As manifestações contra o governo de Emmanuel Macron continuam se espalhando pela França. Nesta sexta-feira (9), estudantes da Escola do Louvre, em Paris, aderiram aos bloqueios que atingem centenas de estabelecimentos de ensino. No mesmo dia, os ferroviários anunciaram uma greve para 5 de novembro. A juventude e a classe trabalhadora francesas estão se levantando contra a política neoliberal do presidente dos banqueiros, apresentado pela imprensa burguesa e por políticos como Luiz Inácio Lula da Silva como um representante do centro democrático e progressista.
A revolta começou em setembro, nas regiões operárias próximas de Paris, com estudantes denunciando a falta de professores, salas superlotadas e prédios escolares deteriorados. Em poucas semanas, transformou-se numa mobilização nacional, com a participação de universitários, professores, sindicatos e familiares dos estudantes. A repressão policial, longe de encerrar os protestos, ampliou a indignação contra o governo.
Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira pelo Al Mayadeen, o ministro da Educação, Édouard Geffray, informou que mais de 100 profissionais da educação ficaram feridos durante os protestos. O número de detenções ultrapassou 6.600, a maioria de menores de idade. As manifestações também deixaram centenas de estudantes feridos, vários deles atingidos por armamentos policiais.
Em Lens, no norte do país, um adolescente de 15 anos perdeu uma das mãos após a explosão de uma granada durante uma intervenção policial, na segunda-feira (5). O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu a forte possibilidade de o ferimento ter sido causado pelo armamento e determinou a suspensão temporária do uso de granadas de efeito moral nas manifestações estudantis. Também anunciou a abertura de investigações sobre denúncias de violência policial.
A situação chegou a tal ponto que o governo foi obrigado a apresentar suas primeiras concessões para conter os protestos. Na quinta-feira (8), Geffray anunciou um plano emergencial para encaminhar aproximadamente três mil professores habilitados, mas ainda sem turmas, aos estabelecimentos com maior carência de pessoal. Dados do próprio Ministério da Educação indicam que quase 10% das horas de aula previstas nos liceus públicos franceses não são ministradas por falta de professores.
A medida foi recebida como uma vitória inicial pelos estudantes, que decidiram continuar os protestos. Marius Mesnil, dirigente de uma organização estudantil, declarou à rádio Franceinfo que considerava absurdo ser necessário bloquear centenas de escolas para conseguir um plano de preenchimento das vagas. Uma nova paralisação nacional foi convocada para terça-feira (13).
O problema é mais profundo que a simples ausência de professores. O sistema público de ensino francês está sendo atingido pelos sucessivos cortes de recursos promovidos pelo governo. As escolas das regiões mais pobres sofrem particularmente com a falta de pessoal e as instalações inadequadas. Os estudantes exigem ainda mudanças no acesso às universidades e melhores condições de permanência no ensino superior.
Nesta sexta-feira, a mobilização ganhou um novo impulso com a adesão da Escola do Louvre, instituição de ensino superior dedicada à história da arte e ao patrimônio cultural. Cerca de 50 estudantes ocuparam sua entrada, exibindo cartazes inspirados em obras artísticas e cantando palavras de ordem contra Macron.
Segundo reportagem de Lisa Guillemin, publicada no jornal francês L’Humanité, os manifestantes gritavam diante da escola:
“Estamos aqui! Estamos aqui! Pela honra dos trabalhadores e por um mundo melhor, mesmo que Macron não queira!”
A instituição não foi a única do setor cultural a aderir à luta. Em comunicado publicado nesta sexta-feira, a CGT-Cultura informou que estudantes de escolas de arquitetura, artes, música e dança organizaram assembleias, bloqueios e manifestações em diversas cidades. Entre os estabelecimentos atingidos estavam a Escola Nacional Superior de Belas-Artes e a Escola Nacional Superior de Artes Decorativas, ambas em Paris.
O sindicato apoiou a mobilização e convocou os funcionários do Ministério da Cultura a participar da paralisação de 13 de outubro. No comunicado, afirmou que um governo que trata sua juventude como inimigo interno, empregando armamentos de guerra para contê-la, atua de maneira autoritária. A organização exigiu o fim das práticas policiais que ameaçam a integridade dos estudantes e um orçamento suficiente para atender às necessidades dos serviços públicos.
