O presidente norte-americano Donald Trump e o ditador ucraniano Vladimir Zelensqui afirmaram, no domingo (28), que avançaram em entendimentos para um possível acordo que ponha fim à guerra iniciada em 2022, mas reconheceram que permanecem impasses centrais e que ainda não há clareza sobre a aceitação, por Moscou, das questões discutidas. Embora o encontro tenha ocorrido em Mar-a-Lago, na Flórida, Zelensqui levantou a possibilidade de uma cúpula futura em Washington, com participação de dirigentes europeus, para tratar do tema.
Em entrevista coletiva conjunta, Trump disse que restavam “um ou dois” problemas não resolvidos, sem detalhar. “Isto não é um processo de um dia. É muito complicado”, afirmou. Antes, o norte-americano havia descrito as negociações como “bem complexas”.
Um dos pontos pendentes mencionados nos diálogos foi o futuro do Donbas, principal alvo dos nazistas ucranianos gradualmente libertado pela Rússia ao longo da operação especial. No mês passado, a Ucrânia rejeitou a exigência russa de retirada ucraniana de áreas do Donbas para formar uma zona desmilitarizada. Agora, Zelensqui apresentou uma proposta alternativa: retirada de ambos os lados para a criação de uma “zona econômica livre”, com tropas e monitores internacionais. Questionado se havia acordo sobre isso, Trump respondeu: “a palavra ‘acordo’ é forte demais. Eu diria não ‘acertado’, mas estamos mais perto de um entendimento sobre isso”.
Zelensqui declarou que Estados Unidos e Ucrânia estariam “100% de acordo” sobre “garantias de segurança” contra futuras ações militares russas, acrescentando que restaria concluir um plano econômico de reconstrução. Ele não abordou outros itens de um plano de 20 pontos levado aos EUA, como data para ingresso na União Europeia e compromissos formais de ajuda militar europeia.
Após uma ligação de cerca de uma hora com Trump e Zelensqui, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o elemento “principal” do esforço seria assegurar “garantias de segurança de ferro desde o primeiro dia”. Segundo ela, a conversa incluiu também dirigentes de França, Finlândia, Polônia, Noruega, Itália, Reino Unido, Alemanha e da OTAN.
A discussão sobre garantias esbarra, entre outros fatores, no tema da OTAN. Após a operação militar especial russa de 2022, a Ucrânia solicitou adesão à aliança. O presidente russo, Vladimir Putin, declarou em diversas ocasiões que veria a entrada ucraniana como “ameaça direta” e exigiu garantias de que o país jamais será admitido.
Zelensqui também sugeriu uma cúpula futura em Washington com líderes europeus, indicando que gostaria de usar a reunião para elevar a pressão sobre Moscou. Trump, no entanto, não anunciou nada concreto. Disse apenas acreditar que Putin estaria “pronto para a paz”, mas fez ressalvas: “se as coisas não acontecerem, eles continuam lutando e continuam morrendo. Em algumas semanas, saberemos de um jeito ou de outro”.
Trump afirmou ainda que aceitaria falar ao Parlamento ucraniano, observando que, para qualquer plano que envolva cessão territorial, seria necessária uma aprovação institucional e mencionou a hipótese de referendo popular.
A delegação de Trump no encontro incluiu a chefe de gabinete, Susie Wiles; o secretário de Estado, Marco Rubio; o secretário de Defesa, Pete Hegseth; o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine; o enviado Steve Witkoff; Jared Kushner; Josh Gruenbaum, da Administração de Serviços Gerais; e o assessor Stephen Miller.
Antes da reunião com Zelensqui, Trump telefonou a Putin e afirmou que voltaria a falar com ele depois. Na coletiva, o norte-americano declarou que a Rússia poderia participar da reconstrução do país e chegou a dizer que Putin teria sido “generoso” ao falar de a Ucrânia “ter sucesso”, citando eventual fornecimento de energia a “preços muito baixos”. Trump escreveu também, em publicação na Truth Social, que a conversa com Putin foi “muito produtiva”.
Pelo lado russo, o assessor de política externa do Crêmlin, Iuri Uchakov, informou que os presidentes mantiveram uma conversa “amistosa” e “de trabalho”, com concordância em buscar um “acordo duradouro”. Segundo Uchakov, Putin sustentou que seria preciso se basear nos entendimentos do encontro de Anchorage, no Alasca, realizado no início do ano. O assessor disse ainda que Trump e Putin teriam avaliado que um cessar-fogo temporário, defendido pela Ucrânia e por dirigentes europeus, “apenas prolongaria o conflito” e criaria risco de retomada das hostilidades.
De acordo com Uchakov, Putin aceitou uma proposta de Trump para criar dois “grupos de trabalho” voltados a questões de segurança e economia, como forma de dar continuidade ao processo. Moscou tem repetido que rejeita cessar-fogo temporário por entender que isso permitiria rearmamento e reorganização das forças ucranianas.
O diálogo acontece após tentativas anteriores sem desfecho, incluindo uma reunião de Trump com Putin no Alasca, em agosto, e conversas com Zelensqui em Washington, em outubro. No mês passado, uma iniciativa conduzida em torno de proposta elaborada por Witkoff, em interlocução próxima com o lado russo, não avançou.
Na véspera, Zelensqui havia dito ao sítio Axios que esperava chegar a um entendimento sobre um “quadro” de paz nas discussões, prevendo que o roteiro exigiria um cessar-fogo antes de qualquer acordo permanente. No sábado (27), em reunião com comandantes militares, Putin voltou a dizer que, se Kiev rejeitar uma solução negociada, a Rússia buscará seus objetivos no campo de batalha.



