Análise da 3ª

Rui Pimenta: PT teme eleição difícil e PF persegue o PCO

Presidente nacional do PCO analisou o ato de Lula na Vila Euclides, a disputa presidencial e a ofensiva judicial contra o Partido

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, analisou ontem (18) alguns dos principais acontecimentos da política nacional durante a Análise Política da Terça, transmitida pela Rádio Causa Operária. O programa tratou do início da campanha eleitoral de Lula, do comício realizado na Vila Euclides, da situação da eleição presidencial e da operação da Polícia Filial contra o PCO.

Um dos principais assuntos foi o retorno de Lula à Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, local marcado pelas grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC no final dos anos 1970 e início da década de 1980.

Rui lembrou que aquelas mobilizações tiveram uma importância decisiva para a crise da ditadura militar. Em uma época em que as greves eram proibidas, centenas de milhares de trabalhadores desafiaram abertamente o regime, realizaram assembleias gigantescas e impuseram na prática direitos que a legislação da ditadura negava.

O dirigente do PCO chamou atenção, porém, para uma diferença fundamental entre aquele período e o atual comício eleitoral. As grandes greves do ABC não nasceram de uma campanha planejada pela direção sindical. Foram impulsionadas pela própria movimentação dos operários nas fábricas e obrigaram os dirigentes sindicais a acompanhar uma luta que já estava em marcha.

Foi nesse processo que Lula adquiriu projeção nacional. Para Rui, sua transformação em uma das principais figuras da política brasileira não pode ser explicada simplesmente por sua habilidade pessoal. Lula ficou associado a um dos movimentos operários mais importantes da história recente do País.

A escolha da Vila Euclides para iniciar a atual campanha presidencial procura recuperar justamente essa associação.

Na avaliação de Rui, o PT necessita apresentar Lula com uma aparência mais ligada à luta operária diante de uma disputa eleitoral que se anuncia difícil. O contraste com a atuação do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos, no entanto, seria evidente.

O dirigente lembrou que o PT não organizou uma mobilização comparável à realizada agora durante o golpe contra Dilma Rousseff. Tampouco colocou nas ruas uma força semelhante contra Bolsonaro ou em defesa das principais reivindicações dos trabalhadores. Os atos de 1.º de Maio promovidos pelas direções sindicais nos últimos anos, por exemplo, ficaram muito abaixo da estrutura montada para a abertura da campanha eleitoral.

Para Rui, isso revela até que ponto a atividade do PT está subordinada às eleições.

Um ato milionário para demonstrar força

O tamanho do aparato colocado em funcionamento para lotar a Vila Euclides também foi destacado durante o programa.

Rui mencionou a utilização de centenas de ônibus para transportar participantes, além das despesas com alimentação, estrutura e organização. Somente o transporte de uma operação desse porte, calculou, representa uma despesa de milhões de reais.

A avaliação do presidente do PCO é que o evento teve um caráter muito mais organizado pelo aparato partidário do que resultado de uma mobilização espontânea dos trabalhadores.

Militantes do PCO participaram das atividades nas proximidades do estádio e montaram uma banca para a venda de materiais políticos. Apesar da quantidade de pessoas presentes, as vendas ficaram muito abaixo do esperado. Os materiais diretamente relacionados a Lula estiveram entre os que despertaram menor interesse.

Para Rui, esses elementos contradizem a ideia de que o ato tenha sido uma demonstração inequívoca de força política. O enorme investimento realizado pelo PT indicaria, ao contrário, uma preocupação com a campanha que está começando.

A presença destacada de figuras de direita aliadas ao governo também tornou ainda mais distante qualquer comparação com as históricas assembleias operárias realizadas no mesmo local.

O PT procura recuperar a imagem de Lula como dirigente surgido do movimento operário ao mesmo tempo em que sua campanha está cercada por políticos ligados diretamente aos interesses da burguesia.

Eleição será difícil para Lula

A situação da disputa presidencial ocupou outra parte importante do programa.

Questionado sobre pesquisas que apontam uma recuperação de Flávio Bolsonaro, Rui afirmou que os acontecimentos estão confirmando a avaliação feita anteriormente pelo PCO: o candidato apoiado pelo bolsonarismo não seria retirado facilmente da disputa e Lula enfrentaria uma eleição difícil.

A movimentação recente do PT seria um indício dessa preocupação.

O problema, segundo Rui, não está apenas no desempenho de um ou outro candidato. Existe um desgaste profundo do regime político brasileiro. Depois de décadas em que os mesmos partidos se alternam no comando do Estado, uma parcela crescente da população não encontra solução para seus problemas nas forças políticas tradicionais.

O PT é diretamente atingido por esse desgaste porque deixou de ser visto apenas como um partido de oposição e passou a integrar o regime político.

No atual mandato, Lula teve condições de adotar uma política diferente daquela defendida pelos capitalistas, mas não rompeu com os principais mecanismos responsáveis pelo empobrecimento dos trabalhadores.

A população continua submetida aos juros elevados, ao endividamento e aos baixos salários. A dívida pública continua absorvendo recursos gigantescos, enquanto a indústria nacional segue sendo destruída e o País permanece sem uma perspectiva de desenvolvimento econômico independente.

