O governo dos Estados Unidos anunciou, na quarta-feira (25), uma nova lista de sanções relacionadas ao Irã, um dia antes de delegações iraniana e norte-americana realizarem, em Genebra, a terceira rodada de negociações indiretas sobre o programa nuclear do país persa.
Em nota, o Departamento do Tesouro informou que as medidas atingem dezenas de pessoas, empresas e embarcações que, segundo o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), estariam envolvidas em atividades ligadas ao comércio de petróleo do Irã, ao desenvolvimento de capacidades de mísseis e a outras tecnologias militares avançadas. O OFAC declarou ainda ter identificado “redes” que ajudariam instituições iranianas a obter equipamentos e matérias-primas para produção de armamentos, incluindo maquinário especializado e componentes.
As novas sanções foram anunciadas enquanto continuam as tratativas diplomáticas. Neste mês, ocorreram duas rodadas anteriores, uma em Omã e outra também em Genebra, nas quais as partes teriam apresentado propostas iniciais para um acordo.
No mesmo dia em que o Tesouro divulgou a lista, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falou ao Congresso e repetiu acusações contra o Irã, mencionando novamente a possibilidade de agressão militar caso as negociações não avancem. As medidas também foram anunciadas em meio ao aumento do envio de meios militares norte-americanos para a região, o que levou autoridades iranianas a afirmar que responderão a qualquer agressão.
Autoridades iranianas confirmam rodada em Genebra
A agência ISNA informou que o chanceler Abbas Araghchi viajou para Genebra na tarde de quarta-feira (25) para participar da terceira rodada de negociações indiretas na quinta (26). A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, confirmou a realização do encontro e disse que o governo mantém o compromisso de participar das conversas.
Também na quarta-feira (25), o presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Ghalibaf, declarou que o Irã aceitará a diplomacia “em pé de igualdade”: “se vocês escolherem a diplomacia em bases de igualdade, nós sentaremos com vocês à mesa de negociação. Mas se a escolha for engano e agressão, receberão uma resposta decisiva do povo iraniano”.
Presidente fala em ‘perspectiva positiva’
Ainda na quarta-feira (25), o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou ver “uma perspectiva positiva” quanto ao andamento das tratativas e disse que Araghchi daria sequência ao tema na rodada prevista em Genebra. Em cerimônia de inauguração de projetos econômicos no norte do país, Pezeshkian afirmou que a condução política busca superar a equação de “nem guerra, nem paz”, sob orientação do Líder da Revolução Islâmica, aiatolá Ali Khamenei.
Na segunda-feira (24), o vice-ministro das Relações Exteriores Majid Takht-Ravanchi declarou, em entrevista à NPR, que o Irã está disposto a tomar medidas para fechar um entendimento: “estamos prontos para chegar a um acordo [com os Estados Unidos] o mais rápido possível. Queremos fazer o que for necessário para que isso aconteça”.
Impasse sobre acordo
Um alto funcionário iraniano ouvido pela Reuters no último domingo (22) disse que permanece a divergência sobre o alcance e o mecanismo de retirada das sanções em troca de limitações ao programa nuclear, mas afirmou que “a possibilidade de chegar a um acordo interino existe”. A fonte afirmou que o Irã considera medidas como exportar parte do estoque de urânio altamente enriquecido, reduzir níveis de enriquecimento e estabelecer um consórcio regional para enriquecimento, mas exige que o direito ao “enriquecimento nuclear pacífico” seja reconhecido formalmente em qualquer acordo.
A mesma fonte disse que o Irã não abrirá mão do controle sobre seus recursos de petróleo e minerais, embora empresas norte-americanas pudessem atuar como contratadas no setor de óleo e gás, sob marcos específicos.
Araghchi rejeita pressão militar
Na terça-feira (24), Araghchi escreveu no X que existe uma “oportunidade histórica” para um acordo “sem precedentes”, capaz de tratar “preocupações mútuas” e alcançar “interesses mútuos”. Ele afirmou que a diplomacia precisa ter prioridade e disse que o governo dos Estados Unidos não deve comprometer o processo com agressões.
O chanceler reiterou que o Irã não buscará arma nuclear: “o Irã, sob nenhuma circunstância, jamais desenvolverá uma arma nuclear; tampouco nós, iranianos, abriremos mão do nosso direito de aproveitar os dividendos da tecnologia nuclear pacífica para o nosso povo”, posição reforçada pelo país persa desde sempre. Araghchi acrescentou: “provamos que não poupamos esforços para proteger nossa soberania com coragem. Trazemos a mesma coragem à mesa de negociação”.
Porta-voz e presidente do Parlamento rebatem acusações de Trump
Na quarta-feira (25), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, rejeitou acusações dos Estados Unidos sobre atividades nucleares e de mísseis do Irã e sobre números de mortos nos atos golpistas de janeiro, classificando-as como “uma série de grandes mentiras” e como parte de uma campanha coordenada de desinformação. Baghaei citou a técnica de propaganda “repita uma mentira muitas vezes e ela se torna verdade” e afirmou: “o que eles alegam sobre o programa nuclear do Irã, os mísseis balísticos do Irã e o número de vítimas da agitação de janeiro é simplesmente a repetição de ‘grandes mentiras’. Ninguém deve ser enganado por essas falsidades”.
Ghalibaf, presidente do Parlamento, por sua vez, afirmou que o Irã “nunca buscou, não busca e nunca buscarará” armas nucleares e advertiu Trump contra decisões “baseadas em informações falsas”. Ele também criticou declarações do governo norte-americano durante a guerra de 12 dias e contestou números divulgados por autoridades dos Estados Unidos e por “Israel” sobre mortes nos atos pró-imperialistas de janeiro. Ghalibaf disse que o Irã mantém “todas as opções” sobre a mesa, incluindo a diplomacia “com dignidade” e uma defesa “dissuasória”, e confirmou que a terceira rodada de negociações está prevista para quinta-feira (26), em Genebra.



