Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

‘Luzia-Homem’ – Domingos Olympio

Resenha livro - “Luzia-Homem” – Domingos Olympio – Ed. Melhoramentos

“A desgraça endurece o coração. Por causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais filhos, pois já ninguém ama”.

“Luzia-Homem” (1903) é certamente o livro mais conhecido do escritor cearense Domingos Olímpio. A história foi primeiramente publicada em capítulos num jornal carioca, quando o autor já tinha atrás de si uma carreira consolidada de advogado, promotor e deputado provincial pelo Partido Conservador.

A publicação deu-se um ano depois do lançamento de “Os Sertões” (1902) de Euclides da Cunha. E o sucesso de “Luzia-Homem”, história que versa sobre o drama dos retirantes do sertão cearense no contexto da grande seca de 1877, pode ser explicado pelo interesse do publico, naquele contexto, em torno do homem sertanejo.

Afinal, alguns poucos anos antes, entre 1896/1897, ocorrera a Guerra de Canudos, que repercutira em todo o país como movimento messiânico que desafiava a autoridade da recém proclamada república (1889). E, certamente, o livro de Domingo Olímpio é também precursor da literatura regionalista que despontaria a partir da década de 1930, da qual são tributários: Graciliano Ramos, com suas descrições psicológicas de retirantes e fazendeiros de Alagoas; José Lins do Rego e com o seu ciclo da cana de açúcar descrevendo a Paraíba; Amando Fontes falando de Sergipe; Rachel de Queiroz falando do Ceará; e Jorge Amado falando da Bahia.

Domingos Olímpio Braga Cavalcanti nasceu na cidade de Sobral em 18.09.1850. Bacharelou-se em Direito na Faculdade de Recife em 1873, na mesma época em que floresceu o movimento conhecido como “Escola de Recife” do qual fizeram parte os professores Tobias Barreto e Sílvio Romero. O escritor sobralense mudou-se do Ceará para Belém do Pará em 1879, ao que consta, após alguns desentendimentos com a classe política cearense, quando exercia o cargo de promotor público.

Na condição de deputado provincial, defendeu o abolicionismo e o sistema republicano. Em 1891 transfere-se ao Rio de Janeiro, onde passou a contribuir com a imprensa local. Além do conhecido romance, escreveu peças de teatro e colaborou com a imprensa. Candidatou-se para vaga na Academia Brasileira de Letras mas foi preterido poeta Mário de Alencar, filho de José de Alencar. Ao que consta, Olavo Bilac votara a favor de Domingos Olímpio.

Luzia-homem é o nome da protagonista. Mais propriamente um apelido atribuído pelo povo sertanejo, pelo fato da mulher ter alguns traços masculinos, desde a sua altivez e independência, até a forma como se vestia. Luzia-homem foi a forma como ficou conhecida essa personagem que congrega a força e higidez física e a disposição ao trabalho masculina, somada à beleza física e graça femininas.

A história se passa em Sobral, no contexto da grande seca de 1877, e nela há descrição viva da miséria dos retirantes. Aquela cidade servia como um entreposto do literal ao sertão – por ela passavam aqueles que fugiam da seca, sujeitos à fome, à sede e às moléstias infecciosas:

“Vinham de longe aqueles magotes heroicos atravessando montanhas e planícies, por estradas ásperas, quase nús, nutridos de cardos, raízes intoxicantes e palmitos amarelos, devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo implacável sol incandescente”.

Luzia-homem trabalha nas obras de construção da cadeia pública na cidade. Passa a ser assediada por um soldado chamado Crapiúna, que move uma perseguição amorosa contra a vontade da mulher, enviando cartas e fazendo gracejos.

A protagonista recorre a um amigo chamado Alexandre para defendê-la do assédio do soldado insolente. Despeitado, Crapiúna decide vingar-se de Alexandre acusando-o de roubar comida e dinheiro do armazém da comissão de socorro aos flagelados. Essa intriga irá resultar na prisão de Alexandre. Luzia-Homem dedica-se a socorrer Alexandre para salvá-lo da prisão injusta, nas visitas diárias irá desenvolver por ele o amor, no que é correspondida. Ao término da história, a disputa dará ensejo a uma grande tragédia de conteúdo passional, movido pela paixão e perversão de Crapiúna, reproduzindo um estilo próprio da literatura naturalista.

“Luzia-Homem” é frequentemente descrito como um romance naturalista. Há nele, de fato, passagens que remontam ao estilo literário – a descrição das hordas e multidões de retirantes chegando em Sobral poderia se equiparar à descrição dos tipos populares do Cortiço em Aluísio Azevedo; a ideia naturalista do meio como fator determinante da conduta dos personagens (determinismo) está presente em Luzia-Homem.

Mas há no livro de Olímpio Azevedo algo que parece destoar do naturalismo.

A protagonista é alçada à condição de heroína. Luta bravamente pela sua vida, ao final da obra. E em toda a sua trajetória, revela a altivez e independência do sertanejo. Ela expressa o sofrimento dos fortes que são resignados e crentes. A criação de uma heroína mais remete ao romantismo do que ao forte comprometimento realista e de objetividade do naturalismo. Não vemos heróis nos livros naturalistas de Aluísio Azevedo, mas personagens vítimas do meio social e das suas próprias paixões.

Mais do que um romance naturalista, seria mais correto dizer que Luzia-Homem se trata de uma percussora da literatura regionalismo da década de 1930, tal qual Franklin Távora com a sua “literatura do Norte” e Inglês de Sousa com os seus “contos amazônicos”. Três escritores do século XIX que catam a história da sua terra, respectivamente Ceará, Pernambuco e Pará.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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