A tempestade chega de repente. O mar, que até então parecia apenas parte da rotina dos pescadores , transforma-se em força destrutiva. As ondas quebram contra as rochas e o barco da família Valastro, adquirido com sacrifício, fica tão destruído. Com sua inoperância, desaparece também o projeto de independência econômica da família. A perda do barco representa a ruína e a tentativa de romper com o sistema que os mantém na miséria.
Esse enredo está no filme A Terra Treme (La Terra Trema, 1948), do cineasta italiano Luchino Visconti, uma das obras mais importantes do movimento cinematográfico do pós-guerra na Itália que ficou conhecido como Neorrealismo.
O filme utiliza os elementos formais básicos desse movimento: cenários reais e atores não profissionais, na sua maioria moradores do próprio local que vivem vidas muito semelhantes à retratada na película. Seu objetivo é contar uma história sobre pobreza, exploração e ilusão no capitalismo e, nesse sentido, levantar um debate, ainda muito atual, sobre a estrutura econômica que torna praticamente impossível a emancipação individual.
Luchino Visconti ocupava uma posição singular no cinema europeu. Aristocrata de origem, militante comunista por convicção, ele participou da criação do neorrealismo italiano no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial. O neorrealismo surgiu como uma tentativa de representar a vida concreta das classes trabalhadoras em um país devastado pela guerra. Os filmes abandonavam os estúdios e se aproximavam das ruas, das casas e dos locais de trabalho.
Em A Terra Treme, Visconti exercita essa proposta. O filme foi rodado inteiramente na vila siciliana de Aci Trezza com pescadores locais interpretando personagens muito próximos de suas vidas reais. O dialeto siciliano foi mantido, reforçando a dimensão quase documental da obra.
O projeto foi inspirado no romance I Malavoglia, de Giovanni Verga, clássico do Verismo italiano (movimento literário do século XIX) que retrata a vida de uma família de pescadores submetida à exploração econômica. Como no romance, Visconti mostra que a pobreza não é uma falha moral ou individual, mas o resultado de relações sociais concretas.
A comunidade de Aci Trezza vive da pesca, mas os pescadores não controlam o mercado do peixe. A comercialização é dominada por intermediários locais que organizam os leilões e determinam os preços. Os pescadores vendem sua produção em condições desfavoráveis e permanecem presos a um sistema de dependência econômica e de miséria.
O trabalho no mar é duro e incerto, mas o verdadeiro poder econômico está em terra, nas mãos daqueles que controlam a circulação da mercadoria. Essa divisão cria uma estrutura de exploração relativamente estável. Os pescadores produzem; os intermediários lucram.
No enredo, Antonio Valastro, jovem pescador e líder de sua família após a morte do pai, decide desafiar esse sistema. Ele convence seus parentes a hipotecar a casa para comprar um barco próprio. A ideia parece simples: pescar de forma independente e vender diretamente o peixe no mercado.
Durante um breve momento, a estratégia parece funcionar. A família consegue um sopro de esperança com uma excelente pesca de anchovas que fica pronta para ser vendida. No entanto, quando a tempestade destrói o barco, a família, sem dinheiro para pagar a hipoteca, acaba perdendo não apenas seu instrumento de trabalho, mas também a casa.
A tentativa de autonomia individual, de empreendedorismo, como chamamos hoje em dia, termina reforçando a disciplina coletiva da pobreza. Os Vacaros são estigmatizados pela comunidade por sua ousadia. Visconti busca contar uma história didática, ao estilo de Brecht, sobre como o sonho individual é, apenas isso, ilusório. O sistema não é feito para você vencer, mas para você se subordinar.
Essa ilusão também tem um caráter pequeno-burguês. O sonho de Varcaro tropeça em sua falta de consciência de classe, a saída só pode ser coletiva: a união de todos os pescadores por melhores e mais justas condições de trabalho. Algo que o filme não coloca: a comunidade parece paralisada em sua posição política.
Nesse contexto, Visconti usa a forma para mostrar a coletividade como política. Os pescadores quase nunca aparecem isolados no enquadramento. Eles surgem em grupo, puxando redes, arrastando barcos, caminhando juntos pelas pedras da costa ou discutindo o resultado da pesca. O trabalho é mostrado como uma atividade necessariamente coletiva.
Ao filmar os pescadores dessa maneira, o diretor reforça a ideia de que sua existência é marcada por uma condição social compartilhada. A pobreza e a dependência não são dramas individuais, mas uma realidade comum a toda a comunidade.
Curiosamente, o mesmo não acontece com aqueles que controlam o comércio do peixe. Os intermediários aparecem com frequência em posições de destaque dentro do quadro, muitas vezes isolados ou separados da multidão de pescadores. Eles ocupam espaços de autoridade no leilão, nas negociações, nas margens do mercado, enquanto os trabalhadores permanecem em grupos.
