O artigo A soberania nacional se decide na Amazônia, de Maria Hermínia Tavares, publicado na Folha de S. Paulo nesta quarta-feira (1°), é o retrato de uma esquerda completamente adaptada à política do imperialismo.
Diz o primeiro parágrafo que “O presidente Lula prometeu incluir a questão da defesa nacional em seu programa de governo. O compromisso público ocorreu na sexta-feira (26), no batismo de uma fragata que faz parte do principal projeto de renovação do poder naval brasileiro. Segundo Lula, a nova embarcação, mais do que um navio, exprime ‘um país que vai assumir, de fato e de direito, o direito de ser soberano’.”
A defesa nacional, além do flagrante apelo de campanha eleitoral, responde a uma política de rearmamento que vem sendo operada principalmente na Europa. O Brasil, que já possuiu uma indústria bélica promissora, abandonou completamente esse setor e o deveria retomar, claro. Mas não como uma resposta a pressões externas.
Assim como fizeram Irã, China e Rússia, o Brasil deveria investir em voltar a desenvolver a própria tecnologia em vez de ser um mero mercado consumidor.
Segundo a autora, “se [Lula] se reeleger e se a defesa da soberania nacional for mais do que uma oportuna proposta de campanha para enfrentar o bolsonarismo, a centro-esquerda terá um encontro marcado com a Amazônia.” A questão é que a “centro-esquerda” inexiste no País. Mesmo no mundo, e mostraram as eleições no Peru e na Colômbia, os partidos considerados de centro apoiaram a extrema direita.
Na Amazônia, para Hermínia Tavares, “reside o principal desafio à capacidade do Estado de se afirmar senhor do território que suas fronteiras delimitam. É ali que nossa soberania vem sendo posta à prova — não por uma potência estrangeira ou algum vizinho belicoso, mas pela entramada rede de agentes sem rosto que se convencionou chamar de crime organizado transnacional.” O que vai ao encontro da política trumpista de combate ao crime organizado, o espantalho do momento.
O crime “organizado”
Para sustentar sua opinião, a articulista diz que “dois estudos permitem uma visão realista do problema: ‘Amazon Underworld: criminal economies in the world largest rainforest’ (Submundo amazônico: economias criminosas na maior floresta tropical do mundo) — produzido pelas ONGs Amazon Watch, Infoamazonia e Global Initiative Against Transnational Organized Crime — e ‘O cenário do crime organizado e dos mercados ilícitos no bioma amazônico’, de Leandro Piquet Carneiro e Adriano Bastos Rosas, publicado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso.”
Dada a quantidade de interesses que rondam a Amazônia, ninguém pode duvidar que esses “estudos” respondam a determinados anseios, principalmente de seus financiadores. Na região existem milhares de ONGs que, em determinadas situações, servem como obstáculo para que a própria União atue ali.
Para o IBGE, existem algo em torno de 16 mil ONGs na Amazônia. Para o IPEA, existem mais de 100 mil. Se o governo quer mesmo falar em soberania, a primeira coisa a fazer é expulsar essa gente da região. O simples desejo do governo de prospectar petróleo na Margem Equatorial enfrenta uma enorme resistência dessas entidades, a maioria estrangeira, ou financiadas pelo imperialismo.
“Segundo os autores, a amazônia há muito deixou de ser somente um grande problema ambiental; transformou-se em crise de segurança e governança que ultrapassa as fronteiras nacionais.”, o mesmo que dizia Joe ‘Genocida’ Biden.
O texto segue dizendo que “Ali ocorre o que os especialistas chamam de ‘convergência criminal’, ou seja, a articulação de diferentes atividades ilícitas possibilitada por redes de cooperação entre organizações criminosas. Mineração ilegal de ouro; tráfico de cocaína, animais silvestres e pessoas; extração ilegal de madeira e grilagem de terras compartilham infraestruturas e rotas de trânsito; ganham potência graças à colaboração da bandidagem.”
Apenas não diz o texto, nem os “especialistas”, é que a Amazônia ficar inacessível possibilita que se pratique ali todo tipo de irregularidades. É preciso desenvolver a região, e isso as ONGs tentam impedir a todo custo.
A política do medo
Informa o texto que “facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, agem em conjunto com grupos armados locais nos países vizinhos e em território nacional. As zonas de tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru servem de rota de fuga e centro de operações do crime organizado.”
Existem, no entanto, bandidos muito mais perigosos, que querem roubar do Brasil seus minerais, seu petróleo, uma soma que nenhum PCC ou Comando Vermelho jamais será capaz de roubar.
Ainda na linha do medo, a autora escreve que “calcula-se que tais organizações operem em quase 70% dos municípios amazônicos, espalhando o terror — algumas cidades da região estão entre as mais violentas do país —; agravando o desmatamento e o desrespeito aos direitos dos indígenas e da população pobre.”
Equiparar o crime ao terror é tudo o que o imperialismo quer para interferir diretamente no Brasil, e adeus soberania.
Quem é realmente de esquerda sabe que não se combate o crime com polícia, mas com políticas sociais. Enquanto o País mantiver esses enormes abismos sociais, o crime continuará a crescer. Apenas os setores médios da sociedade têm fé de que existe um efetivo combate ao crime por meio da repressão e recrudescimento da justiça.
Não se pode falar em soberania quando se adere integralmente a uma política externa cujo objetivo é roubar as riquezas brasileiras usando o crime como álibi.




