absolutamente claro o significado do golpe e a relação que existe entre o golpe de 64 e a situação política atual.
A política do PT é a política em que a raposa é chamada para tomar conta do galinheiro. É apresentada como amiga das galinhas e até como salvadora das galinhas. Porque se o Geraldo Alckmin, o Alexandre de Moraes, o Gilmar Mendes e outras figuras da política nacional que são apresentadas como grandes defensores da democracia são os guardiões do povo brasileiro, nós estamos perdidos.
É isso que nós devemos dizer a todas as pessoas, e é por esse motivo que nós decidimos fazer esse ato, que é um ato pequeno, um ato modesto, mas para marcar uma posição clara — não apenas sobre o que aconteceu em 1964, décadas atrás, mas principalmente sobre aquilo que está acontecendo agora, diante dos nossos olhos, na situação política nacional. A política do PT é uma política que compromete a luta dos trabalhadores, é uma via para a derrota dos trabalhadores, é um instrumento de confusão. E o nosso principal dever é esclarecer essa situação, deixar claro para os trabalhadores o que está acontecendo.
Muito obrigado, companheiros.




