O portal judaico Voz dos Rabinos (Voice of Rabbis) iniciou uma série de artigos para tratar da relação entre o judaísmo e o chamado sionismo religioso. O ponto de partida da publicação é que o sionismo não nasceu da religião judaica, mas como um movimento nacionalista surgido na Europa no século XIX.
Se bem que o sionismo foi uma deturpação do nacionalismo judaico, pois desde o primeiro Congresso Sionista Mundial o sionismo passou a ser organizado como um emprendimento capitalista dos grandes banqueiros e da grande burguesia europeia para colonizar a Palestina a fim de explorá-la economicamente e garantir o controle sobre os recursos naturais e vias comerciais do Oriente Médio. Não tinha nada a ver com as aspirações dos judeus europeus pela sua autodeterminação e direitos democráticos diante da opressão a qual eram submetidos pela reação europeia.
De qualquer forma, a distinção é importante diante da propaganda realizada há décadas pelo Estado de “Israel” e pelas organizações sionistas. Ao se apresentarem como representantes dos judeus e do judaísmo, essas organizações procuram fazer com que as ações do Estado israelense sejam tomadas como ações dos próprios judeus.
Essa falsificação pode ter consequências graves. Ao associar toda a população judaica à política de “Israel”, o sionismo contribui para que a revolta provocada pelos crimes do Estado israelense seja dirigida não apenas contra seus responsáveis, mas contra os judeus em geral. Em outras palavras, a propaganda que afirma defender os judeus pode acabar alimentando um novo antissemitismo.
De onde veio o sionismo religioso
O primeiro artigo da série, chamada The Kippah and the Flag (“O quipá e a bandeira”), procura responder a uma questão que costuma ser apresentada pelos defensores de “Israel”: se o sionismo não é parte do judaísmo, por que tantos religiosos judeus apoiam o Estado israelense?
A publicação lembra que há colonos (ladrões de terras palestinas) religiosos na Cisjordânia, soldados israelenses que rezam uniformizados e sinagogas, especialmente nos Estados Unidos, onde a bandeira de “Israel” aparece ao lado de símbolos religiosos.
Para o portal, a existência desses grupos não transforma o sionismo em doutrina judaica.
O chamado sionismo religioso surgiu quando uma corrente do judaísmo ortodoxo passou a aceitar, no início do século XX, uma das principais teses do movimento sionista: a necessidade de organizar os judeus em torno de um Estado nacional.
Esses religiosos continuaram a observar os mandamentos e costumes judaicos, mas passaram também a defender uma doutrina política que havia surgido pouco antes, na esteira do movimento nacionalista europeu.
O Voz dos Rabinos ressalta que não está colocando em dúvida a fé dos religiosos sionistas. A questão é outra: uma pessoa pode ser sinceramente religiosa e, ao mesmo tempo, aderir a uma posição política que não nasceu de sua religião.
Décadas de propaganda
O artigo destaca ainda que nem todo judeu religioso favorável a “Israel” aderiu conscientemente a uma doutrina elaborada do sionismo religioso.
Para a publicação, grande parte dessa identificação foi construída pelo ambiente político e social. Durante décadas, instituições sionistas trabalharam para apresentar “Israel” como expressão de todos os judeus, inclusive entre as próprias comunidades judaicas.
A propaganda produziu uma associação tão forte que hoje é comum tratar como equivalentes coisas muito diferentes: ser judeu, praticar o judaísmo, apoiar o sionismo e defender o Estado de “Israel”.
É justamente essa identificação que interessa ao Estado sionista. Se “Israel” é apresentado como representante de todos os judeus, uma crítica ao Estado artificialmente fabricado pelo imperialismo pode ser denunciada como uma agressão aos judeus. Da mesma forma, a oposição ao sionismo passa a ser apresentada como antissemitismo.
A confusão serve, portanto, como instrumento político para proteger “Israel” de seus críticos.
Judeus religiosos também rejeitam “Israel”
O artigo mostra, porém, que uma parcela dos judeus mais rigorosos na observância religiosa rejeita o sionismo ou procura se manter afastada dele.
Há comunidades desse tipo em Jerusalém, Brooklyn, Londres e Antuérpia. Sua existência contradiz diretamente a tese de que apoiar “Israel” seria consequência natural da religião judaica.
Esses grupos recebem pouca atenção da imprensa. O colono religioso envolvido em uma ação política na Cisjordânia, terra roubada dos palestinos, aparece nas fotografias e reportagens. Milhares de judeus que seguem sua religião e não participam do movimento sionista dificilmente se tornam notícia.
Com isso, cria-se para o público uma imagem deformada da relação entre judaísmo e sionismo.
Rabinos combateram o sionismo
O Voz dos Rabinos também recupera a posição adotada por importantes autoridades religiosas judaicas quando o sionismo começou a ganhar influência.
Segundo a publicação, destacados rabinos europeus da época rejeitaram por escrito o novo movimento. O portal cita, entre outros episódios, o caso de uma importante autoridade religiosa que arrancou de uma parede, diante de seus alunos, um anúncio de uma escola ligada aos primeiros sionistas religiosos em Vilna, na Lituânia.
O artigo afirma ainda que, anos depois, uma das principais autoridades do próprio sionismo religioso nos Estados Unidos manifestou preocupação com a possibilidade de que aquela empreitada imperialista estivesse ocupando, entre seus seguidores, um espaço que deveria pertencer à Torá.
A série pretende publicar nas próximas edições documentos e declarações dessas autoridades para mostrar como o sionismo religioso foi recebido no momento de seu aparecimento.
Uma falsificação perigosa para os próprios judeus
Apresentar “Israel” como sinônimo dos judeus não protege a população judaica. Faz exatamente o contrário.
Os crimes cometidos por um Estado têm responsáveis políticos, militares e institucionais determinados. Quando o próprio Estado israelense insiste que age em nome dos judeus, procura transferir essa responsabilidade a milhões de pessoas que nada têm a ver com suas decisões.
A mesma operação é usada para censurar os adversários do sionismo. Criticar “Israel” ou denunciar o caráter político do movimento sionista passa a ser apresentado como uma manifestação de ódio religioso.
Ao separar claramente judaísmo e sionismo, o artigo do Voz dos Rabinos desmonta essa fraude. O sionismo é um movimento político moderno, produto de banqueiros e grandes capitalistas europeus. O judaísmo é uma religião muito anterior a ele. Misturar deliberadamente os dois não combate o antissemitismo. Nem é a intenção dos sionistas, mas sim obter uma desculpa para censurar pessoas mundo afora a fim de garantir o extermínio de palestinos e a dominação imperialista no Oriente Próximo.




