Um dia depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar a abertura de um novo inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a imprensa burguesa publicou uma enxurrada de reportagens sobre a investigação que envolve o senador Jaques Wagner (PT-BA) e dirigentes do Banco Master.
A sequência dificilmente pode ser considerada casual. Em plena reta final das convenções partidárias, dois dos ataques mais graves contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram colocados simultaneamente no centro do noticiário: um contra seu filho e outro contra um de seus aliados políticos mais antigos.
As decisões partiram do mesmo ministro, André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, e atenderam a pedidos da Polícia Federal. Na quinta-feira (30), Mendonça autorizou a abertura de um inquérito separado para investigar Lulinha. Na mesma noite, retirou o sigilo de documentos da Operação Compliance Zero relacionados a Wagner.
Na manhã de sexta-feira (31), Estadão, Folha de S.Paulo e O Globo publicaram uma série de matérias sobre presentes, viagens, telefonemas, imóveis e reuniões envolvendo o senador. Uma coluna do Estadão classificou os casos de Lulinha e Wagner como “trunfos” de Flávio Bolsonaro que “assombram Lula”. O Globo, por sua vez, publicou uma análise intitulada “O risco que Lula corre na eleição”.
Ainda mais reveladoras foram as manchetes das versões impressas desses três jornalões da burguesia brasileira: todos estamparam a notícia sobre Lulinha – e exatamente com o mesmo título: “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”. Nem uma única palavra, vírgula ou letra de diferença! É um verdadeiro cartel golpista!
O sentido da operação está colocado às claras: depois de meses de campanha judicial e propagandística contra Flávio Bolsonaro, o aparelho de Estado começa a aumentar a pressão sobre Lula.
Novo inquérito contra Lulinha
O novo procedimento pretende investigar se o filho do presidente utilizou seus contatos no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde para favorecer empresários interessados na comercialização de medicamentos à base de cannabis.
A suspeita envolve a empresária Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado “Careca do INSS”. Empresas ligadas a Antunes pagaram R$1,5 milhão à consultoria de Roberta. Em uma mensagem encontrada pela PF, o lobista também mencionou uma transferência de R$300 mil destinada ao “filho do rapaz”.
Até agora, não foi demonstrado publicamente que a expressão se referia a Lulinha. Roberta afirmou em depoimento que recebeu o dinheiro por serviços relacionados ao mercado de cannabis medicinal e negou ter repassado qualquer valor ao filho do presidente.
Segundo ela, Lulinha não trabalhou nos projetos e não recebeu pagamentos. A empresária declarou ainda que apresentou o filho de Lula a Antunes antes de vir a público o esquema de descontos fraudulentos do INSS.
Lulinha reconheceu que viajou a Portugal em novembro de 2024 com passagens e hospedagem pagas pelo lobista. De acordo com sua defesa, a viagem tinha como objetivo conhecer um possível empreendimento de cannabis medicinal na região de Aveiro. Uma sociedade chegou a ser discutida, mas não teria avançado.
Em fevereiro, Mendonça já havia autorizado a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha. A defesa sustenta que o material obtido não revelou pagamentos ilícitos.
Como a investigação não encontrou ligação direta entre o filho do presidente e as fraudes contra aposentados, a PF pediu a abertura de outro inquérito. O advogado de Lulinha classificou a medida como uma possível “pesca probatória”. A defesa de Roberta afirmou que a multiplicação dos procedimentos se parece com uma investigação em “melhor de três”.
Em vez de encerrar uma apuração que não encontrou o vínculo originalmente procurado, abre-se outra investigação, com nova acusação e novo campo de busca. Tudo isso a pouco mais de dois meses da eleição.
Wagner no centro do noticiário
Horas depois da divulgação do caso de Lulinha, a imprensa passou a explorar os documentos relacionados a Jaques Wagner.
A Polícia Federal afirma ter identificado 74 ligações entre o senador e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. As chamadas ocorreram entre novembro de 2023 e maio de 2025 e somaram cerca de cinco horas e meia.
Os investigadores destacaram que os dois utilizavam frequentemente chamadas de voz pelo WhatsApp, em vez de mensagens escritas. A partir desse dado, sugeriram que a escolha poderia ter como objetivo evitar registros de assuntos sensíveis.
Os documentos também mencionam uma lista de “lembranças de fim de ano” preparada por uma secretária de Augusto Lima. Nela aparecem os nomes de Wagner, Rui Costa, Jerônimo Rodrigues, Antonio Rueda, Bruno Reis e ACM Neto. Os presentes sugeridos eram garrafas de vinho avaliadas entre R$2,5 mil e R$5,3 mil.
Fotografias encontradas no celular do empresário mostram garrafas embaladas com cartões destinados a Wagner e a outras pessoas. A PF afirma que os presentes podem representar vantagens concedidas em razão da função pública, embora não tenha apontado qualquer decisão política tomada em troca dos vinhos.
A investigação também menciona ao menos quatro viagens de Wagner em aeronaves pertencentes a Augusto Lima ou operadas por pilotos ligados ao empresário e ao Banco Master.
