Henrique Áreas de Araujo

Militante do PCO, é membro do Comitê Central do partido. É coordenador do GARI (Grupo por Uma Arte Revolucionária e Independente) e vocalista da banda Revolução Permanente. Formado em Política pela Unicamp, participou do movimento estudantil. É trabalhador demitido político dos Correios e foi diretor da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios)

Coluna

Um singelo episódio com Natália Pimenta

Hoje, nossa companheira completaria 41 anos e trago aqui uma história de bastidor que mostra como era a Natália

Muitos desistem no meio do caminho, diante da mínima dificuldade. Muitas das vezes sequer são dificuldades, mas apenas interesses pessoais. Outros sequer começam, impedidos por esses interesses ou por dificuldades que na maioria das vezes sequer são reais. Por isso devemos todo o nosso respeito àqueles que, mesmo diante de enormes problemas, continuam a sua luta, que relegam a terceiro plano interesses pessoais em nome de um objetivo maior. Como um guerrilheiro que é capaz de se esconder no mato ou em túneis por anos, sob bombardeio, sob ameaça de um exército muito mais poderoso, e mesmo assim continuar lutando até o fim.

Natália Pimenta lutou até o fim. Até suas últimas horas conscientes ela voltou suas atenções aos oprimidos em Gaza, aos injustiçados no Brasil e em todo o mundo. Até o fim se preocupou em elaborar e garantir que tudo pudesse estar organizado no partido, mesmo quando a doença já havia debilitado bastante suas forças.

Tudo isso deve ser lembrado, tudo isso deve ser exaltado como exemplo do que é ser um militante revolucionário.

Contudo, hoje não estou aqui para falar de grande acontecimentos. Hoje Natália faria 41 anos, dez dias depois de mim, como sempre lembramos desde que nos conhecemos em 2007. E nascemos no mesmo ano, 1985, ano em que houve o maior número de greves no Brasil, ela fazia questão de lembrar.

Nesse aniversário, quero lembrar de um pequeno acontecimento que mostra como a Natália se portava diante das pessoas e da organização partidária.

Daqui a exatamente uma semana, faremos o Congresso do PCO, cujo nome daremos em homenagem à nossa querida companheira. Há quatro anos, fazíamos o nosso último congresso e é justamente sobre um acontecimento muito simples que ocorreu em seus bastidores que gostaria de comentar.

Vieram do interior de Mnas Gerais três companheiras trabalhadoras, duas senhoras e uma jovem, filha de uma delas. Se hospedaram na Comuna, nossa casa.

Passado o primeiro dia de congresso, com aquela correria habitual, fomos todos dormir muito cansados e ainda com alguma dificuldade de fazer “sala” para nossas queridas hóspedes. No outro dia, acordamos de manhãzinha para a continuação do Congresso e, como sempre, nova correria. Engolimos um café preto e saímos de casa.

Se o mineiro, mais ainda o do interior, não está acostumado com a correria de São Paulo, mais estranho ainda para ele é um mau anfitrião. E uma de nossas companheiras, menos acostumada ao nosso sistema de corre-corre, reclamou do nosso péssimo acolhimento, eu diria até, ficou ofendida, achando que aquilo era pessoal.

Ao ficar sabendo disso, a Nat não perdeu tempo. Ficou decidido e ordenado que no dia seguinte faríamos um belo café da manhã para um cadim de prosa antes de irmos para o terceiro dia do congresso.

E assim fizemos; compramos pães, frutas, bolo e fizemos um café da manhã como forma de nos redimirmos da falta de hospitalidade.

Essa era a Natália. Ela mostrava em coisas como essas que organização partidária também é preocupar-se com as relações de amizade entre os militantes. Esse é apenas um de muitas ocasiões em que a Nat se esforçava por criar um clima bom entre todos. Ela sabia muito bem que a militância socialista também está nessas pequenas coisas.

Pensando nisso e em tudo o que a Natália fez, achei uma homenagem mais do que justa que o nosso próximo congresso leve seu nome.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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