O candidato do Partido da Causa Operária ao Senado por Mato Grosso do Sul, Valderi Garcia, apresentou em entrevista ao Campo Grande News uma candidatura marcada por duas experiências que raramente aparecem representadas no Congresso Nacional: a vida de um índio guarani-caiuá e a de um trabalhador da construção civil.
Morador da aldeia Jaguapiru, em Dourados, Valderi é candidato ao Senado pelo número 290. Sua candidatura está deferida pela Justiça Eleitoral e tem Luciano Lemes, trabalhador rural, como primeiro suplente, e Thiago Assad como segundo suplente.
A candidatura de Valderi chama atenção justamente por não se tratar de um político profissional formado dentro das política tradicional. Nascido em Dourados, ele passou boa parte da vida trabalhando fora da aldeia. Saiu ainda criança, aos seis anos, e viveu em diferentes cidades de Mato Grosso do Sul, entre elas Camapuã, Naviraí e Maracaju.
Durante cerca de duas décadas, trabalhou principalmente na construção civil. Mais tarde, já aos 37 anos, retornou para a aldeia onde havia nascido. Foi então, segundo ele, que passou a acompanhar de maneira muito mais direta os problemas enfrentados pelos guarani-caiuás na luta pela terra e por condições elementares de vida.
“Quando eu voltei para a minha terra que eu nasci, eu vi os meus parentes sofrendo, sendo reprimidos pelas forças policiais, reivindicando o espaço territorial, reivindicando a água”, declarou ao jornal sul-mato-grossense.
A situação descrita por Valderi está no centro da política de Mato Grosso do Sul. O Estado possui uma das maiores populações de índios do País e é também palco de conflitos prolongados pela posse da terra, particularmente envolvendo os guarani-caiuás. Nos últimos anos, diferentes retomadas foram cenário de operações policiais e confrontos com proprietários rurais.
A campanha do PCO no Estado tem procurado colocar essa questão em primeiro plano. Durante a campanha presidencial, dirigentes e candidatos do Partido estiveram em aldeias e retomadas da região de Dourados e Amambai, onde ouviram denúncias sobre falta de terra, violência policial e dificuldades de acesso a serviços básicos.
Valderi, no entanto, procurou apresentar sua candidatura não apenas como representação dos índios. Ao falar sobre sua trajetória, relacionou a situação existente nas aldeias com aquilo que considera um problema mais amplo da população trabalhadora.
“Não só o povo originário, mas toda classe trabalhadora, todo povo que é oprimido, é muito massacrado, sendo mal pago, salário baixo, que não dá para poder ter uma vida confortável”, afirmou.
A declaração aproxima diretamente a questão da terra da questão salarial. Antes de retornar para Jaguapiru, Valderi passou anos vivendo como trabalhador assalariado. Sua experiência política, portanto, combina a luta dos guarani-caiuás com problemas que atingem milhões de trabalhadores das cidades.
Esse aspecto também aparece nas propostas econômicas apresentadas pelo candidato.
Durante a entrevista, Valderi criticou o funcionamento do sistema financeiro brasileiro e afirmou que uma transformação mais profunda da situação do País exigiria enfrentar a concentração dos recursos nas mãos do grande capital financeiro.
“Qualquer tipo de cargo, qualquer uma dessas Casas do poder Legislativo, Executivo ou Judiciário do Brasil deve encarar uma modificação no sistema monetário, no sistema financeiro do nosso país”, declarou.
O tema está diretamente relacionado ao programa nacional apresentado pelo PCO nas eleições. O Partido defende, entre outras medidas, o não pagamento da dívida pública, aumento radical do salário mínimo, reestatização de empresas privatizadas e utilização dos recursos nacionais para ampliar investimentos e a renda dos trabalhadores.
Valderi apresentou a questão de maneira simples ao criticar a enorme diferença entre aquilo que recebe quem trabalha e o rendimento obtido por setores que vivem das operações financeiras.
“Tem que mexer com gente grande, gente que está tomando muito lucro sem trabalhar, sem plantar uma laranja, sem carpi”, afirmou.
A formulação parte de uma situação bastante concreta para quem passou anos na construção civil e conhece de perto o trabalho pesado. Enquanto trabalhadores rurais, operários da construção, funcionários do comércio e outras categorias recebem salários baixos, uma parcela enorme dos recursos públicos é absorvida pelo sistema financeiro.
Esta é a segunda eleição disputada por Valderi. Em 2024, ele foi candidato à Prefeitura de Dourados pelo PCO. Agora concorre a uma das vagas de Mato Grosso do Sul no Senado, numa disputa que reúne também candidatos de partidos como PT, PL, PSB, PSOL e Novo. Os registros oficiais confirmam que sua candidatura atual está deferida.
O candidato também chamou atenção para a desigualdade existente dentro da própria disputa eleitoral. Partidos pequenos concorrem formalmente nas mesmas eleições que as grandes legendas, mas dispõem de recursos econômicos, tempo de televisão e estrutura de campanha muito diferentes.
“Nós não ganhamos o mesmo valor dos outros candidatos, nós não temos o mesmo horário de televisão, de política como os outros candidatos”, afirmou.
O problema é particularmente visível em uma candidatura como a de Valderi. Enquanto diversas campanhas ao Senado contam com políticos profissionais, empresários, grandes estruturas partidárias e milhões de reais disponíveis, o candidato do PCO aparece oficialmente na Justiça Eleitoral como trabalhador da construção civil.
A campanha de Valderi procura transformar essa diferença em tema político. Em vez de apresentar o Senado apenas como espaço para elaboração abstrata de leis, o candidato relaciona sua participação eleitoral às lutas que conheceu diretamente: o salário do trabalhador, a repressão aos índios, a luta pela terra e a concentração da riqueza.





