O Partido da Causa Operária (PCO) realizou, nesta terça-feira (31), no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), em São Paulo, um ato em homenagem aos mártires da Ditadura Militar. Transmitida pela Causa Operária TV (COTV), a atividade reuniu Antônio Carlos, João Pimenta, Izadora Dias e Rui Costa Pimenta, que defenderam a necessidade de relembrar aqueles que tombaram na luta contra o regime instaurado em 1964 e criticaram o abandono dessa tradição por amplos setores da esquerda.
Na abertura, Antônio Carlos afirmou que o ato vinha sendo realizado pelo Partido há anos e destacou que a homenagem aos mortos da ditadura tem sido deixada de lado pela maior parte da esquerda. Segundo ele, trata-se de uma data que não poderia ser esquecida, por dizer respeito a um período de perseguição aos trabalhadores, supressão de direitos democráticos e agravamento das condições de vida do povo.
O primeiro orador da noite foi João Pimenta, da Direção Nacional do PCO e dirigente da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). Ele afirmou que o golpe de 1964 continua sendo um tema incômodo porque seus herdeiros políticos permanecem ativos no regime. Em sua avaliação, os responsáveis pelo golpe não foram personagens marginais, mas o mesmo setor político que, sob novas formas, continuaria ocupando posições de comando nas Forças Armadas e no aparato de Estado.
“Porque o golpe de 64, infelizmente, é muito incômodo para a narração atual, que é o mundo da fantasia que foi criado. As pessoas que deram o golpe de 64, os seus herdeiros políticos, estão todos aí. E hoje eles são chamados de defensores da democracia. Ao contrário do que o pessoal pensa, o golpe de Estado não foi dado em 64 pelos Jair Bolsonaro e similares da época. […] O pessoal que deu o golpe de 64 propriamente é o mesmo grupo político que está hoje no comando das Forças Armadas. É o mesmo grupo político que está hoje no Ministério da Defesa.”
João Pimenta também dedicou parte importante de sua fala à resistência armada e clandestina contra a ditadura. Segundo ele, os militantes que enfrentaram o regime não se orientaram por cálculos eleitorais nem aceitaram passivamente a correlação de forças desfavorável. Para o dirigente, a memória desses combatentes precisa ser preservada justamente porque contrasta com a adaptação política que marca a esquerda atual.
Ele lembrou ainda que o PCO realiza atos no 31 de março desde 2014, quando a extrema-direita passou a convocar mobilizações em defesa do golpe militar. A partir dali, segundo disse, o Partido decidiu organizar um contra-ato todos os anos. Na sua avaliação, a data também impõe um balanço sobre a anistia aos torturadores, a integração de setores da antiga ARENA ao regime atual e o papel dos Estados Unidos no financiamento e na preparação do golpe contra João Goulart.
Outra intervenção da noite foi a de Izadora Dias, da Direção Nacional do PCO e coordenadora do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo. Ela relacionou a homenagem aos mártires da ditadura com a discussão sobre censura e afirmou que o problema não pertence apenas ao passado. Segundo a dirigente, medidas recentes aprovadas ou em debate no País mostram que a repressão às liberdades democráticas volta a ganhar força sob novas justificativas.
“A gente percebe que quem foi responsável por um dos momentos mais sombrios da história brasileira — eles estão nos rondando. E a gente vê que poderia falar da ditadura, até dos mártires da ditadura, como uma coisa muito do passado, mas na verdade é algo que ainda está muito próximo da gente. […] Eu considero que é um total desrespeito com os companheiros que tombaram na luta contra a ditadura, quando uma das maiores características da ditadura é a censura — que é o que a gente está vendo que está se impondo aqui no Brasil.”
Izadora afirmou ainda que a esquerda presta homenagens formais a militantes que combateram a ditadura, mas apoia medidas que, segundo ela, caminham no sentido oposto à defesa das liberdades democráticas. Em sua fala, ela sustentou que cabe ao PCO manter essa luta e não recuar diante da pressão política e ideológica do regime.