A entrada dessas instituições no movimento mostra que o descontentamento ultrapassou as escolas dos bairros operários, onde começaram os protestos. A política de cortes orçamentários ameaça tanto a formação dos estudantes quanto suas futuras condições de trabalho. A questão educacional passou a alimentar um confronto político mais amplo com o governo.
A mobilização também está alcançando diretamente a classe operária. A Federação dos Ferroviários da Confederação Geral do Trabalho (CGT) anunciou, após seu 46º congresso, a convocação de uma greve para 5 de novembro. A paralisação integra uma jornada nacional organizada por cinco confederações e organizações sindicais: CGT, CFDT, FO, Unsa e FSU.
Os ferroviários reivindicam melhores salários, empregos, financiamento da rede de transportes e preservação da unidade dos trabalhadores da Sociedade Nacional das Ferrovias Francesas (SNCF). A categoria enfrenta a abertura do setor ferroviário à concorrência, medida que favorece as empresas privadas e ameaça as condições de trabalho e o funcionamento do serviço público.
Embora tenham reivindicações imediatas diferentes, os movimentos estudantil e operário enfrentam a política econômica do mesmo governo. O dinheiro que falta às escolas, aos salários e aos transportes públicos está submetido às exigências de austeridade impostas pelo grande capital. A burguesia francesa procura reduzir as despesas sociais para preservar seus interesses financeiros, enquanto a população enfrenta serviços deteriorados e perda do poder de compra.
A própria imprensa financeira deixa claro de que lado estão os interesses econômicos envolvidos. Em reportagem publicada nesta sexta-feira, a agência Reuters informou que os especuladores acompanham com preocupação as concessões do governo aos estudantes. Stéphane Boujnah, dirigente da Euronext, empresa responsável pela Bolsa de Paris, chegou a sugerir que o Estado deveria gastar menos com aposentadorias para destinar mais dinheiro às crianças.
A proposta é reveladora. Diante de estudantes que exigem professores, um representante do mercado financeiro apresenta como solução retirar recursos dos aposentados. Para proteger os lucros dos grandes capitalistas, pretende colocar os trabalhadores jovens contra os mais velhos, obrigando uns a pagar pelos direitos dos outros.
Macron representa diretamente esses interesses. Antes de ingressar na política, trabalhou no banco de investimentos Rothschild, onde chegou à condição de sócio. Foi ministro da Economia no governo neoliberal de François Hollande e alcançou a Presidência da República, em 2017, com o apoio de importantes setores da burguesia francesa.
Desde então, promoveu sucessivos ataques aos direitos trabalhistas e à Previdência. Em 2023, impôs uma reforma que elevou de 62 para 64 anos a idade mínima para aposentadoria, reprimindo greves e manifestações que reuniram milhões de pessoas. Como não dispunha de maioria parlamentar suficiente, seu governo utilizou o artigo 49.3 da Constituição para fazer avançar a reforma sem votação ordinária na Assembleia Nacional, dando um golpe no parlamento.
A política econômica acompanha a orientação imperialista do governo. Macron é um dos chefes políticos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), do armamento da Ucrânia e da preservação dos interesses franceses sobre países submetidos historicamente à dominação colonial. Enquanto apresenta sua política externa como uma defesa dos valores democráticos, procura manter a posição da França como potência imperialista.
A aparência progressista do macronismo também se apoia numa propaganda identitária, com discursos sobre diversidade, direitos individuais e modernização social. Trata-se de uma cobertura política para um governo que aplica reformas neoliberais e enfrenta os trabalhadores com a polícia. O presidente pode posar como adversário da extrema direita e defensor dos direitos humanos; seus atos contra a população francesa mostram a natureza de classe de sua administração.
A burguesia francesa e internacional procura preservar essa imagem de político moderado. Macron seria uma alternativa civilizada tanto à extrema direita quanto à esquerda radical. Essa caracterização permite apresentar os ataques neoliberais como medidas responsáveis, necessárias à estabilidade econômica, e as manifestações dos trabalhadores como ameaças à ordem democrática.
Foi precisamente essa política que levou setores da esquerda francesa a apoiar o macronismo nas eleições legislativas de 2024. Sob o pretexto de impedir a vitória do Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, a chamada frente republicana retirou candidaturas para favorecer representantes do centro e da direita tradicional. Depois de receber essa ajuda, Macron recusou-se a entregar o governo à coligação de esquerda que conquistara o maior bloco parlamentar.
