Michel Temer (MDB) admitiu que Donald Trump cobrou de presidentes latino-americanos uma invasão militar da Venezuela. A cobrança ocorreu em 18 de setembro de 2017, durante um jantar realizado em Nova Iorque, na véspera da abertura da Assembleia-Geral da ONU.
Temer relatou o episódio em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Além do então presidente brasileiro, participaram do jantar Mauricio Macri, da Argentina, Juan Manuel Santos, da Colômbia, e Juan Carlos Varela, do Panamá.
Segundo Temer, a invasão da Venezuela foi o primeiro assunto levantado por Trump.
“Foi a primeira pergunta que ele fez: ‘Quando é que vocês vão invadir a Venezuela?’ Houve um certo constrangimento, mas cada um disse: ‘Olha, presidente, nós estamos tomando providências de natureza diplomática’”, contou.
Nenhum dos presidentes presentes contestou a pretensão dos Estados Unidos de ordenar uma operação militar contra um país latino-americano. Limitaram-se a explicar que ainda utilizavam medidas diplomáticas contra o governo de Nicolás Maduro.
A cara do golpe
O jantar mostra com clareza o papel desempenhado pelo governo Temer. O emedebista havia chegado ao Palácio do Planalto por meio do golpe de Estado de 2016, que derrubou a presidenta eleita Dilma Rousseff e entregou o governo brasileiro ao imperialismo.
Diante de Trump, Temer não se comportava como chefe de um país soberano. Apresentava-se como responsável por uma sucursal dos Estados Unidos, à espera de ordens para agir contra uma nação vizinha.
A pergunta sobre a invasão não foi tratada como uma afronta ao Brasil ou ao restante da América Latina. Temer e os demais presidentes apenas procuraram explicar ao dirigente norte-americano por que ainda não haviam recorrido às armas.
Temer conta o episódio sem demonstrar qualquer constrangimento político. Para o ex-presidente, era natural que os Estados Unidos decidissem se os países latino-americanos deveriam atacar a Venezuela.
Essa submissão marcou os governos que chegaram ao poder após a ofensiva golpista iniciada na década passada em Honduras, com o golpe contra Manuel Zelaya. Temer, Macri, Santos e Varela representavam governos encarregados de aplicar os interesses norte-americanos em seus países e de cercar a Venezuela.
Da cobrança à invasão
A cobrança feita por Trump em 2017 tornou-se uma política militar aberta. Em 3 de janeiro de 2026, já durante seu segundo mandato, o presidente norte-americano anunciou a captura e a deposição de Nicolás Maduro.
A operação consumou aquilo que Trump discutia com Temer e os demais presidentes oito anos antes. A invasão da Venezuela não surgiu de uma decisão repentina. Era preparada desde o período em que o continente estava tomado por governos golpistas e direitistas subordinados aos Estados Unidos.
No discurso pronunciado durante o jantar, Trump afirmou que seu governo estava pronto para adotar “ações adicionais” contra a Venezuela. Na conversa reservada, disse que preferia inicialmente os meios diplomáticos.
A intervenção militar, porém, permanecia como uma alternativa aberta. As pressões diplomáticas, as sanções e o isolamento político serviam para preparar a agressão.
Os presidentes presentes disseram manter boas relações com o povo venezuelano, ao mesmo tempo que atacavam o governo de Maduro. Também lembraram a Trump que haviam suspendido a Venezuela do Mercosul.
Temer e seus aliados ajudaram, assim, a organizar o cerco contra o país. Em lugar de defender a soberania de uma nação latino-americana, participaram dos preparativos políticos para uma operação dos Estados Unidos.
A confissão de Temer
Ao apresentar o episódio como uma simples anedota diplomática, Temer fez uma confissão política. O ex-presidente revelou que o governo brasileiro discutia com Trump os meios de atacar militarmente a Venezuela.
A entrevista confirma o caráter do golpe de 2016. Temer foi colocado no Palácio do Planalto para entregar o patrimônio nacional, retirar direitos dos trabalhadores e alinhar integralmente o Brasil à política externa dos Estados Unidos.
Seu governo não apenas apoiava as sanções e as manobras diplomáticas contra a Venezuela. Também participava de reuniões nas quais o presidente norte-americano cobrava diretamente uma invasão.
Temer não representava o Brasil diante dos Estados Unidos. Representava os Estados Unidos dentro do Brasil. Era um fantoche do imperialismo instalado no Palácio do Planalto pelo golpe de 2016.




