A atuação da CIA no Irã não começou com o golpe de 1953. Anos antes da derrubada de Mohamed Mossadeq, os serviços de inteligência norte-americanos já operavam no País por meio de uma operação secreta de longo prazo, batizada com o criptônimo TP-BEDAMN.
O prefixo TP era usado para as operações da CIA no Irã. A operação BEDAMN tinha caráter anticomunista e serviu de base para o trabalho de espionagem, propaganda e sabotagem política que desembocou na operação TP-AJAX, responsável pelo golpe contra o primeiro-ministro iraniano.
A Universidade Marxista realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). A operação TP-BEDAMN e os métodos utilizados pela CIA para preparar o golpe de 1953 serão expostos em aula por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.
A avaliação norte-americana sobre o Irã, no período da operação TP-BEDAMN, aparece nos documentos reunidos em Foreign Relations of the United States, Iran 1951-1954. Para os serviços de inteligência dos EUA, “a insegurança política e econômica combina-se com emoções religiosas, chauvinistas e fanáticas para produzir uma atmosfera extremamente favorável à subversão soviética”.
A frase mostra como o imperialismo via o nacionalismo iraniano. Para os EUA, a luta pela soberania do Irã sobre o petróleo e contra a dominação estrangeira poderia abrir caminho para a influência soviética. Por isso, deveria ser combatida por todos os meios.
Três forças políticas
A CIA identificava três forças políticas principais no Irã do início dos anos 1950 e estabelecia uma política diferente para cada uma delas.
A primeira era o aiatolá Saied Abolcássem Caxani, principal liderança política do clero xiita naquele período. A segunda era Mossadeq e a Frente Nacional. A terceira era o Partido Tudeh, organização comunista colocada na ilegalidade em 1949, mas ainda ativa.
Comprar Caxani
Em relação a Caxani, os espiões norte-americanos consideravam a possibilidade de comprá-lo. A palavra aparece nos próprios documentos da CIA.
A agência avaliava que o clérigo xiita era movido mais por interesses próprios do que por uma posição ideológica firme. Embora Caxani e seus seguidores apoiassem a nacionalização da indústria petroleira, a CIA considerava possível deslocá-lo por meio de vantagens pessoais ou institucionais.
Ao mesmo tempo, a CIA procurava identificar quais figuras poderiam ser separadas de Mossadeq. A ruptura posterior entre Caxani e Mossadeq, em 1953, mostrou a importância dessa avaliação para os planos dos EUA, ainda que a crise entre os dois envolvesse outros elementos além da corrupção direta.
Isolar Mossadeq
No caso de Mossadeq, a avaliação era diferente. A CIA reconhecia que atacar diretamente o primeiro-ministro era uma tarefa difícil. Mossadeq tinha grande prestígio popular, acumulado durante décadas de atuação política, na luta constitucionalista e na campanha pela nacionalização do petróleo.
A solução proposta pelos analistas norte-americanos foi atacar o entorno do primeiro-ministro. Segundo o documento, era preferível ir “contra seus seguidores mais destacados, para reforçar a ideia de que eles estão enganando o velho patriota”.
A propaganda contra o Tudeh
A ofensiva mais brutal era reservada aos comunistas do Tudeh. Em relação ao partido, dizia o documento da CIA, “todo tipo de expediente sujo era aceitável”.
A operação previa a fabricação de documentos falsos atribuídos ao Tudeh, com o objetivo de criar um clima de pânico anticomunista no país e justificar a repressão contra a organização. Não se tratava apenas de difundir boatos, mas de produzir material falso, plantá-lo em lugares escolhidos e fazê-lo aparecer como se tivesse sido descoberto por jornalistas, autoridades ou forças de segurança.
O documento descreve o método:
“Além de atacar os instigadores diretos da situação atual, deveriam ser utilizadas armas de propaganda negra. Poderiam ser ‘descobertas’ instruções que orientassem os membros do Partido Tudeh, após o recente sucesso da ‘conspiração Tudeh’, a conduzirem uma revolta aberta. Isto poderá trazer uma medida de unidade ao país e provocar as forças de segurança a tomarem medidas duras contra o Partido Tudeh. Folhetos, artigos de jornais, cópias forjadas do Mardam, o jornal do Tudeh, deveriam atribuir todo o crédito aos comunistas pelo sucesso da conspiração contra Razmara. ‘Instruções’ também poderiam ser descobertas listando as pessoas previstas para liquidação após o Tudeh assumir o poder.”
Um dos pontos mais graves era a fabricação de listas de pessoas que supostamente seriam executadas caso o Tudeh chegasse ao poder. O objetivo era provocar medo entre os setores citados nessas listas e empurrá-los para uma posição anticomunista ativa.
A base do golpe de 1953
A operação TP-BEDAMN serviu de base política e operacional para a TP-AJAX, que executou o golpe de agosto de 1953. Os métodos testados na operação anticomunista apareceriam em escala maior durante a derrubada de Mossadeq.
A propaganda negra contra o Tudeh, a falsificação de documentos, a tentativa de dividir o campo nacionalista e a compra de figuras políticas locais foram incorporadas ao golpe. As listas falsas e o pânico anticomunista ajudaram a colocar setores do clero e da burguesia iraniana contra o primeiro-ministro nos momentos decisivos.
Os documentos liberados pela própria CIA mostram que o golpe contra Mossadeq foi preparado durante anos, por meio de operações clandestinas destinadas a enfraquecer as forças que se opunham ao domínio imperialista sobre o petróleo iraniano.
O método usado no Irã também apareceu em outras operações dos EUA no século XX. A propaganda negra, a falsificação de documentos, a corrupção de dirigentes locais e o ataque indireto contra lideranças nacionalistas seriam empregados depois contra governos e movimentos populares em vários países, como Guatemala, Brasil, Congo e Chile.
O curso A história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.