Antônio Carlos voltou a falar em seguida. Em sua intervenção, afirmou que a esquerda passou a tratar como golpe um episódio que não teve esse caráter, o 8 de janeiro de 2023, enquanto esquece o golpe real de 1964. O dirigente disse que os setores que sustentaram a ditadura seguem exercendo influência decisiva na vida nacional, em especial os monopólios de comunicação, os banqueiros, os latifundiários e o Judiciário.
Ao desenvolver essa tese, ele afirmou que a ditadura não foi superada, mas apenas transformada. Segundo sua exposição, a dominação política dos capitalistas e do imperialismo manteve seus pilares essenciais depois da chamada redemocratização, o que explicaria a permanência da repressão estatal, da censura e do ataque à organização dos trabalhadores.
“Não era simplesmente necessário colocar abaixo a ditadura. Era e continua sendo necessário colocar abaixo a dominação política do capitalismo, a submissão ao imperialismo, para libertar o País desse jugo, desse regime de opressão que leva a que, de fato, a gente continue vivendo numa ditadura, onde a maioria do povo não tem direitos democráticos elementares garantidos. […] Nós não temos mais o regime, a forma de um regime militar, mas a ditadura se faz presente de outras formas, sobre uma aparência muito esdrúxula, muito avacalhada, de um regime democrático.”
Antônio Carlos também afirmou que a homenagem prestada pelo PCO busca reivindicar a tradição de luta do povo brasileiro e, ao mesmo tempo, tirar lições políticas da derrota imposta pela ditadura. Segundo ele, a experiência demonstra a necessidade de construir uma organização operária revolucionária capaz de enfrentar a política de conciliação com a burguesia.
O último discurso político da noite foi o de Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. Ele iniciou sua intervenção afirmando que a principal tarefa de uma atividade revolucionária é elevar a consciência dos trabalhadores. A partir daí, sustentou que a ditadura de 1964 foi a maior ofensiva já desferida contra o povo brasileiro e que uma das questões centrais para a classe operária é aprender a identificar seus inimigos políticos.
Rui Costa Pimenta afirmou que, na crise final da ditadura, a burguesia procurou desviar a mobilização operária para a defesa abstrata da democracia, preservando os partidos e os setores que haviam servido ao próprio regime. Na sua avaliação, essa confusão continuou durante os governos do PT, que, em vez de romper com a burguesia, aprofundaram a política de colaboração de classes.
“Um dos problemas-chave que dizem respeito à consciência política dos trabalhadores é educar os trabalhadores, ensinar os trabalhadores a reconhecer os seus inimigos políticos, os seus inimigos de classe. A ditadura militar de 64 foi a maior ofensiva dos inimigos dos trabalhadores contra os trabalhadores e o povo. São 21 anos de ditadura. Esses 21 anos acarretaram aí um retrocesso extraordinário em todos os sentidos. Os sindicatos foram desmantelados, os partidos políticos foram colocados na ilegalidade.”
Em outro momento, Rui relacionou diretamente o golpe de 1964 à situação atual. Segundo ele, o principal autor do golpe foi o imperialismo norte-americano, e a atual política do PT aprofunda a confusão ao apresentar figuras ligadas aos golpistas de ontem e de hoje como defensoras da democracia. Para o presidente do PCO, essa orientação desarma os trabalhadores diante dos verdadeiros inimigos.
“A política do PT é a política em que a raposa é chamada para tomar conta do galinheiro. É apresentada como amiga das galinhas e até como salvadora das galinhas. Porque se o Geraldo Alckmin, o Alexandre de Moraes, o Gilmar Mendes e outras figuras da política nacional que são apresentadas como grandes defensores da democracia são os guardiões do povo brasileiro, nós estamos perdidos. […] A política do PT é uma política que compromete a luta dos trabalhadores, é uma via para a derrota dos trabalhadores, é um instrumento de confusão.”






