Há um fenômeno novo e bastante revelador no debate político internacional, especialmente no contexto da guerra em curso dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Desde o início da ofensiva, em 28 de fevereiro de 2026, e já entrando no segundo mês de conflito, cresceu ainda mais a audiência de analistas norte-americanos que denunciam, com dureza, a política externa dos Estados Unidos.
Em canais no YouTube e programas de entrevistas que circulam diariamente pelas redes, ex-militares, ex-agentes da CIA, ex-funcionários do Estado e jornalistas dissidentes se transformaram em celebridades de uma nova crítica à guerra. Entre eles, estão Scott Ritter, ex-oficial de inteligência dos Marines e ex-inspetor da ONU no Iraque; Douglas Macgregor, coronel reformado do Exército e ex-assessor do Pentágono; Daniel Davis, tenente-coronel reformado e comentarista de política externa; Lawrence Wilkerson, coronel e ex-chefe de gabinete de Colin Powell; Ray McGovern, ex-analista da CIA; Jeffrey Sachs, professor da Columbia University; Tucker Carlson, ex-estrela da Fox News. Todos, à sua maneira, ocupam hoje um espaço central na crítica ao desastre produzido por Washington no mundo.
Pensemos em Macgregor, por exemplo. Ele foi um oficial de linha de frente na Guerra do Golfo de 1991, associado sobretudo à Batalha de 73 Easting, celebrada até hoje pelas forças americanas como exemplo de eficácia militar. Um alto oficial como ele sabia perfeitamente que participava de uma máquina de destruição em massa. Essas figuras aparecem hoje como comentaristas lúcidos, às vezes até corajosos, mas foram formadas dentro de um sistema que pode, em determinadas circunstâncias, decidir destruir cidades inteiras em nome da ordem internacional, da segurança ou de qualquer outro pretexto imperial. Os militares, em especial, foram treinados para considerar perfeitamente admissível a devastação de povos inteiros, desde que isso apareça como necessidade estratégica.
Atualmente, eles se tornaram vozes dissidentes. Scott Ritter denunciou a fraude das armas de destruição em massa no Iraque; Wilkerson reconheceu publicamente o papel que desempenhou na preparação da apresentação de Colin Powell à ONU; Ray McGovern se tornou um crítico da manipulação da CIA; Daniel Davis ganhou notoriedade ao atacar a narrativa oficial da guerra do Afeganistão.
Dessa forma, o crescimento de seu alcance não é um detalhe. Ele expressa uma mudança objetiva na situação política. Durante décadas, a interpretação dominante das guerras foi monopolizada pela imprensa oficial, pelos porta-vozes do Departamento de Estado, pelos estrategistas da OTAN e pelos grandes veículos de comunicação. Hoje, uma parte significativa do público já não confia nesse discurso. Busca ouvir justamente aqueles que estiveram dentro da máquina militar, diplomática, de espionagem ou de propaganda e que agora, por diversos motivos, passaram a denunciar suas mentiras, seus crimes e seus fracassos. É como se o próprio império, em seu momento de crise, começasse a produzir testemunhas contra si mesmo.
Esse ponto é importante porque seria um erro simplesmente ignorar essas figuras. Em muitos casos, elas dizem verdades que a imprensa liberal se recusa a dizer. Denunciam a fraude, a manipulação, o cinismo das justificativas humanitárias, a destruição de países inteiros em nome da democracia e o papel criminoso desempenhado por Washington em sucessivas guerras. Em vários momentos, essas vozes são mais honestas e mais úteis do que o jornalismo corporativo, que continua funcionando como correia de transmissão da política externa estadunidense.
Mas é exatamente aí que começa o problema. O fato de denunciarem a mentira não significa que consigam explicar a estrutura que a produz. Sua crítica, na maior parte do tempo, para no meio do caminho. Eles veem o fracasso militar, o colapso moral da liderança americana, a imprudência estratégica de Washington, o uso criminoso da propaganda, a manipulação do medo, a degeneração das instituições e até a função destrutiva de Israel como braço regional da política imperial. Mas raramente chegam ao ponto decisivo: a guerra não é apenas fruto da loucura de governantes, da corrupção de elites ou da incompetência do alto comando. A guerra é uma necessidade histórica de um sistema que só pode sobreviver por meio da pilhagem, da coerção e da expansão violenta.
