Na sexta-feira (20), às 20 horas, em entrevista a Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), afirmou que a reação do Irã diante da agressão dos Estados Unidos e de “Israel” pode abrir uma nova etapa da situação política mundial. Ao longo da conversa, Pimenta também criticou a política internacional do governo Lula, denunciou a submissão do regime político brasileiro ao imperialismo e ao sionismo, denunciou o autoritarismo do Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu a necessidade de uma campanha política própria da esquerda contra a extrema direita e o capital financeiro.
Logo no início da entrevista, ao comentar o ataque norte-americano e sionista ao Irã, Pimenta declarou que a situação ainda está em aberto, mas avaliou que a resposta iraniana já produziu um impacto profundo na correlação de forças internacional. Segundo ele, a reação da República Islâmica mostrou que o imperialismo e “Israel” já não dispõem da mesma liberdade de ação que tiveram durante décadas no Oriente Médio.
“Eu acho que estamos vendo aqui um fenômeno novo. Eu só faço o reparo no sentido de que o jogo não terminou. Quando eu vejo uma coisa dessas pequeninas, animado positivamente com a reação até que enfim alguém se levantou aí e deu o troco à brutalidade do imperialismo e do sionismo. Mas eu fico naquela posição assim do torcedor que está no meio do intervalo do primeiro para o segundo tempo, está ganhando de um a zero e está tenso com o resultado do jogo porque o jogo não terminou. Aparentemente, o Irã está indo muito bem na resposta que ele deu, o bloqueio ao Estreito de Ormuz foi eficiente e o governo Trump parece que está aí numa situação de confusão sem fim. Espero que esse quadro se estabilize e se ele se estabilizar acredito que nós temos aqui uma nova realidade política internacional”, declarou.
Ainda sobre esse ponto, Pimenta afirmou que o efeito da ofensiva iraniana tende a ir além do terreno militar imediato. Para ele, a resposta do Irã fortalece politicamente as massas árabes e altera de maneira duradoura a situação regional.
“Eu fico pensando no impacto que essas ações iranianas têm na população daquela região. Eu sei que o povo dos países árabes apoia o Irã, sem dúvida nenhuma, contra ‘Israel’ e contra os Estados Unidos. Mas eu acho que esse impacto vai ter um efeito muito profundo na política do Oriente Médio. Pode levar a uma mudança radical”, disse.
Ao tratar da posição brasileira diante do conflito, o presidente do PCO afirmou que o governo Lula já vinha se desorientando na política externa há algum tempo, em particular desde a posição adotada sobre a Venezuela e o veto à entrada do país nos BRICS. Na avaliação dele, a fraqueza política do governo se expressa também nesse terreno.
“Eu acho que o governo Lula perdeu o rumo na política internacional já faz bastante tempo. Perdeu o rumo principalmente, começou com a questão da Venezuela. Aquele veto do governo à entrada da Venezuela nos BRICS, depois o posicionamento sobre a eleição, essa coisa toda. Eu acho que o governo começou a perder o rumo. O Lula tem uma ideia de que ele tem que fazer uma frente das chamadas democracias. O problema é que essas democracias, isso aí, pessoal, são verdadeiros gangsters políticos. São os países imperialistas. E eu acho que essa ideia dele, que também é fruto da situação do governo dele, que é um governo fraco, eu tenho falado isso desde o começo, o governo fraco tem dificuldade de levar adiante uma política coerente, ele se perdeu completamente”, afirmou.
Pimenta ligou essa desorientação à crise que pode atingir o governo a partir dos efeitos econômicos da guerra, sobretudo no preço dos combustíveis e no risco de uma paralisação dos caminhoneiros. Segundo ele, uma greve forte nessa categoria teria peso político real contra o governo, justamente porque se trata de um setor heterogêneo e vulnerável à influência da direita.
Na entrevista, Leandro Fortes retomou uma avaliação que Pimenta já vinha fazendo desde o governo Biden, de que o imperialismo norte-americano atravessa um processo de decadência. Pimenta reafirmou essa posição e disse que a situação atual demonstra uma decadência “extrema”, pois o imperialismo só pode manter sua dominação mundial se conservar supremacia militar absoluta.
