Política internacional

Chanceler da Rússia: EUA estará ‘brincando com fogo’ se atacar Irã

Em entrevista exibida na quarta (18), Lavrov alertou para “consequências graves” de novos ataques e citou risco real de incidente nuclear

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, advertiu que qualquer novo ataque dos Estados Unidos contra o Irã seria “brincar com fogo” e teria “consequências graves”. A declaração foi dada em entrevista à emissora saudita Al-Arabiya, exibida na quarta-feira (18), um dia depois de iranianos e norte-americanos realizarem conversas indiretas em Genebra, na Suíça, sobre o programa nuclear iraniano.

“As consequências não são boas. Já houve ataques ao Irã a instalações nucleares sob controle da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)”, afirmou Lavrov. O chanceler acrescentou que, “pelo que se pode julgar”, existiram “riscos reais de um incidente nuclear”. “Todo mundo entende que isso é brincar com fogo”, disse.

Na terça-feira (17), Irã e EUA fizeram a segunda rodada de negociações indiretas no consulado-geral de Omã em Genebra. Como na reunião anterior, em Mascate, a pauta se concentrou na questão nuclear e no tema das sanções impostas pelos EUA. Após o encontro, o chanceler iraniano Abbas Araghchi declarou que os dois lados concordaram em um conjunto de “princípios orientadores” para preparar as próximas conversas.

Na quarta (18), uma autoridade sênior dos EUA, em declaração à Reuters, afirmou que o Irã deve apresentar uma proposta escrita para encaminhar a disputa depois das conversas em Genebra. Autoridades de segurança nacional norte-americanas iniciaram uma revisão da prontidão militar regional, com previsão de forças “plenamente destacadas” até meados de março.

Os Estados Unidos sustentam que o Irã deve encerrar seu programa nuclear; o país persa, por sua vez, afirma que não busca armas nucleares e que tem direito à energia nuclear para fins pacíficos.

Sinais do Golfo e ‘direitos legais do Irã’

Ainda na entrevista à Al-Arabiya, Lavrov disse que atores regionais, “especialmente” países árabes e os Estados ribeirinhos do Golfo Pérsico, estariam empenhados em evitar uma escalada. Segundo o chanceler, países árabes estariam enviando sinais aos EUA “claramente pedindo contenção” e defendendo um acordo que não viole “os direitos legais do Irã” e garanta um programa de enriquecimento “puramente pacífico”.

Lavrov afirmou que uma confrontação renovada poderia desfazer ganhos diplomáticos recentes, citando a melhora das relações entre o Irã e vizinhos como a Arábia Saudita. Disse ainda que Moscou mantém contato próximo com os iranianos e que acredita que “o Irã sinceramente quer resolver este problema” com base no cumprimento do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), ressaltando que qualquer acordo deve respeitar os direitos do país.

O Irã afirma que o direito ao uso pacífico da energia nuclear é “inerente e inalienável” e não pode ser anulado por pressão política. Teerã foi signatário original do TNP, assinando o tratado em 1º de julho de 1968; o Parlamento iraniano o ratificou em fevereiro de 1970, e o texto entrou em vigor para o país. Pelo TNP, o Irã é reconhecido como Estado não detentor de armas nucleares, compromete-se a não desenvolver nem adquirir tais armas e, em contrapartida, mantém o direito de desenvolver energia nuclear para fins pacíficos sob salvaguardas internacionais.

Fortificações, guerra anterior e pressão militar

A escalada ocorre enquanto novas imagens de satélite apontam obras de fortificação em instalações consideradas sensíveis, em meio à ameaça de guerra regional. As imagens indicam que o Irã construiu uma estrutura de concreto sobre uma nova instalação em um sítio militar e a cobriu com solo, além de ter enterrado entradas de túneis em um complexo nuclear que, segundo a mesma descrição, foi atingido por bombardeios norte-americanos durante a guerra de 12 dias travada no ano passado entre “Israel” e o Irã.

Na quinta-feira (19), o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, pediu que cidadãos poloneses deixassem o Irã “imediatamente” e “não vão a este país sob nenhuma circunstância”.

As imagens também chamam atenção para o complexo de Parchin, cerca de 30 km ao sudeste de Teerã. Serviços de inteligência imperialistas alegam, há mais de duas décadas, que o local teria abrigado testes relacionados a detonações de bombas nucleares; o Irã nega e afirma que seu programa é civil. Nem a inteligência norte-americana nem o órgão nuclear da ONU encontraram, no ano passado, provas de que o Irã estivesse buscando armas nucleares.