Agora, a revolta popular pressiona setores da esquerda francesa a romper, ainda que parcialmente, com a política de colaboração com a burguesia. A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, participa das manifestações e denuncia a repressão policial. A mobilização dos estudantes e trabalhadores está produzindo um deslocamento político que os acordos parlamentares não conseguiram produzir.
No Brasil, o comportamento da esquerda governista segue a direção contrária. Enquanto os franceses enfrentam Macron, Lula insiste em tratar o presidente dos banqueiros como um grande amigo e aliado internacional.
Em março de 2024, durante uma visita oficial do presidente francês ao Brasil, Lula e Macron protagonizaram uma sessão de fotografias na região amazônica. Os dois passearam pela Ilha do Combu, em Belém, e apareceram abraçados diante de uma enorme sumaúma. As imagens, divulgadas pela Presidência da República, foram comparadas nas redes sociais a fotografias de um casal de namorados.
A brincadeira ganhou caráter oficial em 12 de junho de 2025, quando a Embaixada da França no Brasil utilizou uma fotografia dos dois presidentes abraçados diante da Torre Eiffel para comemorar o Dia dos Namorados. Sobre a imagem, escreveu: “França + Brasil = relacionamento sério há 200 anos”.
Na legenda, a representação diplomática francesa acrescentou a declaração: “L’amour n’a pas de frontières”, ou seja, “O amor não tem fronteiras”. A publicação celebrava a amizade entre os governos brasileiro e francês.
A propaganda era apresentada como uma brincadeira diplomática, mas expressava uma relação política bastante concreta. Lula emprestava sua popularidade e sua imagem de dirigente de esquerda a um representante da grande burguesia francesa. O mesmo Macron que enfrentava greves contra sua reforma da Previdência e que agora reprime adolescentes que exigem professores era apresentado ao povo brasileiro como um parceiro político progressista.
A contradição não se limita às relações internacionais. A aproximação com Macron é parte da mesma política que levou o PT a incorporar Geraldo Alckmin à chapa presidencial e entregar cargos importantes do governo a representantes tradicionais da direita. O antigo governador tucano de São Paulo, responsável por ataques aos professores e por medidas favoráveis aos grandes empresários, foi convertido pela esquerda governista em aliado da democracia.
Macron cumpre papel semelhante na política francesa. Seus defensores apresentam o presidente como uma barreira contra a extrema direita, embora seja seu governo que aplica as medidas exigidas pelos bancos e enfrenta violentamente a população. O combate eleitoral à direita transforma-se em justificativa para apoiar outra direita, diretamente vinculada ao capital financeiro.
Essa política produz consequências para a própria esquerda. Ao assumir a defesa de políticos responsáveis pelos ataques aos trabalhadores, seus dirigentes deixam de oferecer uma alternativa à população e procuram obrigá-la a aceitar medidas impopulares em nome da luta contra um inimigo supostamente pior. A classe operária fica subordinada aos acordos firmados com seus adversários.
Os estudantes franceses estão demonstrando que a população não precisa aceitar essa chantagem. Não foi uma negociação entre partidos que obrigou o governo a apresentar um plano emergencial para preencher vagas de professores. Foram os bloqueios, as manifestações e a disposição dos jovens de enfrentar a repressão. A ampliação da luta aos ferroviários e aos demais setores organizados da classe trabalhadora pode colocar em discussão toda a política econômica do governo.
No Brasil, a conciliação com os banqueiros e a direita também acumula descontentamento. As alianças que a esquerda governista apresenta como indispensáveis à “democracia” mantêm os trabalhadores submetidos às exigências do capital financeiro. A tendência é que o aprofundamento desses ataques provoque novas mobilizações populares, como já acontece na França.
A próxima paralisação estudantil está marcada para 13 de outubro, com o apoio da CGT-Cultura. Para 5 de novembro, os ferroviários preparam uma greve nacional em defesa de seus salários, empregos e serviços públicos. Enquanto a esquerda brasileira se acasala com os Macrons de lá e de cá, os trabalhadores franceses se organizam para derrotar a política do presidente dos banqueiros.





