As novas denúncias envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, expõem uma fraqueza da campanha eleitoral do PT: a decisão de transformar acusações de corrupção contra o bolsonarismo em um de seus principais argumentos. A avaliação foi feita por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), na Análise da Terça desta terça-feira (25).
O programa, exibido na Rádio Causa Operária, começou pela repercussão de informações divulgadas pela imprensa a partir de uma investigação da Polícia Filial envolvendo Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger. As reportagens vêm explorando mensagens sobre gastos, viagens e movimentações financeiras para levantar suspeitas contra o filho do presidente.
Para Rui, independentemente do que venha a ser comprovado, o caso já criou um problema eleitoral para o PT.
“Na medida em que eles começaram a transformar no eixo da campanha eleitoral deles as denúncias de corrupção contra o bolsonarismo, agora eles estão sendo alvo de uma denúncia de corrupção bastante importante”, afirmou.
A crítica é dirigida à própria concepção de campanha adotada pelo partido. Em vez de disputar o eleitorado com um programa capaz de mobilizar os trabalhadores, o PT estaria apostando demasiadamente na desmoralização criminal dos adversários.
“Você chama a votar numa pessoa porque a pessoa está denunciando a corrupção do adversário. É uma forma extremamente pobre de campanha eleitoral, de luta política.”
Caso Lulinha deve pesar na campanha
Rui não considera que as denúncias sejam, neste momento, suficientes para destruir a candidatura de Lula. Isso não significa que sejam eleitoralmente inofensivas.
“Não acredito que vai ser decisiva, que vai afundar a candidatura do Lula, nada. Mas, sem dúvida nenhuma, ela é uma campanha que faz com que o PT, o Lula e os seus candidatos apareçam sob uma luz negativa.”
A disputa presidencial continua fortemente polarizada. O aparecimento de diversos candidatos da direita não alterou substancialmente esse quadro, e Lula permanece com uma base eleitoral consolidada.
O problema aparece principalmente entre setores que ainda não estão firmemente alinhados com sua candidatura. Uma campanha contínua em torno do filho do presidente pode esfriar apoios, dificultar alianças e pesar sobre eleitores ainda indefinidos.
Rui lembrou que acusações de corrupção já foram utilizadas de maneira muito mais ampla contra Lula e o PT durante a campanha que antecedeu o golpe contra Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato.
“Houve muita invenção, principalmente no momento em que a burguesia estava empenhada em derrubar o governo da Dilma Rousseff. Inventaram todo tipo de coisa.”
A experiência daquele período, destacou, exige que denúncias produzidas por investigações policiais e alimentadas por vazamentos à imprensa sejam tratadas também como fatos políticos.
“Não é um problema policial, mas um problema político.”
O desgaste do PT
A análise avançou para uma dificuldade mais profunda da campanha de Lula: o PT tem pouca capacidade de conquistar novos setores do eleitorado.
“O PT não tem uma política séria para a eleição. Esse é um primeiro problema. Um segundo problema é que há um cansaço com o PT. Ele não consegue atrair forças novas.”
Os programas sociais mantêm uma parcela importante da população ligada ao partido, mas já não possuem o caráter de novidade que tiveram nos primeiros governos Lula.
Rui citou o Bolsa Família. O programa continua importante para milhões de famílias, mas sobreviveu aos governos Temer e Bolsonaro e passou a fazer parte da realidade política do País.
Ele considera que o problema é especialmente grave entre trabalhadores que recebem acima das faixas mais pobres atendidas pelos principais programas assistenciais.
“Os programas sociais do PT são muito limitados. Em geral eles atingem a faixa mais pobre da população, mais despossuída, mais desamparada. Para o resto da população, ele não tem um programa muito claro.”
Isso ajuda a explicar por que a candidatura de Lula encontra dificuldades para se distanciar da direita mesmo depois de anos de crise do bolsonarismo.
A PF não é neutra
O debate sobre o caso Lulinha levou Rui à atuação da Polícia Filial.
O presidente do PCO criticou a tendência de apresentar operações policiais como se fossem acontecimentos puramente técnicos, separados da luta entre as diferentes forças políticas.
A posição defendida pelo Partido, afirmou, não muda de acordo com quem está sob investigação.
“Uma diferença grande entre o nosso caso e os outros é que nós não damos legitimidade a esse tipo de operação. Nós denunciamos logo de cara que se trata de um processo de perseguição política.”
Isso vale para operações contra Lula, contra Bolsonaro ou contra o próprio PCO.
Rui voltou a falar sobre a ação da Polícia Filial realizada em sua residência e classificou-a como uma iniciativa destinada sobretudo a produzir repercussão pública.
“A operação da Polícia Federal na minha casa foi uma operação de teatro.”
Durante o programa, mostrou uma correspondência bancária referente a uma conta em que pouco mais de R$200 foram atingidos pelo bloqueio judicial e ironizou a acusação de que dirigentes do Partido estariam enriquecendo com recursos públicos.
A própria história do PCO, argumentou, contraria essa tese.
‘Um partido corrupto não age assim’
Rui lembrou que o PCO recusou oportunidades que poderiam ter trazido vantagens eleitorais e financeiras justamente para manter sua independência programática.
Em 2018, apesar de apoiar Lula diante da perseguição política que sofria, o Partido não aceitou integrar uma composição eleitoral com o PT por discordar de seu programa.
“Nós falamos que não, porque nós não concordávamos com o programa do PT. Quer dizer, um partido corrupto não age assim.”
O mesmo argumento foi utilizado para tratar das chamadas legendas de aluguel.
Rui afirmou que o PCO já recebeu propostas para negociar sua estrutura partidária. Se a finalidade fosse simplesmente obter dinheiro, seria muito mais fácil entrar nesse tipo de comércio do que manter por décadas uma organização política com posições próprias.
O dirigente citou o antigo Partido Ecológico Nacional, posteriormente transformado em Patriota durante as negociações para receber Jair Bolsonaro, como exemplo de uma sigla que modificou inclusive sua identidade política diante das oportunidades eleitorais.
Lula quer fortalecer quem o perseguiu
Outro ponto criticado no programa foi a defesa feita por Lula do fortalecimento da Polícia Filial.
Rui considera a posição contraditória depois da atuação da instituição durante a Lava Jato.
“Fortalecer a PF, todo mundo sabe que a PF é uma entidade política. Atuou contra o Lula de uma maneira desonesta e ilegal, contra o Bolsonaro, agora contra nós.”
A questão não seria apenas a perseguição a partidos e candidatos. Rui mencionou ainda outros casos envolvendo a atuação da PF e afirmou que a instituição exerce um papel político muito mais amplo do que aquele apresentado oficialmente.
Mesmo depois da prisão de Lula e de tudo o que foi revelado sobre a Lava Jato, o governo petista continua tratando o fortalecimento do aparato repressivo como uma política positiva.
Para Rui, trata-se de conservadorismo político.
Campanha sob perseguição
No encerramento da Análise da Terça, Rui voltou à campanha eleitoral do PCO e às dificuldades impostas ao Partido.
Até aquele momento, o PCO ainda não havia recebido os recursos do fundo eleitoral. Rui lembrou que, nas duas eleições anteriores, o dinheiro chegou quando restava aproximadamente uma semana para o fim da campanha.
O Partido enfrenta também processos no Tribunal Superior Eleitoral e uma cobrança milionária relacionada às contas eleitorais, medidas classificadas pelo PCO como arbitrárias.
Rui chamou os simpatizantes a participarem diretamente da campanha, ajudando na divulgação das candidaturas e na defesa dos militantes atingidos pela repressão.



