Editorial

Sem nenhum pudor

Ministro vem dando várias lições àqueles que criam que, no Brasil, era permitido criticar autoridades públicas

Ao mesmo tempo em que pediu a investigação de Romeu Zema no sinistro Inquérito das “Fake News” por causa de um vídeo satírico, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes veio a público para zombar do ex-governador de Minas Gerais, afirmando que ele fala “uma língua próxima do português”. O episódio expõe, mais uma vez, a postura cada vez mais arbitrária de um Judiciário que se considera no direito de atacar adversários políticos, mas reage com ameaça de repressão quando é alvo de crítica.

Segundo o próprio ministro, Zema teria tratado com desdém não apenas a honra e a imagem do STF, mas também sua “honra pessoal” em um vídeo que criticava uma decisão do ministro, tomada em 27 de fevereiro, que anulou uma deliberação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado. Isso teria sido suficiente para um juiz exigir a investigação de um desafeto político.

No entanto, dias depois, nesta quarta-feira (22), Gilmar Mendes fez duas declarações públicas em tom de deboche contra Zema. Em uma delas, disse que o ex-governador usava uma “linguagem muito pouco própria” e que falava “uma língua próxima do português, mas que é entendida como ofensiva”. Mais tarde, em entrevista à Record News, voltou à carga e declarou que Zema falava “um dialeto próximo do português”, acrescentando que imaginava se tratar de “uma língua lá do Timor-Leste, um tétum ou coisa assim”. Fica, então, a pergunta: por que Gilmar Mendes não precisa respeitar a tal da “honra pessoal” de Zema?

No dia seguinte, o ex-governador respondeu afirmando que o seu linguajar seria diferente do “português esnobe dos intocáveis de Brasília”. Também acusou Gilmar de recorrer ao autoritarismo para calar os críticos do comportamento dos ministros do Supremo e disse que os brasileiros não entendem os atos da Corte.

A crítica é correta. A própria ideia de um ministro exigir a abertura de inquérito por causa de um vídeo já é, em si, ridícula. Quando levado em conta que a medida tem caráter abertamente político, torna-se uma ideia verdadeiramente criminosa.

Não custa lembrar que o mesmo Gilmar Mendes protagonizou, há poucos meses, manobra para restringir qualquer forma de controle sobre os ministros do Supremo. Em decisão monocrática publicada em 3 de dezembro de 2025, ele determinou que apenas o procurador-geral da República poderia apresentar ao Senado denúncias por crime de responsabilidade contra ministros do STF. Na prática, suspendeu o trecho da Lei do Impeachment que garantia a todo cidadão” esse direito.

Na ocasião, Gilmar Mendes alegou que pedidos de impeachment poderiam ser usados como forma de intimidação contra o Judiciário. O resultado concreto, porém, foi o reforço da blindagem dos ministros da Corte contra qualquer responsabilização política. Agora, o mesmo magistrado que trabalhou para impedir que senadores e cidadãos tivessem instrumentos para reagir contra abusos do Supremo aciona o aparato judicial contra um adversário por causa de uma zombaria.

Os ministros do STF aparecem cada vez mais como donos de um poder sem controle, livres para intervir na vida política e blindados contra qualquer resposta. Trata-se de uma ditadura da toga cada vez mais escancarada.

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