“Sim, eu acho que eu diria até de decadência extrema. Quando você vê um país como o Irã fazendo frente militarmente ao imperialismo, você nota a decadência. O imperialismo tem que ter uma supremacia militar absoluta, caso contrário, ele não consegue. Não consegue ser o dono do mundo, não consegue ser a ditadura do mundo. Os russos já tinham colocado em xeque essa supremacia na Ucrânia. E agora o Irã está completando o serviço. E eu não estou vendo, a princípio, eu não consigo ver muito a escapatória do Trump. Parece que ele entrou num lamaçal aí, militar e político, que vai ser difícil dele sair”, declarou.
Ao comentar o papel de “Israel”, Pimenta avaliou que a guerra consolidou uma mudança já em curso na região. Segundo ele, o Estado sionista deixou de exercer a função de principal força militar local capaz de impor a ordem imperialista sem ajuda direta dos EUA.
“Eu acho que o caso de ‘Israel’, essa guerra aqui, ela consolidou uma situação que já vinha se estabelecendo, que é o seguinte. O papel de ‘Israel’ naquela região sempre foi o seguinte: ‘Israel’ era a primeira potência militar da região. Então, qualquer um que levantasse a cabeça ou que andasse fora da linha, ‘Israel’ intervinha. Agora, o que acontece? O que era para ser o cão de guarda do imperialismo na região, precisou chamar os Estados Unidos para defender ‘Israel’. Quer dizer, o cachorro não está defendendo a propriedade, o dono da propriedade está defendendo o cachorro. Então isso é uma mudança muito grande no papel político. Uma mudança, na minha opinião, definitiva”, afirmou.
O dirigente do PCO também acusou o regime político brasileiro de manter uma política complacente com o sionismo. Como exemplo, afirmou que palestinos praticamente não conseguem entrar no Brasil, ao passo que israelenses acusados de crimes de guerra circulam livremente. Ele também denunciou a perseguição a pessoas que viajaram ao Líbano e se reuniram com dirigentes do Hesbolá, partido legal naquele país.
“Existe uma diretriz da Polícia Federal que considera, sim, todo palestino como suspeito. Ao passo que os israelenses, acusados de crimes de guerra e de horrores, eles ficam aí livres e leves soltos. Teve gente aqui que foi perseguida pelo fato de ter viajado para Beirute e supostamente ter se encontrado com autoridades do Hesbolá. O Hesbolá é um partido político legal no Líbano. Você ir para Beirute se encontrar com o Hesbolá é a mesma coisa que você vir para São Paulo e se encontrar com alguém do Partido Novo aqui. Não tem nada de estranho. O cidadão pegou 15 anos de cadeia por isso. Foi acusado de atos preparatórios de terrorismo, sendo que ele não fez nada. Então, a diplomacia brasileira, o sistema político brasileiro, está muito dominado pelo imperialismo e pelo sionismo”, disse.
Em outro trecho da entrevista, Pimenta voltou a defender o fim do STF enquanto corte constitucional com os poderes atuais. Segundo ele, a experiência recente mostrou o erro da esquerda ao transferir para o Judiciário a luta contra o bolsonarismo. Para o presidente do PCO, a extrema direita não será derrotada por processos, mas por meio da luta política e da disputa pela consciência da população.
“A esquerda terceirizou a luta contra o bolsonarismo para o STF. Eu acho que isso é uma coisa, é um erro muito grave e agora nós estamos vendo que o tiro está ameaçando sair pela culatra. Porque o que os bolsonaristas vão falar? Ah, o Alexandre Moraes, o grande perseguidor do Bolsonaro, está envolvido com escândalos de corrupção, etc., etc., etc. Você imagina como é que isso daí vai cair na opinião pública geral, né? É um desastre”, afirmou.
