Em artigo publicado pelo portal Vermelho no dia 18 de agosto, o dirigente Haroldo Lima, do PCdoB, elogiou a política da esquerda pequeno-burguesa norte-americana diante das eleições presidenciais. O texto “Frente Ampla, a lição dos Democratas americanos” saúda a iniciativa de figuras como Bernie Sanders em apoiar Joe Biden e defende que o mesmo seja feito no Brasil em relação ao fascista Jair Bolsonaro.
Logo de cara, Haroldo Lima nos fornece sua tese: “a tática geral traçada pelo Partido Democrata dos Estados Unidos para enfrentar o Trump foi a de uma frente ampla”. De fato, podemos chamar a política de apoio da esquerda a Joe Biden de uma política de “frente ampla”. Isto é, uma aliança entre a direita do regime político, contendo até mesmo ex-membros do governo Bush, com elementos da esquerda norte-americana, incluindo aí figuras como Bernie Sanders, que apresenta uma plataforma política de tipo social-democrata. O que não é correto, contudo, é a sua conclusão: a “frente ampla” é uma política nociva para a esquerda norte-americana e não deve ser exemplo algum para a esquerda brasileira.
Primeiramente, é preciso destacar um erro de análise de Haroldo Lima no que diz respeito às eleições norte-americanas de 2020: “ao se dividir, com a esquerda socialista afastando-se da disputa central, facilitou a vitória do Trump”. Não foi a “divisão” da “esquerda” que pavimentou o caminho para a vitória de Trump. O que aconteceu em 2016 foi que Bernie Sanders e vários outros setores da esquerda norte-americana e da esquerda mundial endossaram a candidatura direitista de Hilary Clinton contra a candidatura de Trump. Com isso, a esquerda entrou em uma profunda desmoralização, uma vez que Clinton é uma figura bastante impopular e uma das responsáveis pelas condições degradantes do operariado norte-americano, e permitiu que a extrema-direita vencesse. A diferença de 2016 para 2020 é que a pressão do imperialismo para que a esquerda apoie a candidatura democrata é maior.
O imperialismo está pressionando a esquerda contra Trump porque, finalmente, Joe Biden é o candidato preferencial do imperialismo. O Partido Democrata — ou, pelo menos, a ala direita, que controla o partido — é uma organização com profundas relações com o imperialismo e que defende a política neoliberal até as últimas consequências. Sua aparência democrática, repleta de demagogia com as mulheres e os negros, é apenas uma forma de encobrir a podridão de seu programa. Trump é um candidato da burguesia, mas menos estável e, portanto, um candidato secundário. A presença de Kamala Harris na chapa, quem Haroldo Lima diz representar “a mulher, a negritude, o antirracismo e o antifascismo americanos” é uma demonstração dessa demagogia.
O caráter reacionário desse tipo de frente fica ainda mais claro quando o artigo coloca a necessidade de se aproximar com elementos do Partido Republicano: “Os Democratas perceberam que, nessa situação, a frente necessária a ser constituída não era apenas a da união das tendências internas do Partido Democrata, aí incluindo a esquerda socialista liderada por Bernie Sanders. Tratava-se de ampliar a frente e nela colocar os próprios membros do Partido Republicano de Trump descontentes com ele”. No fim das contas, a “frente ampla” contra Trump caberia todo mundo que não fosse o próprio Trump, o que mostra o completo abandono de um programa por parte do dirigente do PCdoB. A conclusão de que deveria abandonar o programa, inclusive, aparece no artigo: “A união era contra Trump e a palavra de ordem era ‘basta ser contra Trump’ (…).
Uma frente para eleger um típico representante do imperialismo nos Estados Unidos não é avanço algum para a esquerda norte-americano. Tampouco seria no Brasil. Segundo Haroldo Lima, “Aqui trata-se de formar uma frente anti-Bolsonaro”. Essa frente, com as características da frente americana, seria, por comparação, uma frente com o PSDB. Isto é, uma frente com o partido que se orgulha de ter privatizado o Brasil. Trata-se, na verdade, de uma política inaceitável.





