O artigo 2, 5 ou 27 sexos?, publicado no sítio Esquerda Online nesta quarta-feira (3), é um desfile de argumentos tortos, típicos do mundo pequeno-burguês, que tentam moldar a realidade a partir de um encadeamento de palavras.
A realidade, no entanto, não se altera, uma ave continuará sendo uma ave, mesmo que a chamemos de balde, frigideira… não importa, e isso serve para o sexo. Um homem não mudará de sexo se passarmos a chamá-lo de mulher e vice-versa.
O primeiro parágrafo do texto diz que “a ideia de que o sexo é uma realidade puramente natural, anterior à sociedade e independente da história, ocupa lugar central no senso comum moderno. Masculino e feminino costumam ser apresentados como categorias biológicas evidentes, estáveis e universais. No entanto, autores como Thomas Laqueur e Anne Fausto-Sterling demonstram que a forma como interpretamos os corpos sexuados é historicamente construída e atravessada por relações sociais, políticas e culturais.” – grifos nossos.
Na natureza, quando os seres humanos querem se reproduzir, um indivíduo que produz gametas femininos cruza com outro que produz gametas masculinos. É assim que funciona.
O sexo é, portanto, uma categoria biológica evidente, e não apenas para os seres humanos. As aves, por exemplo, salvo raríssimas exceções, são gonocóricas, cada indivíduo pertence a um dos dois sexos reprodutivos.
Utilizar termos como “historicamente construída” e “atravessada por” não passa de um academicismo vazio. Uma tentativa de submeter a realidade ao discurso.
Segundo o texto, “a partir de Laqueur, Fausto-Sterling, Löwy e Moschkovich, argumenta-se que o sexo moderno não é apenas uma descrição objetiva da natureza, mas uma forma histórica de classificar corpos e organizar relações sociais. A intersexualidade, nesse sentido, revela de maneira particularmente evidente os limites do dimorfismo sexual rígido e expõe o caráter político da separação entre masculino e feminino.”
Existe uma confusão proposital aí: mistura-se a definição de sexo com os papéis sociais de homens e mulheres, que, naturalmente, se alteram.
As relações sociais foram erguidas sobre as diferenças sexuais. A submissão da mulher é resultado direto de sua condição material, física e objetiva, como está muito bem demonstrado no livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels.
Apesar da intersexualidade, que não constitui um terceiro sexo, os seres humanos continuam sendo uma espécie com dois sexos reprodutivos organizados em torno da produção de gametas grandes (óvulos) ou pequenos (espermatozoides), ainda que algumas pessoas apresentem variações cromossômicas, gonadais, hormonais ou anatômicas.
Os intersexos, utilizando uma definição restrita, que inclui condições em que há ambiguidade genital, discrepância significativa entre características sexuais (cromossomos, gônadas e genitália) ou diagnóstico clínico claro de uma variação do desenvolvimento sexual, as estimativas costumam colocá-los em torno de 0,02% a 0,1% da população.
Mesmo ampliando o espectro, utilizando as propostas da pesquisadora Anne Fausto-Sterling, chegou-se a cerca de 1,7% dos nascimentos – menos de 2%.
Há ainda uma questão a ser apontada: o trecho destacado começa dizendo que “a partir de Laqueur, Fausto-Sterling, Löwy e Moschkovich, argumenta-se que o sexo moderno…” Da maneira como se escreveu, o “a partir de” engana os leitores, induzindo-os a acreditar que, desde então, são aquelas as ideias válidas para se falar sobre sexo, o que está longe de ser verdade. – grifo nosso.
Informações vagas sobre a “historicidade do sexo”, onde afirmam que “em Inventando o sexo, Thomas Laqueur demonstra que a concepção contemporânea de dois sexos opostos e incomensuráveis não existiu da mesma forma em todos os períodos históricos”, não explicam que a tal concepção não altera a natureza objetiva dos sexos, ou o sexo terá que ser alterado toda vez que se alterarem as “concepções”, o que é absurdo.
Seguindo adiante, afirma-se que “segundo Laqueur, a consolidação do paradigma dos dois sexos ocorreu entre os séculos XVII e XVIII e se aprofundou junto às transformações que culminariam na modernidade capitalista e na Revolução Industrial”. Ocorre que, antes da Revolução Industrial, e também depois, os seres humanos se reproduzem a partir de dois sexos, com ou sem “paradigma”.
Tentam argumentar que, com as transformações econômicas, “tornou-se politicamente necessário fundamentar biologicamente a diferença entre homens e mulheres. A ciência moderna passou então a desempenhar papel central na naturalização dessas distinções. A diferença sexual deixou de ser concebida como continuidade hierárquica e passou a ser tratada como oposição absoluta entre dois sexos naturalmente distintos.”
Essa afirmação é completamente falsa, a diferença entre homens e mulheres é anterior às fundamentações biológicas. Os seres humanos, desde a pré-história, sabem distinguir machos e fêmeas, inclusive de outras espécies. A ciência biológica é um aprofundamento da observação da natureza.
Concluindo
A conclusão do artigo diz que “a análise do sexo como categoria social permite superar tanto o biologicismo quanto um construtivismo simplista. Não se trata de negar a natureza, mas de recusar a ideia de que a natureza se apresenta à sociedade de maneira imediata, neutra e autoevidente.” – grifo nosso.
O termo “biologicismo” subverte o significado de Biologia, que é uma ciência. O leitor é levado a crer que a Biologia leva as pessoas a terem uma visão estreita, e até preconceituosa, da realidade.
Embora as relações sociais humanas sejam complexas, no que diz respeito à reprodução, a natureza se apresenta, sim, de maneira imediata e autoevidente.
O que o identitarismo faz é jogar com as palavras para confundir o debate, e a partir desse jogo parecer racional, como demonstra o parágrafo que afirma que “o sexo é produzido na relação entre corpos, saberes científicos, instituições médicas, normas jurídicas e formas históricas de organização social. A diferença sexual moderna é, portanto, uma construção histórica que transforma determinados traços corporais em fundamentos de identidade, hierarquia e poder.”
Elencamos algumas características do texto que demonstram que o identitarismo, a despeito da linguagem que utiliza, não tem rigor científico, confunde termos para tentar, na verdade, justificar a ideologia de gênero. Uma visão direitista que tem servido para anular a existência das mulheres e, consequentemente, seus direitos.
Quando dizem que existem 2, 5 ou 27 sexos, que é uma afirmação falsa, as questões ligadas ao feminismo se diluem, o que serve apenas para dificultar a luta pela emancipação das mulheres.
É dever da esquerda desmascarar o identitarismo, que sob a proteção de um linguajar pretensamente científico, é mais uma arma da direita para enfraquecer o movimento dos trabalhadores e suas lutas.




