As mensagens apreendidas no celular de Daniel Vorcaro mostram o antigo dono do Banco Master procurando diretamente Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo quando os dois ocupavam a presidência do Banco Central. Campos Neto chegou a marcar um encontro com Vorcaro em sua casa. Galípolo recebeu o pedido de um “voto de confiança” e de mais 60 dias para tentar salvar o Master. Porém, os contatos são apenas a parte mais visível de um problema maior: a ligação permanente entre o Banco Central e o capital financeiro.
As conversas com Campos Neto datam do fim de 2023. Vorcaro pediu uma reunião para apresentar o banco e suas perspectivas. Campos Neto sugeriu sua residência na Fazenda Boa Vista, condomínio de luxo em Porto Feliz, no interior de São Paulo. O encontro acabou transferido para uma unidade do Banco Central na capital paulista porque, segundo mensagem do próprio Campos Neto, a casa havia sido dedetizada. Em março do ano seguinte, os dois ainda trocaram mensagens.
O acesso continuou na gestão seguinte. As mensagens publicadas pela coluna de Lauro Jardim registram Vorcaro procurando Galípolo desde julho de 2025. O banqueiro tentou telefonar, ofereceu-se para viajar imediatamente de São Paulo a Brasília e insistiu em reuniões. Galípolo, em diferentes momentos, orientou que os contatos fossem formalizados pelo gabinete e que Vorcaro tratasse primeiro com a área de Fiscalização.
Em agosto, Vorcaro já admitia um problema de liquidez no Master. Pediu ajuda para obter uma manifestação do Banco Central necessária, segundo ele, à cessão de ativos. No fim de setembro, fez o apelo mais direto: “Te escrevo para pedir um voto de confiança e apoio na solução que apresentamos ao FGC”. Solicitava 60 dias para vender o Will Bank, receber recursos de investidores e reorganizar o conglomerado. Em outubro, voltou a pedir auxílio e nova reunião. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025; no dia seguinte, o BC liquidou o Master.
As mensagens não provam que Galípolo tenha atendido aos pedidos de Vorcaro. Elas mostram, porém, um grande banqueiro falando diretamente com os dirigentes da instituição que regula o sistema financeiro. Essa proximidade não nasceu com o Master e tampouco depende de favores pessoais.
A própria composição da direção do Banco Central mostra a circulação de quadros entre a autoridade monetária e os bancos. Galípolo foi presidente do Banco Fator entre 2017 e 2021 e sócio-diretor de consultoria antes de chegar ao Ministério da Fazenda e, depois, ao BC. Nilton David assumiu a Diretoria de Política Monetária depois de ter sido chefe de operações da tesouraria do Bradesco.
Roberto Campos Neto fez o caminho inverso. Depois de deixar a presidência do BC e cumprir a quarentena legal, ingressou no Nubank em julho de 2025 como vice-presidente e chefe global de políticas públicas. Entre suas funções estão o relacionamento com reguladores financeiros, a análise econômica e de risco e a formulação de estratégia de longo prazo da empresa.
É a chamada porta giratória: quadros dos bancos entram na autoridade monetária e antigos dirigentes do órgão voltam ao sistema financeiro privado.
A Lei Complementar nº 179, sancionada por Jair Bolsonaro em fevereiro de 2021 após aprovação do Congresso, ampliou a separação entre o Banco Central e o governo eleito. A lei estabeleceu mandatos fixos para presidente e diretores e definiu o BC como autarquia de natureza especial, sem vinculação a ministério, tutela ou subordinação hierárquica, com autonomia técnica, operacional, administrativa e financeira. O presidente da República continua indicando os dirigentes, sujeitos à aprovação do Senado, mas a direção passou a ter mandato próprio.
Essa autonomia retirou parte do controle do Executivo sem retirar o poder econômico dos bancos sobre a política monetária. Os altos cargos da autoridade monetária sempre fortemente condicionados pelo sistema financeiro e a legislação de 2021 institucionalizou ainda mais essa situação.
A política de juros é o ponto em que essa disputa sai dos gabinetes e atinge diretamente a economia. É o Comitê de Política Monetária do Banco Central que decide a Selic. Taxas elevadas encarecem o crédito para trabalhadores e empresas e aumentam a remuneração de títulos públicos ligados aos juros básicos. Essa política favorece bancos e grandes detentores da dívida pública.
A dimensão financeira é enorme. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, juros e amortizações consumiram R$ 2,135 trilhões em 2025, o equivalente a 42,24% das despesas do Orçamento Federal executado naquele ano.
É por isso que as relações pessoais de Vorcaro são secundárias diante da engrenagem inteira. O problema não é apenas um banqueiro que telefona para presidentes do Banco Central. Executivos de instituições financeiras chegam à autoridade que define juros e regula bancos; dirigentes dessa autoridade depois podem ser contratados pelas mesmas empresas privadas submetidas à sua regulação.
A autonomia também foi uma decisão política. Congresso e governo Bolsonaro aprovaram uma legislação que reduziu o controle direto do Executivo sobre uma das instituições econômicas mais importantes do País. A independência em relação ao governo eleito não produziu independência em relação ao capital financeiro, pelo contrário: ela serve justamente para entregar totalmente o BC ao capital financeiro.
Por isso, não adianta trocar o presidente do Banco Central ou investigar as relações de Vorcaro. É preciso colocar um fim à autonomia do BC e realizar a estatização integral do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores.
Mas devolver o Banco Central ao controle do governo é apenas o primeiro passo. Enquanto os grandes bancos permanecerem privados e concentrarem tamanho poder econômico, continuarão dispondo de meios para pressionar governos e influir sobre a política monetária. As mensagens de Vorcaro ajudam a expor essa proximidade; a dependência do BC em relação ao capital financeiro é muito maior do que qualquer relação individual do dono do Master.





