Em artigo intitulado Por que o impacto eleitoral da economia está diminuindo? e publicado pela Folha de S.Paulo, o professor Marcus André Melo tenta emplacar uma tese absolutamente ridícula: a de que o trabalhador, na hora de votar, não se guia pela realidade material do seu bolso, do preço dos alimentos ou do desemprego, mas sim por uma espécie de cegueira ideológica infantil.
Munido de jargões em inglês e citações de universidades estrangeiras — o típico verniz da pequena-burguesia para tentar calar a classe trabalhadora —, o autor ressuscita o clássico bordão norte-americano para tentar desmenti-lo:
“O bordão ‘it’s the economy, stupid’ (é a economia, estúpido) será repetido ad nauseam. Que a própria percepção da economia seja influenciada pela preferência partidária ou lealdade individual do voto das pessoas não é novidade.”
Segundo a tese defendida na Folha, as pessoas se tornaram incapazes de fazer julgamentos objetivos. O colunista afirma categoricamente:
“Avaliações de governo e da economia não refletem apenas julgamentos objetivos sobre desempenho; são uma forma de comportamento expressivo em que eleitores sinalizam lealdade política. As respostas em pesquisas são contaminadas por essa torcida partidária…”
E conclui com o verdadeiro absurdo teórico que serve de coração ao texto:
“A implicação mais imediata desses achados de pesquisa é que o comportamento real da economia tende a perder importância relativa no voto. Pode estar acontecendo no Brasil também.”
Trata-se de um insulto canalha à inteligência do povo. Dizer que o “comportamento real da economia” perdeu importância é sugerir que o trabalhador é burro, inconsciente de suas próprias necessidades vitais e incapaz de diferenciar a mesa farta da geladeira vazia. Para Melo, a fome, a carestia e a miséria viraram meros elementos de “partisan cheerleading” (torcida partidária).
Essa teoria de que o eleitor vota por puro “comportamento expressivo” e lealdade cega desmorona imediatamente quando confrontada com a realidade viva da luta de classes na América Latina neste ano de 2026. Olhemos para os exemplos mais recentes da Argentina e da Bolívia.
Em ambos os países, governantes venceram as eleições. No entanto, bastou que a realidade econômica batesse à porta, com o aprofundamento da crise, a inflação galopante e o esmagamento das condições de vida, para que esses mesmos mandatários passassem a enfrentar gigantescas e violentas manifestações populares.
Onde está o suposto “efeito torcida” ou o “efeito halo” de que fala o colunista da Folha quando o estômago do trabalhador racha de fome? Não se veem manifestações importantes ou massivas em defesa desses governos nas ruas. O problema é, sempre foi e sempre será a economia. O povo sabe perfeitamente quando sua vida está piorando, e nenhuma manipulação estatística ou simpatia ideológica de campanha é capaz de segurar a revolta popular quando faltam o pão e o emprego.
O articulista da Folha trata a polarização política como se fosse uma patologia psicológica coletiva, uma “contaminação” que distorce a visão dos eleitores. A polarização, no entanto, nada mais é que o reflexo direto e inevitável das contradições econômicas que dividem a sociedade de classes.
As massas não se polarizam porque decidiram “torcer” por times diferentes no X; elas se dividem porque o capitalismo em sua fase de crise profunda destrói qualquer possibilidade de conciliação.
O trumpismo, por exemplo, é uma reação da burguesia interna, da classe média e mesmo de setores da classe trabalhadora contra a política neoliberal devastadora. O bolsonarismo, por sua vez, também canaliza a revolta contra a crise do sistema político e econômico, apresentando-se falsamente como uma alternativa de ruptura para a classe média remediada e setores esmagados pela estagnação. Por fim, a força eleitoral do lulismo reside na perspectiva do desenvolvimento nacional, de elevação do salário mínimo e de assistência estatal para a população mais miserável.
Ao contrário do que supõe o artigo, o eleitor não olha para o retrovisor “apenas nos últimos metros da corrida”. Ele sente o impacto da economia a cada minuto do mês.
Se a tese de Marcus André Melo é tão flagrantemente desmentida pela realidade objetiva, cabe a pergunta: por que a Folha de S.Paulo insiste em publicar isso? A resposta não está na ciência, mas no desespero da burguesia.
A Folha é a porta-voz oficial da chamada “Terceira Via” — aquela candidatura fictícia inventada pelo capital financeiro, cujo programa econômico prevê a privatização total, a entrega das riquezas nacionais ao imperialismo, o teto de gastos e a destruição dos direitos trabalhistas. O problema da burguesia e de seus jornais é que esse programa econômico é tão devastador para o povo que não tem voto nenhum. Ninguém em sã consciência vai às urnas para votar na própria miséria.
Como os candidatos da banca de negócios e da grande imprensa são incapazes de vencer uma eleição debatendo o estômago e o bolso do trabalhador, a máquina de propaganda da burguesia precisa inventar a mentira de que “o comportamento real da economia tende a perder importância relativa no voto”.
O objetivo desse artigo é preparar o terreno ideológico para justificar uma candidatura vazia, tentando convencer o público de que a questão central do país não é a economia, mas sim a “corrupção”, a “gestão técnica” ou qualquer outra babaquice moralista desse tipo. Querem despolitizar a economia porque sabem que, no terreno material, a burguesia já foi derrotada pela consciência das massas.