Relatos citam que “Israel” atacou Parchin em outubro de 2024. Imagens de satélite antes e depois do ataque indicariam danos extensos a um prédio retangular e reconstrução aparente em registros de 6 de novembro de 2024. Imagens de 12 de outubro de 2025 mostrariam novas obras; em 14 de novembro, apareceria um telhado metálico sobre uma grande estrutura; já em 16 de fevereiro, essa cobertura não seria mais vista, encoberta pelo que especialistas descrevem como uma estrutura de concreto.

Em análise datada de 22 de janeiro, o Institute for Science and International Security (ISIS) afirmou haver avanço na construção de um “sarcófago de concreto” em torno de uma instalação recém-construída no local, identificada pelo instituto como Taleghan 2. O fundador do ISIS, David Albright, escreveu que “adiar as negociações tem seus benefícios”, alegando que, “nas últimas duas a três semanas”, o Irã teria enterrado a instalação para aumentar a proteção contra ataques aéreos.

O ISIS também afirmou, no fim de janeiro, que imagens mostraram esforços para enterrar duas entradas de túneis no complexo de Isfahan, descrito como um dos três polos de enriquecimento atingidos por bombardeios norte-americanos em junho, durante a guerra. No início de fevereiro, o instituto disse que todas as entradas do complexo estariam “completamente enterradas”. Outras imagens indicariam ações desde 10 de fevereiro para “endurecer e fortalecer defensivamente” duas entradas de túneis sob uma montanha a cerca de 2 km de Natanz, onde ficam outras plantas de enriquecimento.

Porta-aviões, ameaças e exercícios no mar

Em paralelo, os EUA ampliaram presença militar. Trump ordenou o envio de um segundo porta-aviões para a região; o USS Abraham Lincoln, com quase 80 aeronaves, estaria posicionado a cerca de 700 km da costa iraniana, segundo imagens de satélite.

Na quarta (18), a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, declarou que “o Irã seria muito sábio” se fechasse um acordo com os EUA. Trump, por sua vez, escreveu na Truth Social que, “se o Irã decidir não fazer um acordo”, os EUA poderiam precisar usar uma base aérea no Oceano Índico, nas ilhas Chagos, “para erradicar um ataque potencial” de um “regime altamente instável e perigoso”.

Do lado iraniano, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) realizou exercícios na segunda (16) e na terça (17) no Estreito de Ormuz para se preparar para “potenciais ameaças de segurança e militares”. Na quarta (18), o Irã anunciou exercícios navais conjuntos com a Rússia no Mar de Omã. O contra-almirante Hassan Maqsoudlou afirmou que as manobras visam impedir ações unilaterais na região e ampliar a coordenação contra ameaças à segurança marítima, incluindo riscos a embarcações comerciais e petroleiros.

Operação simulada com russos e Photo Ex

Em outro exercício, forças iranianas e russas fizeram uma operação simulada de resgate de uma embarcação “sequestrada” nas águas de Bandar Abbas, no sul do Irã. Participaram efetivos da Marinha do Exército iraniano, da Marinha do CGRI e da Marinha russa.

A ação começou após navios comerciais enviarem mensagens de emergência ao Centro de Coordenação de Resgate Marítimo (MRCC) de Bandar Abbas. Um helicóptero SH-3 da Marinha iraniana e um Bell 412 do CGRI realizaram buscas; em seguida, o destróier Alvand, navio de comando, acionou meios de combate. Forças especiais iranianas e russas retomaram a embarcação após assalto simultâneo por helicópteros e por superfície e prenderam os “piratas”.

Durante o exercício marítimo conjunto, as marinhas também executaram uma Photo Ex (fotografia aérea) e formação tática. Do lado iraniano, participaram o destróier Alvand, embarcações lança-mísseis Neyzeh e Khanjar, helicóptero SH3D, meios de desembarque, equipes de operações especiais e botes RIB e Raad do Exército, além do navio Shahid Sayyad, meios da classe Tondar, botes de assalto, equipes de operações especiais e um helicóptero Bell 412 do CGRI. A Rússia destacou o porta-helicópteros Bravyi, e houve participação de dois caças F-4 da Força Aérea iraniana.

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