O texto Semear – O futuro e um Brasil Socialista é o manifesto de fundação de uma tendência interna do PSOL e foi publicado neste domingo (22) no sítio Esquerda Online. A primeira coisa que chama atenção é o caráter pequeno-burguês do conteúdo.
Na abertura está escrito que “Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de posições e passa a ser definição de época. Que já não basta administrar o presente, corrigir danos ou ocupar espaços. O que se coloca diante de nós é algo mais profundo. Trata-se de disputar o sentido do tempo, a direção da história e a própria possibilidade de um futuro comum. É nesse terreno que estamos.”
A coisa não começou bem, desde a definição de política, especialmente para um grupo que se diz leninista. Para Lênin, “a política é a expressão concentrada da economia” [Mais Uma Vez Sobre os Sindicatos]. Economia, no caso, se refere aos interesses de classe, nos moldes que Marx e Engels já haviam descrito no Manifesto Comunista, os interesses econômicos fundamentais determinados pela posição que ocupam no sistema de produção.
Para Lênin, a questão central da política é a conquista, manutenção e utilização do poder do Estado por determinada classe social. Portanto, considerando que Engels escreveu que “o comunismo é a doutrina das condições de libertação do proletariado”, a luta de classes atinge seu pleno desenvolvimento quando se apodera do que é essencial na política: a organização do poder do Estado. Lembrando que o proletariado não pretende se perpetuar como classe, mas eliminar as classes e com ela o próprio Estado.
O que significa exatamente “disputar o sentido do tempo”? Essas formulações confusas apenas afastam a classe trabalhadora desse tipo de grupo, que acaba atraindo com esse linguajar apenas elementos pequeno-burgueses.
Identitarismo
Outra marca do texto é seu compromisso com o identitarismo, uma ideologia liberal, nascida nas universidades norte-americanas, que se infiltrou na esquerda e que recebe muito financiamento do imperialismo via entidades, como Fundação Ford (fachada da CIA), Open Society e muitas outras.
Por isso que encontramos no Manifesto coisas do tipo “o Brasil condensa de maneira intensa as contradições do nosso tempo. Somos uma sociedade marcada pela violência colonial, pela escravidão e pela permanência estrutural dessas marcas no presente. A desigualdade nunca foi aqui um acidente. Ela foi forma de construção do país. O racismo organiza a distribuição da morte e também a gestão da pobreza. O patriarcado continua estruturando a exploração do trabalho, a violência contra as mulheres e o controle dos corpos e dos desejos (…)”.
Brasil Colônia já passou faz um muito tempo, a escravidão também, mas a importância de frequentarem esses assuntos tem um propósito: desmoralizar o Brasil. O País é visto como um erro. Esse tipo de mentalidade abre espaço para que se divida o País em partes menores: terras para os índios, para os quilombolas etc., e o separatismo acaba favorecendo o imperialismo, que sempre busca dividir os países em partes menores, pois quando são grandes acumulam muito poder, como é o caso da Rússia, da China, e do próprio Brasil.
A questão da escravidão é uma maneira de esconder o liberalismo identitário. Ao se falar do passado, não se fala da escravidão de hoje: a assalariada. É uma forma de mascarar o papel da burguesia na opressão do trabalhador, pois, supostamente. Jogando-se a culpa em “estruturas”, “patriarcado”, o burguês fica protegido, o inimigo é outro.
Enquanto os marxistas colocam ênfase nas duas classes fundamentais do capitalismo: burguesia e proletariado; os identitários fragmentam a luta dos trabalhadores em várias lutas menores. E assim, temos que “o Brasil é também uma terra de resistência. Neste país se levantaram greves, revoltas, quilombos, comunidades de luta, levantes camponeses, movimentos negros, feministas, indígenas, LGBTIs, anticapacitista, anti-etaristas, antiproibicionistas e antimanicomiais, estudantis, populares e sindicais”.
Poderiam simplificar, falar da luta dos trabalhadores, da força que derrotou a ditadura militar. A luta da classe operária é fundamental, sem a emancipação da classe trabalhadora, o restante continuará oprimido.
A “novidade”
Pela milésima vez, temos de ouvir que, “em muitos momentos, entre a adaptação ao possível e a impotência diante do necessário, a esquerda se viu impedida de sustentar uma estratégia de transformação à altura do país. É justamente por isso que nosso tempo exige elaboração, coragem e reorganização”. É o velho pensamento revisionista travestido de “novo”.
O grupo afirma “o papel do PSOL como partido necessário deste tempo. O PSOL é uma das expressões mais importantes da disposição para a unidade contra a extrema direita e para a reorganização da esquerda brasileira nas últimas décadas”.
Uma definição estranha, dados que grupos do PSOL, como MES, apoiaram a Lava Jato. Nas últimas presidenciais, o PSOL fez o que pôde para evitar Lula como candidato de unidade da esquerda. Em vez disso, tentou empurrar goela abaixo da classe trabalhadora um candidato “alternativo”, como João Doria e Ciro Gomes, amplamente rechaçados. Falava-se em frente ampla, amplíssima, mas isso não colou, e no final do segundo tempo aderiram à candidatura Lula.
O Semear diz que quer “construir uma organização à altura desse desafio. (…) Não uma vanguarda autoproclamada e separada do povo, mas uma força que assume responsabilidades, que organiza, que escuta, que aprende, que arrisca, que formula e que se compromete com as tarefas reais do tempo histórico”. Mas o seu linguajar é de classe média, não fala com as massas.





