No dia 18 de maio de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro recomendou a suspensão, por dez jogos, das torcidas organizadas Força Jovem do Vasco e Jovem Fla. Essa medida utilizou como pretexto uma briga que ocorreu durante o Clássico dos Milhões, nos arredores do Estádio do Maracanã.
Medidas iguais ou piores a essa, infelizmente, tornaram-se comuns no cotidiano dos torcedores organizados. Existem casos em que as torcidas ficam anos sem poder frequentar eventos esportivos, têm suas sedes fechadas, seus diretores e membros presos etc.
Nessa confusão que ocorreu no Rio de Janeiro, um jovem ficou cego por conta de um tiro de bala de borracha disparado pela Polícia Militar. O Ministério Público do Rio de Janeiro vai pedir a suspensão da polícia durante dez jogos?
O aparato repressor do Estado burguês e a imprensa dos capitalistas se valem da maquiagem do discurso moralista da criminalização para fingir que estão combatendo a violência, sendo que esses fatos são executados por sujeitos isolados, e não pela organização popular.
Na realidade, essa repressão sistemática contra as torcidas organizadas tem, na sua essência, o ataque aos direitos democráticos e, mais diretamente, à liberdade de organização.
As torcidas organizadas agrupam em sua base social milhares de torcedores que têm o intuito de se organizar para torcer por seu time de futebol. O futebol está longe de ser uma dimensão alheia à política e aos interesses de classe, e é aí que reside o fundamento para a repressão.
Essas torcidas são compostas majoritariamente por trabalhadores, por pessoas que ficam distantes das grandes decisões políticas e econômicas do futebol, mas também de outras dimensões da vida social. Para aquela minoria que manda e desmanda no futebol e na sociedade, as pessoas se organizarem politicamente em torno de seus interesses é algo perigoso, porque esse processo agrupa uma grande maioria contra os anseios da minoria.
Quantos anos os partidos que representam os interesses dos trabalhadores não ficaram proibidos de atuar legalmente? Quantos anos os trabalhadores ficaram sem ter liberdade de organização sindical? Quantas vezes não cogitaram recentemente cassar o registro do Partido dos Trabalhadores? Quantas CPIs com o objetivo de perseguir e extinguir as organizações de movimentos populares não foram instaladas?
As organizações populares de luta têm o objetivo de agrupar os sujeitos que possuem interesses comuns e se encontram dispersos e, a partir daí, dar um caráter consciente para a luta por esses objetivos, com planejamento, estratégia e tática.
O futebol é um verdadeiro movimento de massas, principalmente no Brasil, que é o país onde ele é o maior símbolo da identidade nacional. Portanto, controlar de diversas formas esse desporto é crucial para minar a capacidade de atuação das organizações populares para dar respostas aos anseios dos trabalhadores. No caso do futebol, por exemplo, nas decisões políticas sobre o funcionamento dos clubes e o controle político sobre eles, das federações e da confederação de futebol, nos preços dos ingressos etc.
As torcidas organizadas já demonstraram em várias oportunidades um significativo grau de consciência política. Um exemplo recente foi a atuação de várias delas nos desbloqueios de vias públicas quando os fascistas estavam tentando constituir um ambiente político favorável ao golpe de Estado, que veio a ocorrer no dia 8 de janeiro de 2023.
Discutir a importância do papel das torcidas organizadas é crucial quando se quer analisar a questão do direito à cidade e à organização. Essas organizações populares foram constituídas durante o processo de urbanização e industrialização do País, ou seja, formaram-se no contexto de transformação dialética da luta dos trabalhadores, porque são parte dessa história.
As organizações patrióticas, populares e revolucionárias devem sair em defesa das torcidas organizadas e da liberdade de organização dos trabalhadores, desnudando a sanha persecutória e demagógica da burguesia, que, sob um discurso moralista, esconde seus reais interesses, que são os de manter seu controle político-econômico no âmbito do futebol e em todas as dimensões da vida social, visando apenas seus lucros, sequestrando do povo o nosso principal patrimônio cultural.





