Há setores na esquerda brasileira que nem mesmo sabem se posicionar a importância da luta da classe trabalhadora, como mostra o artigo Unidade de classe contra a LGBTfobia!, assinado por Lucas Silva e publicado no sítio do PCB (pcb.org.br), neste sábado (25).
O texto inicia dizendo que “nos últimos dias, tem se feito um debate na internet relativo ao movimento LGBTI+ e à luta revolucionária da classe trabalhadora. Na figura de influenciadores de esquerda na internet, tem se discutido se a classe trabalhadora em si defende ou não a luta da população LGBTI+ e se todo trabalhador de esquerda, alinhado com os ideais revolucionários, “precisa ou não defender o movimento LGBTI+”. O que se vê nesse debate são aspectos e características estruturais que vêm de uma cultura de LGBTfobia, machismo e misoginia enraizados em grande parte da população brasileira”.
Antes de mais nada, é preciso rechaçar essa categoria chamada “LGBTfobia”, isso é uma invenção da identitarismo, reacionário por natureza, que quer com isso criar novos crimes para, a partir da coerção, impor sua ideologia.
Se olharmos a classe trabalhadora com um todo, é muito provável que a maioria seja conservadora. No entanto, de modo geral, a rejeição tem sido maior no que diz respeito ao uso de banheiros femininos por pessoas trans, ou que se identificam como mulheres. Essa objeção, aliás, tem sido respaldada por setores inteiros do movimento feminino, que acreditam, corretamente, que as reivindicações das minorias trans devem atuar paralelamente, e não dentro do movimento das mulheres.
A esquerda, claro, tem que defender as liberdades democráticas de todos os setores oprimidos da sociedade, mas não deve ceder à pressão do identitarismo no que diz respeito àquilo que é privativo das mulheres.
É falsa a ideia de que a “misoginia” esteja enraizada na população brasileira. O que existe é uma campanha, capitaneada pelo identitarismo, para tornar a “misoginia”, um conceito vago, abstrato, em mais um crime e mais um instrumento de opressão para a Justiça burguesa esmagar a classe trabalhadora, que é quem sempre sente o peso das leis.
O principal é a classe trabalhadora
Segundo o autor do texto, “esse debate parte de uma falsa separação entre a população LGBTI+ e a classe trabalhadora. A ideia de que as pautas da população LGBTI+ seriam externas ou secundárias, quando comparadas à luta da classe trabalhadora, é tão antiga quanto atrasada e equivocada. Essa divisão artificial ignora que as opressões não são secundárias, mas estruturais na forma como a exploração se organiza e se reproduz. Separar a luta revolucionária do combate à LGBTfobia não é apenas um erro teórico, mas uma posição que, na prática, reproduz as mesmas estruturas que se pretende destruir”.
O equívoco é acreditar que a luta da classe trabalhadora não seja a principal e, quanto a isso, não pode haver centrismo ou tergiversações. Não se trata de um problema moral, mas as lutas das minorias são secundárias porque sem a emancipação da classe trabalhadora aquelas não serão emancipadas.
Apenas a classe trabalhadora pode derrotar a burguesia, que oprime o conjunto da população.
Se, como sustenta o PCB, “a população LGBTI+ não está fora da classe trabalhadora, ela é parte constitutiva dela. Pessoas LGBTI+ trabalham, produzem riqueza e estão inseridas nas mesmas relações de exploração que qualquer outro trabalhador, muitas vezes em condições ainda mais precarizadas”, é preciso atuar no movimento operário, e que tragam suas demandas, suas reivindicações específicas.
No texto também se lê que “A LGBTfobia atua como um mecanismo que empurra esses sujeitos para o subemprego, para a informalidade e para a exclusão de direitos básicos, intensificando sua exploração”. Porém, é não necessária nenhuma fobia, qualquer setor oprimido da sociedade vai ser empurrado para posições subalternas, isso acontece com indígenas, negros, mulheres. Quanto mais se é oprimido, menos se ganha. A exploração é a mesma, apenas que aumenta a intensidade.
A conclusão à qual o artigo chega nesse parágrafo tem um problema, diz que “não se trata de duas lutas separadas, mas de uma mesma realidade vivida por uma classe diversa, na qual a opressão de gênero e sexualidade se soma à exploração de classe, reforçando que sem a luta contra a opressão sofrida pela população LGBTI+ nunca haverá de fato uma quebra da estrutura patriarcal, LGBTfóbica e cisheteronormativa”. As minorias sexuais não são classes diversas, há pessoas nessa condição que pertencem há diversas classes. É falsa a ideia de que “sem a luta contra a opressão sofrida pela população LGBTI+ nunca haverá de fato uma quebra da estrutura patriarcal”. A “estrutura patriarcal” só existe porque a sociedade está dividida em classes e a burguesia, por meio de sua dominação, mantém as estruturas que permitem a exploração da força de trabalho da classe trabalhadora.
As minorias não têm condições de enfrentar e derrotar a burguesia, isso é trabalho da classe trabalhadora, que é quem vai colocar abaixo as velhas estruturas.
A família
Lemos no texto que “para além de mecanismo de opressão, a LGBTfobia também atua como mecanismo de manutenção da estrutura familiar capitalista, uma estrutura misógina e opressiva que visa à produção de mais-valia e à manipulação sociocultural de como se dão as estruturas familiares tratadas como corretas e ‘normais’”, mas isso não tem o menor embasamento histórico. A família patriarcal é muito anterior ao capitalismo.
A estrutura familiar não precisa lançar mão de nenhuma fobia para se manter. Ela é fruto de relações de produção que se estabeleceram há milênios. Para se aprofundar no tema, recomenda-se o livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels.
É verdade que as pessoas LGBTI+ “são submetidos a agressões, a expulsões prematuras das casas, a subempregos, à marginalidade e à morte prematura.” Mas não é verdade que “o Brasil já lidera o ranking dos países que mais matam pessoas LGBTI+”, pois muitos países nem mesmo fazem a contagem. Talvez, o Brasil seja o país que mais informa esse tipo de crime, daí a falsa sensação de ter a maior incidência.
A insistência identitária em criminalizar “fobias” só tem aumentado a rejeição da classe trabalhadora às causas das minorias. Até mulheres, historicamente oprimidas, estão sendo processadas e ameaçadas de prisão por supostamente serem “fóbicas”. Uma esquerda para merecer esse nome, jamais poderia recorrer à prisão como remédio para problemas sociais. Fazendo isso, se iguala à direita mais reacionária, que para tudo pede cadeia e aumento de penas.





