Em entrevista à Causa Operária TV (COTV) em parceria com o Diário Causa Operária (DCO), nesta quarta-feira (1º), Izadora Dias, coordenadora do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo, conversou com Maria Vitória, diretora da Associação MATRIA, sobre a atuação da entidade, criada em 2023. Ao longo da conversa, Maria Vitória apresentou a associação, explicou suas posições sobre esportes, banheiros, penitenciárias e participação política, e denunciou o que classificou como ataques aos direitos das mulheres.
Logo no início da entrevista, Maria Vitória definiu a MATRIA como uma organização formada a partir da necessidade de reunir mulheres em defesa do sexo como critério para políticas públicas. Segundo ela, a entidade surgiu quando estava em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) a questão dos banheiros.
“A MATRIA é uma associação de mulheres, é uma associação criada em 2023 a partir de uma necessidade que algumas mulheres perceberam de reunir em um grupo mulheres que estivessem à frente das lutas, principalmente em relação ao marcador sexo, como sendo fundamental para as políticas públicas. À época estava tendo uma discussão no STF a respeito dos banheiros. Então nessa necessidade de criar um CNPJ, criar uma associação que conseguisse combater ou entrar nesse debate, algumas mulheres de algumas páginas no Instagram, alguns coletivos se reuniram e criaram a MATRIA.”
A dirigente afirmou ainda que a associação é sustentada pelas próprias integrantes e destacou o crescimento da entidade. Segundo Maria Vitória, a MATRIA chegou a 400 associadas na semana da entrevista. Ela declarou que esse aumento é visto pela organização como sinal de que mais mulheres passaram a se identificar com a política defendida pela entidade.
Ao ser perguntada sobre a posição política da associação, Maria Vitória disse que a MATRIA não se define nem como de direita nem como de esquerda, caracterizando-se como uma organização suprapartidária. Ao mesmo tempo, declarou que há maioria de mulheres de esquerda em seu interior, o que ela atribuiu à frustração de muitas delas com organizações que deixaram de representar os interesses femininos.
“A MATRIA é suprapartidária. Então eu acho que uma das coisas que eu pessoalmente me encantei pela MATRIA quando eu conheci o trabalho era justamente essa questão de por ser um grupo de mulheres para mulheres não tem essa divisão entre esquerda e direita, nós temos uma representatividade de ambos os grupos. […] A gente tem mulheres de direita, nós temos mulheres evangélicas, temos mulheres de religiões de matriz africana, nós temos mulheres ateias, cristãs, católicas, a gente tem de tudo, porque é um grupo de mulheres. Esse é o nosso fio condutor.”
Um dos trechos centrais da entrevista tratou da ação movida pela associação contra Erika Hilton. Maria Vitória afirmou que a decisão foi tomada depois de uma publicação em que Hilton chamou as mulheres de “imbeCIS” e “esgoto da sociedade”. De acordo com a dirigente, a ação diz respeito a uma ofensa dirigida às mulheres, e não a uma divergência política comum.
“Bom, a decisão de processar foi por conta da ofensa feita em direção ao grupo, classe sexual de mulheres, aquele tweet logo depois da eleição. […] Aquele tweet que chama as mulheres de imbeCIS, esgoto da sociedade. […] Então a nossa ação diz respeito a esse tweet e a essa ofensa, uma ofensa que não está no campo político, que não está no campo do diálogo. Então ela já eleita escolhe como resposta às críticas postar um tweet completamente fora do decoro que exigia a posição que ela estava ocupando.”
Maria Vitória também declarou que a associação atua em temas como a presença de homens em prisões femininas, a participação de homens em esportes femininos, o uso de cotas destinadas às mulheres e a entrada em banheiros femininos. Ao tratar desse ponto, afirmou que a organização surgiu justamente porque reivindicações do chamado “transativismo” passaram a avançar sobre direitos e espaços das mulheres.
“Eu acho que a MATRIA surge não porque pessoas trans não podem existir, essa coisa que eles ficam falando, esse argumento fraco, até porque a gente não está impedindo ninguém de existir. É porque as demandas do movimento trans começaram a ocupar os espaços das demandas das mulheres. E a gente tem que pensar que as mulheres não estão em uma posição de privilégio na sociedade, a gente mal consegue os nossos direitos, mal conseguiu recentemente.”
Na mesma linha, ao comentar os banheiros, Maria Vitória disse que a posição da associação é a defesa do banheiro feminino como espaço reservado às mulheres e às crianças. Segundo ela, qualquer solução apresentada para pessoas transexuais não deve se dar às custas dos espaços femininos.
“O banheiro feminino tem que ser preservado. A nossa luta é essa. A nossa luta não é ‘ah, mas a pessoa trans, onde essa pessoa vai usar o banheiro?’. O banheiro da mulher não é um espaço que está à mercê das políticas dos homens ou das políticas do transativismo. […] O que a gente não aceita é que coloquem os nossos banheiros, os nossos espaços de privacidade e segurança recém conquistados para serem rifados aí em leis.”
Outro tema tratado na entrevista foi o financiamento do transativismo. Maria Vitória afirmou que a MATRIA produziu um dossiê sobre o assunto e declarou que há repasses de entidades estrangeiras para organizações que impulsionam essa política no Brasil. Em contraste, disse que a associação mantém-se por autofinanciamento.
“Bom, eu também faço um convite para que as pessoas que estão assistindo leiam o dossiê Quem financia o transativismo no Brasil. […] São transferências milionárias, às vezes centenas de milhares, às vezes realmente milhões, que têm acontecido nas últimas décadas de Open Society ou Ford Foundation, enfim, uma série de organizações internacionais que injetam dinheiro e que já são organizações conhecidas por financiar o movimento transativista tanto no Brasil quanto fora.”
Ela também mencionou uma emenda parlamentar destinada à criação da plataforma Respeito, que, segundo afirmou, cita nominalmente a MATRIA em sua ata de criação. Na avaliação da dirigente, trata-se de um mecanismo de vigilância e censura.
Ainda durante a entrevista, Maria Vitória comentou a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre a participação em competições femininas. Segundo ela, a medida foi uma “grande vitória”, sobretudo diante de casos recentes em que atletas do sexo masculino passaram a disputar e tomar medalhas de mulheres.
“A decisão do COI foi uma vitória muito grande, principalmente pelo que a gente viu nas últimas Olimpíadas. As mulheres já estavam alertando sobre esses problemas nas Olimpíadas, a gente viu atletas trans nas Olimpíadas tirando medalhas de mulheres. […] Então a decisão do COI é uma grande vitória.”
Na parte final da conversa, Izadora Dias relacionou as denúncias feitas pela representante da MATRIA a episódios enfrentados pelo Coletivo Rosa Luxemburgo em atos do 8 de Março. Izadora relatou que militantes do coletivo foram impedidas de falar em uma manifestação mesmo quando queriam denunciar a situação das mulheres palestinas na Faixa de Gaza. A organização do ato chamou a polícia, houve empurrões e agressões, e esse episódio levou o coletivo a romper com esses agrupamentos.
Maria Vitória afirmou que a associação acompanha muitos casos de mulheres perseguidas por manifestações feitas na Internet e declarou que o objetivo dessas ações é intimidar e calar. Segundo ela, esse tipo de perseguição tem custos financeiros e psicológicos e faz com que muitas mulheres deixem de se pronunciar publicamente.
No encerramento, a diretora da associação convidou os telespectadores a conhecerem o trabalho da MATRIA, acompanharem as publicações da entidade e se associarem. Segundo ela, a organização busca fornecer dados e argumentos para a defesa dos direitos das mulheres e ampliar sua atuação nacional.





