No dia 8 de agosto, o diretório nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) aprovou, sem qualquer consulta à sua militância, um plano especial de financiamento de algumas candidaturas. De acordo com o plano, os recursos destinados aos candidatos serão distribuídos da seguinte maneira: 30% para candidaturas proporcionais de mulheres, 50% para negros, 15% para indígenas, quilombolas e LGBTs e 10% para deficientes. O objetivo dessa resolução seria, segundo o presidente nacional da legenda, “não só incentivar as candidaturas de mulheres, indo muito além do que determina o TSE, que destina 30% do fundo eleitoral para candidaturas femininas, mas também de outros grupos que historicamente estão em desvantagem na política brasileira”.
Muito longe de uma política efetiva para combater a extrema-direita, que é inimiga de todos os setores contemplados pelo PSOL, a resolução não passa de uma demagogia eleitoreira. Em primeiro lugar, a necessidade de o partido determinar uma cota para cada um desses segmentos demonstra que, na verdade, há uma ala no partido que seja contra esses segmentos. Ou seja, que o PSOL não tem um programa para a situação política que está colocada e, justamente por isso, a única forma de o partido defender os interesses dos índios seria o de lançar um índio candidato. Não fosse assim, não seria necessário estabelecer uma cota para cada setor: a preocupação do partido seria de estabelecer um programa e que, de acordo com o programa, os militantes definissem os candidatos.
Outro aspecto importante revelado nessa decisão é que o PSOL, como um típico agrupamento pequeno-burguês, acaba cedendo à pressão do imperialismo para não defender os interesses da classe operária, e sim uma política identitária de natureza oportunista. Se, de fato, o partido acredita que estabelecer cotas eleitorais para setores oprimidos ajuda o partido a se manter sob a direção desses setores, por que não estabelece cota para operários?
Em terceiro lugar, registramos que a “referência” do PSOL para sua política é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isto é, o PSOL é o partido que se orgulha de aprofundar a política do Judiciário golpista, que tirou Lula das eleições e que é responsável pela ditadura do regime que tornará praticamente inviável que uma candidatura de esquerda saia vitoriosa.
Frente ampla
Junto ao estabelecimento de cotas, o diretório aprovou, segundo seu portal na internet, “definições sobre tática eleitoral, reafirmando a orientação pela unidade da oposição de esquerda e centro-esquerda contra o governo Bolsonaro”.
Embora pareçam temas bastante distintos, ambos se complementam. O termo obscuro “centro-esquerda” revela, em si, que a política do PSOL para as eleições passa pela política da “frente ampla”. Isto é, a política de conciliação da esquerda com setores da burguesia, que apoiaram o golpe de 2016. O pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos, participou recentemente de atividades com figuras como Fernando Henrique Cardoso. E ninguém do partido contestou, mostrando que há um acordo em relação a esse tipo de política.
E o que isso tem a ver com as cotas de recursos para uma série de setores? Tem a ver que ambas as medidas revelam que a prioridade do PSOL não é a de estabelecer um programa de luta para a classe operária diante da extrema-direita. O PSOL defende a “frente ampla” porque, como consequência de sua composição fundamentalmente pequeno-burguesa, é incapaz de estabelecer um programa independente, ficando a reboque da burguesia. E, na falta de um programa, resta ao PSOL, portanto, recorrer a uma política demagógica com os setores que estão sendo atacados pelo governo Bolsonaro.
A política é demagógica porque não procura resolver os problemas desses setores. Busca apenas “fazer uma média”, mostrar-se preocupado com esses setores, sendo que a preocupação em si não impedirá os ataques. Não basta ter uma candidata mulher para que os interesses da mulher sejam atendidos: Joice Hasselmann, Damares Alves e Janaína Paschoal são apenas alguns exemplos. E o mesmo vale para qualquer outro setor: a burguesia tem muita facilidade para manipular negros, índios e até mesmo deficientes para que defendam sua política.
O que não pode ser manobrado pela burguesia é um programa de luta dos trabalhadores e de todos os setores explorados. Muito mais do que uma “representatividade” artificial, é preciso colocar, de maneira clara, as reivindicações que levarão esses setores a um enfrentamento contra o regime político e contra a extrema-direita. Em oposição às palavras de orem de “mais recursos para candidatas mulheres”, é preciso responder com a defesa do direito ao aborto. Em oposição à demagogia com os índios, é preciso organizar sua autodefesa, junto com os trabalhadores do campo e, assim por diante.





