Polêmica

Um embelezamento dos crimes de guerra do imperialismo – parte 1

A 'decapitação' tem sido o nome para esconder atrocidades praticadas por ‘Israel’ e Estados Unidos

Decapitação

O artigo Decapitação e o fim da política, do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, publicado no Brasil247 nesta sexta-feira (27), incorre na velha mania academicista: retira a realidade das coisas. O acadêmico transforma um crime de guerra em uma tese cheia de referências históricas para ser admirada pelos seus pares; para que todos digam “parabéns, escreves muito bem!”; ou para ficarem discutindo as pinturas com decapitações de Caravaggio e Donatello. E, sim, nunca podem faltar as referências à psicanálise e outros artifícios para se exibir erudição.

Exemplo dessa abordagem está já no olho do texto que diz que “da violência simbólica à eliminação física, a ‘decapitação’ ressurge como estratégia central de poder, esvaziando a ética, a diplomacia e a própria política”. Que violência “simbólica”? Não existe uma passagem do simbólico, etéreo, ao físico; ou, da ideia ao real. A realidade é a base sobre a qual se constroem os “símbolos”.

Em um mundo onde sempre vigorou a lei do mais forte, que sentido faz dizer que a decapitação esvazia a ética? Não existe ética, ela não entra em cena. Quase ninguém sabe o que acontece atrás das portas da “diplomacia”. É um jogo bruto e isso diz respeito à política, não se trata de seu esvaziamento.

No primeiro parágrafo, Boaventura diz que “sobretudo Israel, mas também os EUA, têm vindo a dar uma nova atualidade ao conceito de decapitação como arma de violência política. Escusado será dizer que esta arma viola todas as convenções internacionais contemporâneas sobre a guerra. A normatividade internacional que regeu o mundo com relativa eficácia depois da Segunda Guerra Mundial foi enterrada depois do 11 de Setembro de 2001, quando os altares jurídicos de Harvard proclamaram a fatwa segundo a qual era legítimo torturar os supostos inimigos para além dos limites até então estabelecidos pela doutrina dominante dos direitos humanos”.

A “normatividade internacional que regeu o mundo”, até onde se sabe, sempre foi a violência. Após a II Guerra, o imperialismo, tendo como figura central os Estados Unidos, cometeu todo tipo de crimes. Em 1946, os americanos criaram no Panamá a Escola das Américas com o objetivo declarado de “profissionalizar” as forças armadas latino-americanas e supostamente conter o avanço do comunismo no continente. Funcionou ali até 1984, quando foi transferida para Fort Benning, na Geórgia (EUA).

A Escola das Américas treinou mais de 60.000 soldados e policiais latino-americanos em técnicas de contrainsurgência, guerra psicológica, inteligência e interrogatório. Ensinava-se ali tortura física como espancamentos, choques elétricos, asfixia simulação de afogamento; métodos de coerção como prisões ilegais, extorsão, chantagem e uso de substâncias e privações como o uso de ‘soros da verdade’, privação de sono e de alimentos, etc.

Setembro de 2011 foi um pretexto para a “democracia” fechar ainda mais o regime e poder trabalhar mais às claras e de modo formalizado.

Cabe uma observação sobre o termo “fatwa” (fátua), que é um parecer legal islâmico que só pode ser emitido por um jurista qualificado, ou estudioso, sobre determinados pontos da lei islâmica, não é simplesmente, uma sentença de morte como o texto quer fazer o leitor crer. Uma fátua pode, como fez Khamenei, proibir um país, como o Irã, de produzir e utilizar armas nucleares.

Boaventura, ao dizer que os americanos, desde Harvard, proclamaram uma fátua, procura dizer que estariam agindo como os islâmicos, aqui tratados como torturadores de inimigos.

No mesmo parágrafo, o autor diz que “ter o privilégio de nomear quem é terrorista, ou quem ameaça a segurança de quem, passou a ser o princípio da política. Tragicamente, este princípio da política é também o fim da política”. No entanto, isso é uma prerrogativa do imperialismo, que controla a imprensa mundial e transforma quem quiser em terrorista, bem como pode, sem nenhum pudor, transformar um terrorista em um presidente e este ser recebido no Salão Oval da Casa Branca.

Não é o fim da política, pois a política trata da luta de classes.

Diletantismo

No parágrafo seguinte, Boaventura, entra em uma divagação sobre a decapitação “literal” e “figurada”, “eliminação e orgia do triunfo”. Diz que “Freud escreveu em 1922 que decapitar significa castrar; é o modo como o inconsciente se apresenta de modo transformado à consciência do indivíduo”, e então fala da mitologia da cabeça da górgona Medusa decapitada por Perseu, para concluir que “os líderes políticos ou outros que recorrem à decapitação manipulam essa pulsão inconsciente para transmitir a ideia de um poder sem limites (redução do inimigo à máxima impotência) e de uma eficácia igualmente sem limites (extermínio individual, que é também colectivo)”. É um afastamento, o leitor perde de vista o que está acontecendo: os crimes continuados do imperialismo.

Da mesma maneira que é inútil ficar falando que “a tradição cultural da decapitação tem as suas máximas expressões na arte e na literatura” e então recorrer a João Batista, Salomé, Herodias; Davi e Golias; bem como que o “fascínio pela decapitação foi irresistível para os pintores da Renascença. Com o seu gosto pela violência realística”.

Não tem importância para o tema que “Caravaggio imortalizou muitas destas decapitações na sua pintura: Medusa em 1597, Holofernes em 1599, João Baptista em 1608 e Golias em 1609-10”. E temos ainda Donatello, Michelangelo.

Boaventura se lembra de dizer que não é objetivo de seu texto “analisar as dimensões eróticas ou leituras psicanalíticas das decapitações ou dos pintores que as imortalizaram (ação de mulheres nos casos de Salomé, Judite e Dalila; a homossexualidade de Caravaggio ou de Donatello)”. Pretende, antes, “analisar o papel que a decapitação desempenha nas lutas e guerras contemporâneas”. Mas, temos aí um problema, os assassinatos de líderes ocorrem sem que uma guerra tenha sido declarada. São, quase invariavelmente, ações terroristas que nunca são tratadas como tal pela imprensa burguesa. O ataque terroristas dos pagers que os sionistas levaram adiante conta as lideranças do Hesbolá, por exemplo, são consideradas façanhas. Não importa que crianças e pessoal médico tenham morrido ou sido mutiladas, o caso nunca é tratado pelo que realmente é.

continua…

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