Em uma delas, o senador e sua mulher, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça, teriam viajado para a chamada Ilha da Paixão, no litoral da Bahia. Depois do encontro, Maria de Fátima agradeceu ao empresário e escreveu que estaria “firme sempre” no que ele quisesse.
O relatório policial reconhece que não foi possível relacionar a frase a nenhuma medida política ou financeira determinada. Mesmo assim, a mensagem foi reproduzida em destaque nas reportagens de todos os jornais da burguesia, de Norte a Sul do País.
Outro ponto da investigação envolve a negociação de um apartamento de aproximadamente R$2,5 milhões em Salvador. A PF suspeita que Eduardo Sodré Martins, enteado de Wagner e secretário do Meio Ambiente da Bahia, tenha cobrado Augusto Lima para pagar boletos relacionados ao imóvel.
Há ainda mensagens sobre uma possível reunião entre o banqueiro e Jorge Messias, advogado-geral da União, no gabinete de Wagner no Senado.
Em um áudio, o senador afirmou que o gabinete seria o lugar “mais protegido e discreto para todo mundo”. Wagner também disse que poderia acompanhar o empresário na entrada do prédio para que ele não precisasse passar pela identificação.
Messias negou ter participado da reunião. Wagner afirma que não atuou em favor do Banco Master e que provará sua inocência.
As relações entre o senador e os dirigentes do banco devem ser esclarecidas. Isso não explica, porém, por que todas essas informações foram retiradas do sigilo e entregues ao noticiário justamente no dia seguinte à abertura do inquérito contra Lulinha.
Polícia monitorou celular de Wagner
André Mendonça também autorizou a quebra do sigilo telefônico e o acompanhamento dos deslocamentos do celular de Wagner.
A medida foi tomada porque o ministro e a PF suspeitaram que uma operação policial poderia ter vazado. Segundo a decisão, uma vigilância presencial poderia chamar a atenção do senador e permitir a troca de aparelhos, a destruição de provas ou a combinação de versões.
A suspeita de vazamento serviu, portanto, para que a polícia monitorasse a movimentação do telefone de um senador e então líder do governo Lula no Congresso.
Wagner foi alvo de busca e apreensão em 18 de junho, durante a nona fase da Operação Compliance Zero. Um dia depois, tentou vender um terreno avaliado em R$15 milhões na região metropolitana de Salvador, mas a operação foi impedida por uma ordem de bloqueio de bens.
O senador declarou nesta sexta-feira que está tranquilo e que demonstrará sua inocência. Lembrou ainda que foi alvo de outra investigação em 2018, também durante uma campanha eleitoral, e que o caso acabou arquivado sem denúncia.
O cerco muda de direção
Durante semanas, a esquerda apoiou as medidas judiciais e policiais contra Flávio Bolsonaro. Cada inquérito, representação eleitoral ou restrição contra o candidato do PL foi apresentado como um cerco da sacrossanta “democracia” contra o “fascismo”.
Agora, a mesma “democracia” é utilizada contra… os seus fiéis.
O PT ajudou a legitimar a atuação do STF, da Polícia Federal e do Tribunal Superior Eleitoral contra Flávio. Com isso, fortaleceu os instrumentos que podem ser usados para interferir na campanha presidencial e manter sob ameaça qualquer candidato eleito.
O objetivo da burguesia não é simplesmente combater o bolsonarismo. Caso fosse, não haveria uma campanha simultânea contra o filho de Lula e contra um dos principais dirigentes do PT.
A ofensiva procura impedir que a eleição seja decidida entre os dois candidatos com maior apoio popular.
Segundo o Datafolha divulgado em 24 de julho, Lula aparece com 40% das intenções de voto, contra 32% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o presidente tem 48% e o candidato do PL, 43%.
Apesar de meses de pressão, Flávio não desistiu. Sua candidatura foi confirmada pelo PL, enquanto Ronaldo Caiado, Romeu Zema e os demais nomes promovidos pela imprensa e pelos banqueiros continuam sem apoio suficiente para ameaçar os dois primeiros colocados.
A tentativa de retirar Flávio da disputa não produziu o resultado esperado. Agora, Lula passa a ser colocado na defensiva por meio de investigações contra seu filho e seus aliados.
Há duas possibilidades, que não se excluem. A primeira é desgastar o presidente o suficiente para abrir espaço a um candidato da terceira via. A segunda é manter Lula e Flávio sob ameaça, com inquéritos e processos que possam ser utilizados para chantagear o vencedor depois da eleição, a fim de que aplique rigorosamente a política que o imperialismo pretende aplicar no Brasil.
A ofensiva contra Flávio Bolsonaro preparou o terreno para o ataque a Lula. Ao apoiar o cerco contra o candidato do PL, a esquerda ajudou a entregar ao Judiciário, à polícia e à imprensa os meios para controlar a eleição.
Nessa sexta-feira, Wagner declarou que comparecerá ao lado de Lula à convenção do PT da Bahia, marcada para hoje (1º). O encontro ocorrerá sob o impacto de dois inquéritos que, em menos de 24 horas, colocaram o filho do presidente e um de seus principais aliados no centro da campanha eleitoral.




