O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo da Paraíba, Camilo Duarte, afirmou que os principais problemas enfrentados pela população não serão resolvidos apenas por meio das eleições. Em entrevista concedida na segunda-feira (24) ao Consórcio de Mídias Digitais do Brejo, em Guarabira, ele defendeu a mobilização dos trabalhadores como condição para mudar a situação do Estado e do País.
A sabatina abriu a série de entrevistas promovidas pelo grupo de meios de comunicação da região com os candidatos ao governo paraibano.
Camilo explicou inicialmente que sua candidatura não é um projeto pessoal. Os nomes apresentados pelo PCO foram definidos coletivamente pelo Partido para defender seu programa nas eleições.
“Não é Camilo que resolveu disputar. Houve um Congresso, houve uma discussão e nesse Congresso se escolheram as pessoas que estariam à frente em cada local para defender essa política”, afirmou.
Técnico-administrativo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Camilo chegou ao Estado em 2002 para estudar Física. Aproximou-se do movimento estudantil e, nesse período, passou a militar no PCO. Também trabalhou nos Correios e viveu cinco anos em São Paulo como militante do Partido.
Sobre a campanha, declarou que o objetivo vai além da disputa por votos.
“A gente não está pedindo voto no sentido estrito. A gente está aqui buscando dialogar com a população e ajudar nesse processo de mobilização.”
Dinheiro para os bancos, falta para saúde e educação
A primeira parte da entrevista tratou da saúde no Brejo paraibano. Questionado sobre a falta de leitos, hospitais especializados e atendimento para pacientes que precisam viajar até João Pessoa, Camilo apontou o pagamento da dívida pública como um problema central.
“O nosso problema atual é uma questão de independência política, para ter independência econômica. O País está subordinado aos bancos, aos banqueiros e nós pagamos por isso”, afirmou.
Para Camilo, candidatos que prometem ampliar hospitais, escolas e obras públicas sem enfrentar a transferência de recursos do povo para o sistema financeiro escondem a principal causa da falta de investimentos.
“Qualquer candidato que venha aqui falar em propostas, falar em qualquer ponto, que não tocar nisso, nesse ponto central, vai estar fazendo demagogia.”
O Brasil, destacou, possui recursos, trabalhadores qualificados e capacidade produtiva. O problema está na apropriação da riqueza.
“Nós temos riqueza, temos produção. É uma questão de onde essa riqueza vai parar. Quem se apropria do que é produzido?”
Camilo defendeu que o dinheiro público seja utilizado diretamente para ampliar a saúde estatal e criticou a transferência de recursos para empresas privadas.
“É um modelo de sucateamento. Para favorecer os interesses privados, você sucateia o público.”
Ao falar dos pacientes com câncer que enfrentam dificuldades para conseguir medicamentos e tratamento, denunciou a prioridade dada aos bancos em detrimento da população.
“A população está sendo deixada para morrer à míngua, à própria sorte, para que os recursos vão para os bancos.”
Perguntado sobre o que seria necessário para alterar profundamente essa situação, respondeu: “Uma revolução”.
O candidato também atacou os chamados orçamentos participativos, que, em sua avaliação, colocam a população para decidir apenas sobre pequenas parcelas dos recursos enquanto as principais despesas permanecem intocadas.
“Você pode escolher entre tampar um buraco da rua ou reformar a praça”, ironizou.
Para Camilo, trata-se de administrar a falta de recursos sem discutir por que eles não chegam aos serviços públicos.
Escolas viraram ‘depósitos’
Na educação, Camilo voltou a criticar a falta de investimentos e relatou sua experiência como professor de Física.
“Eu tinha nove turmas com uma média de 35 alunos por turma. Você fazia uma prova, mais de 200 provas para corrigir. Imagina você identificar as necessidades de cada estudante. Não tem como.”
Segundo ele, a precariedade das escolas impede que professores tenham condições de acompanhar os estudantes adequadamente. A implantação do ensino integral sem contratação de funcionários e melhoria das instalações apenas prolonga a permanência dos alunos em instituições sem estrutura suficiente.
Camilo defendeu a convocação dos aprovados em concursos públicos e a realização de novas seleções para suprir a falta de professores. Criticou ainda a utilização de contratos temporários e terceirizações, que deixam os trabalhadores dependentes politicamente dos governos.
O entrevistado também relacionou a situação das escolas ao enfraquecimento do movimento estudantil.
Ao lembrar mobilizações das quais participou em João Pessoa, no início dos anos 2000, acusou governos de absorver dirigentes de organizações estudantis e acabar com sua independência.
