Seis anos depois do massacre nos rios Abacaxis e Mari-Mari, no Amazonas, os principais acusados ainda não foram julgados. Quatro ações envolvendo homicídios e ocultação de cadáver permanecem no Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Entre os denunciados estão o ex-secretário de Segurança Pública do Amazonas Louismar Bonates e o ex-comandante da Polícia Militar Airton Norte. Ambos são acusados de participação em crimes cometidos durante a operação policial de agosto de 2020.
Moradores de pelo menos 11 comunidades relataram espancamentos, ameaças, tortura com gasolina, destruição de casas e perseguições. Uma criança teria sido trancada dentro de um freezer. Corpos foram encontrados amarrados a pedras para impedir que chegassem à superfície.
Cerca de cem famílias afirmam ter sofrido torturas durante as buscas realizadas depois da morte de policiais. O trânsito pelo rio ficou sob controle da PM, dificultando o acesso às comunidades e impedindo moradores de pescar e buscar água normalmente.
Os próprios habitantes passaram a conviver com cadáveres próximos das casas. Um dos depoimentos lembra que não era possível beber água do rio porque havia um corpo boiando perto da comunidade.
A operação também foi acompanhada pela tentativa de apresentar moradores como traficantes. Daniel, morador da atual comunidade Nova União e pessoa com deficiência auditiva, afirmou que policiais colocaram fuzis sobre sua coxa para produzir fotografias incriminatórias.
Ele passou 15 dias preso e continua respondendo a processo. Sua companheira relatou agressões, ameaças e a fuga dos filhos para a mata.
A acusação de tráfico aparece mais uma vez como instrumento para justificar violência policial. O fim desse mecanismo exige a legalização de todas as drogas, o encerramento da guerra às drogas e a dissolução da Polícia Militar.
Seis denúncias criminais foram apresentadas. Quatro ações referentes a crimes contra a vida aguardam decisão sobre o retorno à Justiça Federal no Amazonas e ao Tribunal do Júri.
Os processos estão parados no TRF-1 desde setembro de 2025. As comunidades continuam exigindo julgamento dos responsáveis, atendimento psicológico, reparação e proteção de suas terras.