Esse limite aparece de forma muito clara em outro ponto recorrente dessas análises: a ideia de que os Estados Unidos estariam “reféns de Israel” ou de que o governo americano seria, em última instância, governado por Tel Aviv. A formulação parece radical, mas na verdade embaralha a relação real. Israel não paira acima do imperialismo americano como uma força autônoma que o sequestrou. Ao contrário: Israel é produto histórico dessa dominação, um posto avançado armado do imperialismo no Oriente Médio, sustentado material, diplomática e militarmente por Washington e pela OTAN. Apresentar os Estados Unidos como vítima de Israel é transformar em anomalia aquilo que é, na verdade, uma relação estrutural. Não é Israel que explica a natureza do poder americano na região; é a natureza do imperialismo que explica a função estratégica de Israel. Ao deslocar a responsabilidade do sistema para um agente externo, essas leituras acabam atenuando a crítica ao próprio imperialismo.
É aqui que a crítica materialista precisa intervir. Não basta culpar Trump. Não basta culpar Biden. Não basta dizer que Netanyahu é um criminoso ou que os neoconservadores enlouqueceram o Ocidente. Tudo isso pode ser verdadeiro, mas continua na superfície. O problema não é apenas o indivíduo. O problema é o sistema que produz esses indivíduos como sua forma política correspondente. Trump, Biden e todos os seus equivalentes não são acidentes da história. São expressões de uma ordem social em esgotamento, de uma classe dominante incapaz de oferecer qualquer saída progressiva e que, por isso, se degrada diante do mundo inteiro.
É justamente por isso que a crítica desses analistas, embora relevante, permanece limitada. Quando atacam determinada aventura militar, muitas vezes o horizonte implícito continua sendo o de um Estado americano mais racional, mais prudente, mais eficiente, menos capturado por facções irresponsáveis. Quando denunciam a insanidade da política externa dos Estados Unidos, o que aparece com força é a crítica moral e diplomática, não a crítica do imperialismo como fase histórica do capital. Mesmo quando há sinceridade e até sofrimento real nessas falas, como já presenciei em Scott Ritter e Jeffrey Sachs, o que se busca frequentemente é a correção do curso, não a superação da estrutura.
Isso ajuda a entender por que tantas dessas vozes se tornaram populares. Elas expressam uma dissidência real, mas parcial. Rompem com a propaganda oficial, porém não necessariamente com a visão de mundo que lhes deu origem. Saem do consenso liberal-imperial, mas não chegam a uma crítica revolucionária da ordem que produziu esse consenso. Em outras palavras, são úteis porque desmontam a mentira imediata, mas insuficientes porque não alcançam a lógica histórica do fenômeno.
O caso de Tucker Carlson também é revelador. Ele não vem do aparato militar nem da CIA, mas da grande máquina ideológica da direita americana. Foi âncora da Fox News por quase uma década. Mesmo agora, em sua fase dissidente, continua oferecendo uma crítica que raramente vai além da corrupção moral, da decadência institucional ou do erro político das elites. Seu interesse está justamente nisso: ele mostra que a dissidência contemporânea não nasce só dentro do aparelho de guerra, mas também dentro do aparelho de propaganda. Ainda assim, seu limite continua sendo o mesmo. Critica os gestores, não o fundamento social que faz da guerra um método permanente de governo.
Além disso, a verdade mais profunda que esse fenômeno revela é outra: o império está tão desgastado que já não consegue manter intacto nem mesmo o consenso entre seus próprios quadros. A dissidência desses nomes é um sintoma da crise da hegemonia americana. Como todo sintoma, porém, ela não basta para produzir consciência histórica. Para isso, é preciso ir além da indignação moral, além da denúncia tática e além da nostalgia. É preciso reconhecer que o imperialismo não é um erro de governo, mas a forma assumida por um capitalismo que entrou em decomposição.
Se a guerra atual mostra alguma coisa, é que o imperialismo continua capaz de destruir, mas já não consegue transformar sua violência em estabilidade. A operação contra o Irã, longe de produzir uma submissão rápida, reforça politicamente o país e expõe os limites da ofensiva imperialista. É dessa contradição que nasce tanto a brutalidade da guerra quanto a proliferação de vozes dissidentes dentro do próprio império.
E é justamente por isso que não adianta culpar apenas Trump, Biden ou qualquer outro administrador de ocasião. Se não fossem eles, o sistema acharia outros para fazer o mesmo trabalho. A busca não pode se limitar ao responsável individual por esta ou aquela guerra, por esta ou aquela operação, por esta ou aquela mentira. Ela precisa alcançar a totalidade social que produz a guerra como necessidade. Sem isso, a crítica não ultrapassa os limites do próprio imperialismo.





