Na primeira parte deste debate (leia), analisamos o início do texto Rússia e China na guerra no Irã, de Valério Arcary, publicado no Brasil 247 em 19 de março.
Nesta parte, discutiremos que Arcary escreve que “apesar da resistência militar [iraniana] e da decisão da nova direção do Estado persa de fechar o estreito de Ormuz, ameaçando uma disparada do preço do petróleo e uma pressão inflacionária mundial, o perigo é que seja, em mais ou menos tempo, derrotado”. Sempre há o perigo de uma derrota, isso é da guerra, ainda mais contra um adversário poderoso. Contudo, o fechamento do Estreito tem causado pânico na burguesia. Mas não é apenas isso, o Irã demonstrou que pode atingir toda a estrutura energética da região e qualquer ponto de “Israel”, incluindo Dimona, seu centro nuclear.
A construção de estruturas subterrâneas superprotegidas e a estratégica de defesa em mosaico provou ser um acerto, pois a autonomia de cada peça e a capacidade de resposta descentralizada transformou a ideia de destruição do país em aposta arriscadíssima.
Em vez de elogiar o papel do Irã, e de reconhecer seu papel revolucionário na luta contra o imperialismo, Arcary se limita a dizer que não há “razões para a esquerda alimentar qualquer ilusão sobre o regime teocrático de Teerã”. Repetindo assim as mesmas mentiras da grande imprensa sobre uma suposta teocracia.
Os sionistas
Arcary pegunta “qual é a estratégia de Israel?”, e afirma que “o grau de autonomia relativa de Israel diante de Washington foi posto à prova inúmeras vezes desde o início da invasão da Faixa de Gaza, em inúmeras discordâncias com a gestão do Partido Democrata de Joe Biden”, mas o que foi visto é que o país tem pouca margem, pois falhou miseravelmente em Gaza, mesmo com apoio material e de inteligência dos EUA, França, Reino Unido, Alemanha e monarquisas petrolíferas.
O problema é Trump. Essa figura cega a esquerda pequeno-burguesa, que vê nele um ponto de virada na situação, não um aprofundamento. Arcary, por exemplo, diz que “não há dúvidas sobre as afinidades políticas entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, dois líderes mundiais da extrema direita neofascista”.
Esses dois sendo neofascistas, Biden seria o quê, democrata? O que dizer de todos países que participaram do genocídio em Gaza?
Segundo o autor, “a presença de Donald Trump na Casa Branca abriu uma oportunidade de impor uma derrota histórica à causa palestina”. No entanto, Trump correu para costurar um cessar-fogo, pois a situação dos sionistas ia de mal a pior, foi preciso intervir para evitar uma derrota humilhante
É falsa a ideia de que “o objetivo de Israel é destruir a independência do Estado iraniano e impor um regime vassalo em Teerã”, esse objetivo é do imperialismo, “Israel” não manda nada. A Guerra dos Doze Dias destruiu todas as fantasias a cerca da superioridade israelense. E Trump, mais uma vez, teve de correr para costurar outro cessar-fogo.
Imperialismo
Para Arcary, “a estratégia dos EUA [no Irã] não é diferente [da israelense], mas responde também a pelo menos outras três necessidades: (a) demonstrar para Moscou e Pequim que há somente um imperialismo no mundo em condições de se impor, política e militarmente, em escala mundial, reafirmando sua supremacia contra o bloco Brics; (b) sinalizar para a Europa que a hegemonia norte-americana está intacta e que tanto Londres como Paris e Berlim devem se alinhar, incondicionalmente, sob a liderança de Washington e aceitar a reformulação da OTAN; (c) confirmar para todos os países do Sul Global, em primeiro lugar para a Índia, Brasil e Indonésia, que, na nova ordem mundial em construção depois do ataque à Venezuela e do cerco a Cuba, não haverá lugar para Estados independentes.”
“Israel”, antes de mais nada, e isso precisa ficar claro, é um apêndice, uma ferramenta do imperialismo, não quem dá as cartas.
Outro fator importante a ser compreendido: os Estados são a principal força dentro do bloco imperialistas e governa com punho de ferro. Os outros países são sócios, mas todos representam um interesse comum. Essa força é maior e mais forte que Donald Trump.
O imperialismo não precisa “demonstrar” que é o único, pois Moscou e Pequim já sabem que não são imperialistas, só a esquerda pequeno-burguesa que não percebeu.
Quanto à Europa, especificamente a UE, o bloco já está alinhado com o EUA, têm interesses comuns na pilhagem dos outros países. O que os americanos estão exigindo da OTAN é que preparem para a guerra contra Rússia e China, que invistam mais no terreno militar.
A “nova ordem mundial”, citada no ponto ‘c’, é a velha ordem. O que mudou é que o aprofundamento da crise do imperialismo o obriga ao uso mais explícito da força. E nunca houve espaço para “Estados independentes”, não sob o imperialismo.
Adiante, Arcary escreve que “o desenlace da guerra contra o Irã dependerá, essencialmente, do papel dos EUA. Israel não pode vencer sozinha”. A situação isralense é pior do que o quadro pintado. O país é como um cão de guarda que já perdeu muitos dentes, mas que ainda consome muita ração. A guerra alterou o status de “Israel” definitivamente.