“Quando Ricardo Coutinho subiu à prefeitura, boa parte dos militantes da esquerda acabaram assumindo cargos também e sendo absorvidos. Quando ele subiu ao Estado, a mesma coisa.”
Para Camilo, esse processo “matou o movimento estudantil”.
‘Uma população desarmada é uma população subalterna’
A discussão sobre segurança ocupou uma parte importante da sabatina.
Questionado sobre o direito da população possuir armas, Camilo defendeu a posição tradicional do PCO pelo armamento dos trabalhadores.
“Uma população desarmada é uma população que está subalterna. Política é violência organizada. Se todo o poder, toda a violência, está na mão do Estado, a população fica refém de quem domina o Estado.”
Ele rejeitou a associação dessa reivindicação ao bolsonarismo, que classificou como uma política de demagogia.
“A extrema direita nunca foi a favor que o operário, que o trabalhador, se armasse. A extrema direita é a favor que a classe média se arme, mas que o trabalhador não.”
Ao ser perguntado sobre a falta de policiais e delegacias no interior da Paraíba, Camilo afirmou que o aumento do efetivo não solucionaria o problema.
“O que resolve o problema de segurança da população é a população estar armada, organizada, é diminuir a desigualdade.”
Na sequência, apresentou a posição do Partido pelo fim do aparato policial.
“Força policial, no geral, serve somente para oprimir. Força policial não está para defender a população, ela está para defender o poder do Estado de se impor.”
Camilo acrescentou:
“Nós somos a favor da dissolução de todas as polícias. Nós acreditamos que força policial tem que estar na mão da população. A população organizada é que tem que dizer como vai ser essa questão.”
O candidato defendeu que qualquer força armada esteja subordinada diretamente aos trabalhadores, e não aos governos federal, estaduais ou municipais.
Legalização das drogas e direito ao aborto
A expansão das facções criminosas também foi discutida.
Camilo relacionou o poder econômico do tráfico à própria ilegalidade do comércio de drogas. Quanto maior o risco da atividade, afirmou, maior é sua rentabilidade.
“Quer acabar com o crime organizado? Legaliza as drogas, controla, põe imposto.”
Ele explicou que, para o PCO, o Estado não deve interferir nas decisões privadas da população.
A mesma posição apareceu quando os entrevistadores perguntaram sobre o aborto.
“Não é a questão de ser a favor do aborto. É a favor que a mulher que está grávida possa decidir. Cabe a ela essa decisão. Não é a Camilo. Camilo não engravida. Eu não posso decidir sobre a vida da outra pessoa.”
Ao tratar da violência contra as mulheres, Camilo criticou políticas que se limitam a aumentar a repressão estatal e defendeu salários iguais, emprego e organização independente das mulheres.
Liberdade para falar
Camilo também se declarou contrário à censura e à regulamentação estatal das redes sociais.
“Você tem que ter o direito de falar o que quiser.”
Segundo ele, uma opinião deve ser enfrentada por meio do debate, e não da repressão.
“Se você fala, pode falar. Nós vamos lá e discutimos. Se você age, é diferente.”
O candidato citou a perseguição sofrida pelo próprio PCO. Lembrou que as redes sociais do Partido ficaram bloqueadas durante mais de um ano e afirmou que até hoje não houve uma explicação satisfatória para a medida.
Também contou que responde a um inquérito por um artigo sobre a luta palestina, embora o próprio texto rejeite o terrorismo como método de luta.
Para Camilo, o crescimento das tentativas de controlar a Internet está relacionado ao fato de as redes permitirem que a população se expresse e se organize sem depender dos grandes meios de comunicação.
Judiciário e repressão ao PCO
Na parte final da entrevista, os apresentadores perguntaram sobre o papel dos tribunais superiores.
Camilo acusou o Judiciário de assumir funções políticas cada vez maiores.
“Como é que está sendo feita essa ditadura no País? Através do Judiciário.”
Para ele, o domínio econômico exercido pelos bancos necessita também de mecanismos para dificultar a organização popular.
“O País está numa ditadura, na ditadura dos bancos. Para manter essa ditadura, a primeira coisa que você faz é não deixar a população falar para que ela não possa se organizar.”
Camilo encerrou a entrevista denunciando a operação da Polícia Filial contra o presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta.
“Nós tivemos o nosso presidente nacional do Partido da Causa Operária, ele teve a casa invadida pela PF às seis horas da manhã.”
Depois de manifestar solidariedade a Rui e aos demais militantes atingidos por medidas repressivas, retomou a questão colocada no início da sabatina:
“O voto em si, somente o voto, não vai resolver. A população tem que se mobilizar, tem que ir às ruas, tem que lutar pelos seus interesses.”