A retirada do Brasil do chamado Mapa da Fome, apresentada pelo governo como uma de suas grandes realizações, mostra os limites dessa política. Reduzir as formas mais extremas de fome é importante, mas está muito longe de resolver a situação de milhões de brasileiros submetidos à pobreza.

Nesse cenário, o bolsonarismo possui uma vantagem política importante: consegue apresentar-se como oposição ao regime mesmo sendo uma corrente profundamente ligada à direita e aos interesses capitalistas.

O PT, por sua vez, não consegue combater essa situação com um programa voltado para os trabalhadores.

Uma campanha verdadeiramente capaz de mobilizar a classe operária teria de enfrentar os bancos, denunciar os juros, atacar os grandes capitalistas e confrontar a submissão do Brasil ao imperialismo. O governo Lula não está disposto a realizar esse confronto.

Por isso, as denúncias de corrupção ou os ataques pessoais contra os Bolsonaro têm um alcance reduzido. Quem enxerga no bolsonarismo uma alternativa ao regime não abandonará necessariamente seu candidato por causa dessas acusações, da mesma maneira que os ataques judiciais e as acusações de corrupção contra Lula não afastaram seus apoiadores.

A campanha eleitoral, portanto, começa em condições muito mais difíceis para o governo do que a propaganda petista procura apresentar.

PF mira empresas que prestaram serviços ao PCO

Rui também voltou a tratar da operação da Polícia Filial que atingiu dirigentes e militantes do PCO.

Para o presidente do Partido, trata-se de uma perseguição política sem qualquer demonstração de que recursos tenham sido desviados para seu benefício pessoal.

A investigação procura transformar em suspeitas atividades normais de uma campanha eleitoral.

Um dos pontos apresentados contra o Partido envolve os serviços prestados pelo advogado responsável por grande parte das ações eleitorais do PCO. Sua atuação, porém, pode ser constatada nos próprios processos existentes na Justiça Eleitoral.

Durante uma eleição, um partido com centenas de candidatos precisa enfrentar um número enorme de registros, ações e procedimentos judiciais. O advogado contratado pelo PCO efetivamente realizou esses serviços.

Outro alvo são empresas gráficas responsáveis pela produção do material eleitoral.

O PCO realiza uma campanha de rua baseada em grande quantidade de jornais, panfletos, cartazes e outros materiais impressos. Como o Partido praticamente não dispõe do acesso concedido aos grandes partidos pelos principais meios de comunicação, a distribuição direta de propaganda política ocupa um lugar fundamental em suas campanhas.

Os materiais cuja contratação agora é apresentada como suspeita foram efetivamente produzidos e utilizados pelo Partido.

Militantes organizaram empresas para sustentar atividades políticas

A investigação também procura criar suspeitas em torno do fato de algumas empresas terem ligação com militantes ou pessoas próximas ao PCO.

Rui explicou que militantes do Partido organizaram ao longo dos anos diversas iniciativas comerciais voltadas para atividades políticas, editoriais e de propaganda.

Isso não transforma essas empresas em mecanismos de enriquecimento pessoal.

O próprio presidente do PCO citou sua experiência com a Editora Demócrito, criada para publicar livros considerados importantes para a formação e a atividade política. A receita obtida com essas iniciativas é utilizada para manter novas publicações e outras atividades do Partido.

A existência de empresas organizadas por militantes também não significa que os serviços contratados pelo Partido sejam fictícios. No caso investigado, tanto o trabalho jurídico quanto os serviços gráficos foram realizados.

Para Rui, a tentativa de transformar essas relações em um escândalo serve apenas para alimentar uma acusação política contra o PCO.

Campanha contra o PCO se intensifica

O presidente do Partido relacionou a operação a uma perseguição mais ampla contra o PCO, que se intensificou nos últimos anos.

O Partido tornou-se um dos principais alvos de organizações sionistas no Brasil depois de colocar-se abertamente em defesa da luta do povo palestino e da resistência contra o Estado de “Israel”.

Rui considera que essa atividade política deve ser levada em conta para compreender a ofensiva contra o PCO e chamou atenção para a influência de organizações sionistas sobre setores do aparelho de Estado.

Os métodos empregados também lembram os utilizados pela Lava Jato: primeiro é criado publicamente um clima de escândalo; depois, a suspeita passa a ocupar o lugar que deveria pertencer às provas.

A experiência brasileira mostrou repetidamente o perigo desse procedimento. Pessoas podem ser perseguidas, perder direitos e até ser condenadas sem que esteja demonstrada concretamente a prática de um crime.

Foi por reconhecer esse perigo que o PCO denunciou abusos judiciais mesmo quando atingiram adversários políticos do Partido. A destruição dos direitos democráticos não fica limitada à direita. Mais cedo ou mais tarde, esses mesmos instrumentos são utilizados contra a esquerda e contra as organizações dos trabalhadores.

Rui chamou os militantes e apoiadores do Partido a ampliarem a denúncia pública da operação e da perseguição política. Ao mesmo tempo em que será feita a defesa nos processos judiciais, o PCO deverá organizar uma campanha política para expor as acusações e demonstrar que os serviços colocados sob suspeita foram efetivamente prestados.

No próximo sábado, Rui Costa Pimenta estará em Brasília, onde será realizada uma nova análise política e o lançamento de sua candidatura à Presidência da República no Distrito Federal.

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