O velho Leonel Brizola costumava dizer que, se a Rede Globo fosse a favor de alguma coisa, ele seria contra. A esquerda evitaria cair em várias ratoeiras se usasse essa baliza. Sem grande esforço, bastaria ver, de vez em quando, alguns capítulos das novelas – com olho crítico, naturalmente.
A última novela das nove, além de ter sido uma escancarada ode ao identitarismo LGBT, fez a defesa da “lei e da ordem” e acenou aos evangélicos. Belas mocinhas aos beijos no horário nobre talvez, em outros tempos, causassem alguma celeuma – hoje, graças à adesão obrigatória à agenda de “gênero”, só provocaram tédio em sua felicidade homoafetiva envolta nos discursos de defesa da pauta. Não poderia faltar, é claro, a “mulher trans” – no caso, disputada aos tapas por homens hétero, que a reconhecem como mulher especial, espetacular, a melhor que já conheceram na vida (negra, de caráter irrepreensível, séria, magra, moradora da favela, universitária).
Os personagens LGBT e negros integraram o time dos mocinhos, e os brancos “heteronormativos”, protagonizados por um casal, encarnaram os vilões, sempre preconceituosos contra os LGBT e capazes de grandes perversidades, beirando a comicidade – daí terem sido o que segurou a trama no ar por vários meses. O homem, preso no final da novela, de tão maligno, é comparado a Hitler pelos demais presidiários. A mulher, talvez por ser mulher, foi poupada do presídio e condenada pelo roteirista ao ensimesmamento da loucura.
De resto, vários personagens, tanto da favela como da ala rica da novela, passaram pelo xilindró, reconhecido por todos, sem exceção, como uma experiência merecida, que lhes pôs de volta no rumo certo. O chefe do tráfico se converte a uma denominação evangélica, exatamente como seu pai de criação fizera antes na cadeia, e se torna um artista plástico – não sem antes passar uma boa temporada preso para pagar pelos erros. Chega ao fim da novela fazendo discurso na favela sobre o poder da arte, diante de uma parede pintada com cores fortes e pichada com frases educativas do tipo “A arte cura” ou coisas do gênero.
O protagonismo da trama foi dado a uma mulher, que, embora branca, era pobre e moradora da favela. Para comprar remédios para o pessoal da vizinhança, ela furta ao vilão um bem valioso (a escultura Três Graças, que dá nome ao folhetim) – ele, por sua vez, distribuía medicamentos falsos por meio de uma instituição de caridade de fachada. Mesmo sendo uma espécie de Robin Hood, ela é presa pelo próprio namorado, o “policial honesto”, com quem se casa ao final.
Como não poderia deixar de ser, várias mulheres, inclusive a trans, chegam ao fim da trama grávidas. A mulher do policial, aparentemente, engravida pelo método tradicional de transar com o namorado. As duas lésbicas, uma das quais é policial, e a trans fazem um arranjo: uma delas é a “barriga solidária” da trans, enquanto a sua “esposa” gesta o filho das duas. O pai da policial é o “desembargador honesto”, que apoia com veemência a orientação sexual e a escolha profissional da filha. Enquanto isso, casais hétero – que, em outros tempos, se uniriam ao final da trama – permaneceram separados, com direito a discursos “feministas” de mulheres que preferem viver sem homens a perdoar suas falhas passadas, ainda que eles queiram redimir-se e implorem por seu perdão. Os vestidos de noiva foram, portanto, destinados às lésbicas e à trans, devidamente abençoadas pela Rede Globo.
Vale notar que os moradores da favela, tanto os traficantes como os frequentadores dos cultos evangélicos, não têm preconceito contra a mulher trans, que é tão mulher como qualquer outra e muito bem-vista por suas inegáveis qualidades de caráter. Não existe tensão nem estranhamento. Os preconceituosos são apenas os perversos, o “Hitler” etc.
A defesa da agenda identitária aparece, portanto, em consonância com a defesa da ordem e de seus métodos. A polícia age corretamente, embora tenha uma ou outra fruta podre em seu conjunto; os ricos são, em sua maioria, gente de boa índole, sendo a perversidade e o preconceito falhas de caráter, portanto individuais. Pobres bons são aqueles tementes a Deus, à Polícia e à Justiça.
Ao embrulhar identitarismo, culto evangélico e defesa da ordem no mesmo pacote, a novela expressa claramente a ideologia da Rede Globo – e não deixa dúvida de que a política identitária nada tem que ver com a esquerda. As personagens populares da novela se revoltam contra indivíduos maus, nunca contra o sistema, que é a verdadeira encarnação do mal.
O identitarismo captura uma pauta da esquerda – a defesa de grupos minoritários – transformando-a em questão policial. Essa é a política da direita, que resolve todos os problemas com o encarceramento de quem se desvia da ordem, como se os que estão do lado de fora dos presídios fossem, de fato, honestos. A esquerda se deixou seduzir pelas migalhas oferecidas pela direita – como a “visibilidade” nas novelas da Globo e a possibilidade de ver gente de classe média na cadeia, como se isso apaziguasse o fato de os presídios sempre terem sido depósitos de pretos, pobres e prostitutas, o “PPP”.
Com a criminalização por “crimes de opinião”, mascarados pela retórica identitário-judiciária como homofobia, antissemitismo, injúria racial, transfobia, misoginia etc., a classe média passa a ombrear com os pobres no quesito desvio da ordem. A diferença é que suas penas de prisão se convertem em serviços comunitários ou, se tiverem dinheiro, em multas.
Por trás da criminalização da sociedade está, certamente, o controle, cada vez mais autoritário, exercido pela burguesia – patrocinadora inconteste do identitarismo e das novelas da Globo. Com a democratização da comunicação, que adveio da internet e das redes sociais, dando a cada indivíduo a possibilidade de dizer o que quiser, bem como de fotografar e filmar o que quiser e publicar imediatamente – sem filtros –, a burguesia teme por seu status quo. E se o povo se revoltar? É preciso reprimir antes que seja tarde.
O identitarismo, apresentado como posição moral superior e visão vanguardista do mundo, busca atrair os jovens, a camada naturalmente mais questionadora da sociedade, em substituição ao questionamento do sistema de exclusão capitalista. Hoje, a Justiça usa, sem cerimônia alguma, a expressão “limites da liberdade de expressão” – em geral para condenar quem os tenha ultrapassado – sob o beneplácito da esquerda.
A esquerda deveria deixar de contribuir para os interesses da burguesia. Prender gente nunca foi agenda da esquerda. Breno Altman, dia destes, teve a suprema coragem de dizer, no Brasil 247, que os “bagrinhos do 8 de janeiro” deveriam ser todos soltos. Mesmo sendo tão sensato, não conquistou adesão entre o público, entretido no flá-flu da política. Em algum momento, a esquerda terá de abandonar a agenda da Rede Globo. Tomara que não demore ou será tarde demais.