A própria organização visual do filme reproduz, portanto, a estrutura social da vila: de um lado, a massa de trabalhadores que produz coletivamente; de outro, os indivíduos que exercem o controle econômico. Enquanto o trabalho é coletivo, o poder permanece concentrado.
Em muitos filmes sobre pescadores, o mar aparece como cenário pitoresco ou metáfora existencial. Em A Terra Treme, ele é uma força material da vida econômica da comunidade.
É dele que vem o sustento dos pescadores, mas também é ele que determina os limites do trabalho. A pesca depende das condições do tempo, das marés e da força das ondas. O risco do mar faz parte da própria organização da vida da vila.
A tempestade que destrói o barco da família Valastro não é apenas um acidente natural. Ela se transforma em tragédia porque a família apostou tudo em um único instrumento de trabalho dentro de um sistema econômico que não oferece qualquer margem de segurança. A natureza desencadeia o evento, mas é a estrutura social que transforma esse evento em ruína.
O destino da família Valastro revela algo fundamental sobre o sistema retratado por Visconti. A economia da vila depende da impossibilidade de ruptura individual. Se um pescador conseguisse escapar do controle dos intermediários, outros poderiam tentar fazer o mesmo. O equilíbrio econômico da comunidade seria ameaçado.
Por isso, o fracasso dos Valastro desempenha uma função social. Ele demonstra aos demais pescadores que desafiar o sistema pode custar ainda mais caro do que se submeter a ele. O sistema não apenas explora. Ele também produz exemplos de fracasso.
Essa lógica aparece de forma semelhante em outro clássico do neorrealismo italiano: Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica. No filme, o protagonista consegue um emprego colando cartazes pelas ruas de Roma. Existe apenas uma condição: ele precisa possuir uma bicicleta. Quando a bicicleta é roubada, o trabalho desaparece imediatamente. Sem ela, não há emprego possível.
A bicicleta não representa autonomia econômica. Ela é apenas a condição mínima para poder trabalhar. O trabalhador torna-se assim dono de um meio de produção que, ao mesmo tempo, o subordina.
A economia contemporânea introduziu uma transformação importante nessa lógica. Em muitas formas de trabalho mediadas por plataformas digitais, o trabalhador precisa possuir previamente o instrumento de trabalho. O motorista precisa de um carro; o entregador, de uma moto ou bicicleta. Sem isso, o trabalho simplesmente não existe.
Essa propriedade, no entanto, não transforma o trabalhador em empresário. O carro ou a moto não confere controle sobre o mercado, os preços ou as regras do trabalho. O trabalhador torna-se uma espécie de microproprietário subordinado.
Ele possui o instrumento de trabalho, mas não possui poder sobre o sistema econômico que organiza sua atividade, da mesma maneira retratada em A Terra Treme e em Ladrões de Bicicleta. No caso contemporâneo, as plataformas controlam o acesso aos clientes, definem as tarifas e estabelecem as condições do serviço.
Os custos e os riscos, por outro lado, permanecem individuais. Se o carro quebra, se a moto precisa de manutenção ou se o combustível sobe de preço, o prejuízo é do trabalhador.
Se transportássemos essa lógica para o universo de A Terra Treme, o cenário seria ainda mais radical. Seria como se os pescadores de Aci Trezza não pudessem sequer trabalhar nos barcos dos outros. Para pescar, cada família teria que possuir seu próprio barco. Sem barco, nem haveria trabalho.
O risco do mar, os custos da embarcação e a manutenção seriam responsabilidades individuais, enquanto o preço do peixe continuaria sendo determinado pelos intermediários. A exploração não desapareceria. Ela apenas mudaria de forma.
Uma das escolhas mais significativas de Visconti está no modo como ele encerra a história. Depois do desastre que destrói o barco da família Valastro, o filme não oferece redenção nem compensação dramática. A tentativa de autonomia econômica termina simplesmente em fracasso.
Mais do que isso: a vida da vila continua. Os pescadores retornam ao trabalho; os intermediários seguem controlando o comércio do peixe e a estrutura social permanece intacta. A derrota da família não altera o sistema. Ela o confirma.
Talvez seja essa a ironia histórica que aproxima o mundo de Visconti da realidade contemporânea. O capitalismo atual apenas reorganizou a exploração de modo que, além de trabalhar, o próprio trabalhador também pague pelo instrumento com que é explorado.
Nesse sentido, a tragédia da família Valastro deixa de ser apenas uma história sobre pescadores sicilianos do pós-guerra. Ela se torna uma chave poderosa para compreender uma das contradições centrais do trabalho no século XXI.





