Com centenas de pessoas morrendo todos os dias por coronavírus, o Brasil se encontra, mas uma vez, com o posto de ministro da Saúde vazio. Nelson Teich, que assumira o comando da pasta no dia 17 de abril, pediu demissão do cargo no final da manhã de ontem (15). Na época, o então ministro alegou que precisaria de 15 dias para ficar a par dos procedimentos que estavam sendo realizados, de modo a propor uma política para a epidemia. No entanto, a era Teich duraria menos de um mês.
Não é por acaso, obviamente, que dois ministros da Saúde saíram — ou, em certo sentido, foram forçados a sair — do governo Bolsonaro. Luiz Henrique Mandetta, filiado ao partido da ditadura militar de 1964-1985 (Democratas) e integrante da máfia dos planos de saúde, se chocou várias vezes com o governo por propor uma política de isolamento social controlado. Bolsonaro, por sua vez, adotou uma outra política, visando atingir menos duramente os capitalistas em um primeiro momento.
A saída de Mandetta — ministro que chegou a ser elogiado pela esquerda nacional — foi vista como uma vitória do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro. Afinal de contas, aquele que era apresentado como seu adversário pela imprensa burguesa, não conseguiu se impor, mesmo contando com o apoio de setores importantes do regime político. Quando o nome do empresário Nelson Teich foi divulgado, portanto, a versão oficial era a de que o Ministério da Saúde teria ganho um representante legítimo do bolsonarismo.
A verdade é que Nelson Teich, embora muito mais alinhado com o presidente ilegítimo que Mandetta, sempre apresentou uma política distinta à de Jair Bolsonaro. O agora ex-ministro da Saúde se colocou a favor do isolamento social, assim como os governadores. Embora não se chocasse mais frontalmente com o governo — uma vez que os capitalistas estavam procurando uma forma de retomar a economia —, Teich foi colocado como uma espécie de ponte entre Bolsonaro e a burguesia. Isto é, administrando, por um lado, o impulso que vinha do governo federal para adiantar a abertura e, por outro, fazendo concessões à política de abertura gradual defendida pelo imperialismo.
As duas políticas — a da abertura gradual e a do adiantamento da abertura — são, no entanto, duas faces da mesma moeda. Ambas são defendidas pela burguesia e têm como fim salvar o capitalismo, embora sejam formalmente diferentes. O fato é que, se a abertura que Bolsonaro pretende implementar for descontrolada, isso poderá levar, rapidamente, a uma explosão social por causa da falta de infraestrutura médica. Por outro lado, se as medidas de isolamento forem aplicadas em demasia, levará vários setores capitalistas à falência, fazendo com que a burguesia de estados como o Rio de Janeiro, que já vem apresentando problemas fiscais desde o governo Temer, entre na total bancarrota.
A saída de Teich do governo demonstra que a burguesia não está conseguindo impor ao governo Bolsonaro um ministro que regule de fato a sua política de abertura. Se nem mesmo Teich, que era muito mais alinhado ao governo que Mandetta, conseguiu isso, a tendência é que a política bolsonarista se imponha. Isso mostra, portanto, que os capitalistas estão cada vez mais dispostos a atirar a população ao risco de contágio pelo coronavírus.
É preciso aguardar para saber quem ocupará a nova lacuna do Ministério. Seja quem for, assumirá com anuência dos militares, expressando um acordo da burguesia de conjunto. Dizer que o ministro seguirá a linha bolsonarista, no entanto, não quer dizer que o “lockdown” será descartado. Afinal, “lockdown” e reabertura não são excludentes: o “lockdown” brasileiro é apenas uma maneira de aumentar o aparato de repressão contra o povo e de diminuir o fluxo de pessoas nas ruas, diminuindo a demanda por hospitais, enquanto os trabalhadores sobretudo da indústria continuam sendo escravizados pelos capitalistas.