Mais adiante, ele aprofundou a crítica à política da esquerda de recorrer à polícia e aos tribunais para enfrentar os adversários. Segundo Pimenta, esse caminho fortalece a direita e abandona o terreno tradicional da esquerda, que seria o da luta de ideias e da mobilização popular.
“Esquerda sempre disputou o terreno das ideias. Sempre foi superior à direita. A direita sempre teve que se colocar na defensiva. Agora isso aí está mudando e a esquerda está cada vez mais na defensiva. Porque não tem posição, se ampara aí no poder que não é deles. Alguém vai acreditar que Alexandre de Moraes é de esquerda? O homem que participou do golpe de 2016, todo mundo sabe. Ele não é esquerda. Agora, nós vamos travar uma luta pela consciência do povo usando a polícia, usando os tribunais? Eu acho que isso daí é o caminho mais errado possível”, declarou.
Esse mesmo raciocínio apareceu na crítica que fez à chamada Lei Felca. Para Pimenta, a medida representa uma ofensiva de censura e vigilância que tende a empurrar a juventude para a direita. Ele observou que a legislação não se limita a redes sociais, alcançando jogos e serviços digitais, com exigências que impõem mecanismos generalizados de controle sobre a população.
“Esse negócio que aprovaram agora, essa lei Felca, o adolescente de 16 anos não pode entrar nas redes sociais sem autorização. Eu acho uma barbaridade isso daí. Vai voltar uma parcela expressiva da juventude contra a esquerda. E a esquerda apoia essas proibições, a censura. Eu não sei, eu fui adolescente. Se tinha uma coisa que eu não gostava quando eu era adolescente, era essa tentativa de proibir, de controlar, de sufocar a sua opinião por todos os meios possíveis e imagináveis. Isso aí vai tudo para a direita”, disse.
Em seguida, ele afirmou que a medida faz parte de uma política internacional do imperialismo para restringir a utilização da Internet. Citou, como exemplo, o fato de distribuições de Linux terem suspendido serviços no Brasil por se recusarem a cumprir a lei.
Pimenta também abordou a crise econômica brasileira a partir do escândalo do Banco Master e da situação geral do capital financeiro. Segundo ele, o caso revela o grau de promiscuidade entre o sistema financeiro, os grandes interesses capitalistas e setores do regime político. Na avaliação do dirigente, a única saída real para o País seria a estatização do sistema financeiro e o não pagamento da dívida pública.
“Não só eu defendo, como eu acho que é a única solução para a situação brasileira. Você tirar um pouco do sufoco. O grande impasse brasileiro é que a poupança do Brasil é desviada para pagar a dívida. Então não tem poupança para desenvolver o País. O Brasil está asfixiado. E não tem como você se livrar disso sem se livrar dos bancos”, afirmou.
Ao falar da eleição de 2026, Pimenta confirmou que o PCO decidiu lançá-lo como pré-candidato à presidência da República. Segundo ele, a intenção é abrir um debate sobre questões essenciais que, em sua avaliação, o governo Lula evita enfrentar. Embora tenha lembrado que, em outras ocasiões, apoiou Lula no segundo turno, afirmou que essa é uma definição a ser tomada no momento oportuno, e não uma decisão antecipada.
Na parte final da entrevista, o presidente do PCO disse que o PT não pode usar a correlação de forças como desculpa permanente para a inação. Para ele, o partido age de maneira conformista, aceita as regras do regime político e, por isso, termina reforçando o próprio ambiente que alimenta o bolsonarismo. Como exemplo, mencionou novamente a Lei Felca, a política de censura e a identificação do PT com o status quo.
“Você não é obrigado, você pode não ter a correlação de forças ideal, mas você deve se esforçar por mudar essa correlação de forças. Não pode ser um fatalismo. Ah, nós não temos maioria no Congresso. Então não vou fazer nada, não vou fazer nada de significativo. Não, você tem a população, o jogo político é abrangente, ele tem muitas variáveis. Então você pode mobilizar opiniões, você pode pressionar, você pode fazer muita coisa. O PT é um partido conformista”, declarou.
Assista à entrevista na íntegra:





