Entrevista

Rui Pimenta: processo contra Mascaro é ‘um típico caso de perseguição política’

Em conversa com Leandro Fortes, o presidente nacional do PCO comentou temas que vão desde o identitarismo à crise política na América do Sul

Em entrevista conduzida pelo jornalista Leandro Fortes no canal Galo Preto, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, apresentou as deliberações do recente Congresso Nacional Natália Pimenta, o XII Congresso do Partido. Durante o programa, o dirigente detalhou a estratégia eleitoral da legenda, criticou o governo federal, expôs o posicionamento do Partido contra o identitarismo e analisou os cenários de instabilidade política na América Latina e no Judiciário brasileiro.

Rui Costa Pimenta esclareceu que o foco do último congresso partidário não foi estritamente eleitoral, mas sim de debate político e renovação da Direção. No entanto, as diretrizes para o próximo pleito foram traçadas de forma estritamente programática.

O pré-candidato afirmou que a legenda rejeita a flexibilização de bandeiras em troca de votos.

“A orientação principal que nós tiramos para a eleição é que nós devemos fazer uma campanha eleitoral que seja rigorosamente programática, que não nos serve, não nos interessa fazer uma campanha eleitoral por caça de votos”, declarou Pimenta.

Segundo o presidente do PCO, o objetivo central da candidatura é expandir a influência política real da organização por meio da defesa do programa partidário, preterindo o que chamou de “política de ocasião”, a qual classificou como frágil e de curta duração.

Um dos pontos centrais discutidos no congresso do Partido foi a oposição ao que definem como identitarismo. Pimenta apontou que há indicadores práticos de um “declínio do identitarismo” e uma perda de prestígio desse movimento na sociedade, citando como exemplo sinais de crise de público e organização na última Parada LGBT.

O dirigente fez uma diferenciação entre a atuação do PCO e a política desses movimentos. O Partido defende negros, mulheres e demais minorias oprimidas. A crítica central direciona-se ao programa e ao método empregados pelos movimentos identitários contemporâneos.

Pimenta criticou o que chamou de “caráter acentuadamente carreirista” focado na política de representatividade institucional, como as demandas por indicações específicas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

“Nós achamos que não é esse o problema. O problema é você conseguir a emancipação da população pobre, que sofre, que é oprimida de verdade”, pontuou.

Além disso, condenou as campanhas repressivas e de censura por parte dessas correntes, argumentando que a classe trabalhadora não se beneficia do encarceramento por crimes de opinião ou piadas. Ele também criticou o financiamento dessas campanhas por grandes corporações econômicas, classificando a relação como um contrassenso para um movimento que se propõe de esquerda.

Ao analisar a aprovação de legislações recentes voltadas ao combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas, Pimenta classificou as medidas como ineficazes e “demagógicas”. O pré-candidato argumentou que desarticular estruturas pontuais não resolve o problema caso persistam as condições socioeconômicas que as originaram.

De acordo com o entrevistado, o crime organizado está integrado às próprias instituições do regime político e do aparato repressivo estatal, tornando vazias as promessas de erradicação do tráfico. Pimenta sustentou que o verdadeiro interesse por trás do endurecimento das leis de fluxo financeiro internacional não é o combate à criminalidade local, mas o alinhamento com diretrizes do imperialismo norte-americano para asfixiar financeiramente grupos de resistência armada no Oriente Médio, sob o pretexto de vigilância na Tríplice Fronteira.

O presidente do PCO criticou duramente a postura do governo de Luiz Inácio Lula da Silva ao aderir a essa retórica:

“Lula falou que o PCC e o Comando Vermelho são organizações terroristas. É absurdo isso. É uma coisa totalmente absurda”, criticou, alertando que a classificação abre brechas para intervenções externas na soberania nacional, inclusive na região amazônica.

Pimenta também se posicionou contra medidas repressivas recentes, como a restrição de benefícios previdenciários a familiares de detentos, classificando a condução do governo federal na área de segurança como uma “capitulação total e completa” à política da extrema-direita. Como alternativa, o dirigente defendeu a dissolução da Polícia Militar, à qual se referiu como um “esquadrão da morte” devido aos altos índices de letalidade, propondo a criação de uma força de segurança composta por cidadãos comuns, fora da burocracia militarizada atual.

Instado a comentar sobre o cenário do Poder Judiciário, Pimenta analisou a recusa da Polícia Federal em aceitar a delação premiada de Daniel Vorcaro. Para o dirigente, o episódio reflete uma “queda de braço” interna no regime político entre o grande capital — representado pelos interesses da Polícia Federal, que segundo ele possui alinhamento com agências estrangeiras — e ministros do STF, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

Pimenta criticou abertamente o mecanismo da delação premiada, herdado dos métodos da Operação Lava Jato, afirmando que o modelo consiste na compra de testemunhos sem legitimidade jurídica. Ele apontou que as denúncias envolvendo o Banco Master e o enriquecimento patrimonial de magistrados, como a evolução patrimonial atribuída ao ministro Dias Toffoli, evidenciam um esgotamento do regime político instituído pela Constituição de 1988.

“O escândalo do Banco Máster é gigantesco, a população sabe desse escândalo e as informações vão chegando aí cada vez mais. […] Esse aqui talvez seja o maior escândalo do regime que foi instituído em 88 até hoje”, asseverou o dirigente.

O entrevistado estendeu suas críticas à realização do Fórum de Lisboa, evento organizado anualmente pelo ministro Gilmar Mendes em Portugal. Pimenta definiu o encontro como um agrupamento político do “grande capital” e da “direita limpinha internacional”, financiado por grandes empresários com alto custo financeiro.

Durante a entrevista, o presidente do PCO foi questionado sobre a denúncia oferecida pelo Ministério Público contra o jurista e professor da USP Alysson Mascaro por crimes sexuais. Pimenta declarou solidariedade ao professor e classificou o processo como uma “conspiração” e “um típico caso de perseguição política” destinado a arruinar a reputação do intelectual.

O dirigente contestou a verossimilhança das acusações de estupro envolvendo adultos e criticou a cobertura e o tratamento dado ao caso por setores da própria esquerda nas redes sociais. Ele traçou um paralelo com o afastamento do ex-ministro Silvio Almeida, afirmando que a sociedade atual promove linchamentos virtuais que suprimem o direito constitucional à ampla defesa.

Finalizando a sabatina, Rui Costa Pimenta conectou os processos políticos em curso na Bolívia, Colômbia e Peru, apontando que os regimes democráticos tradicionais da região enfrentam um esgotamento. Segundo a análise do PCO, a burguesia e o imperialismo têm recorrido ao suporte de forças de extrema direita para manter o controle econômico e social nos países latino-americanos.

Pimenta denunciou a atuação do governo de Luis Arce, acusando-o de mobilizar grupos paramilitares de extrema direita (cruceños) e as Forças Armadas para reprimir manifestações populares de operários e camponeses. Criticou a postura do governo brasileiro de enviar suprimentos para mitigar o desabastecimento causado pelos bloqueios de estradas na Bolívia, interpretando a ação de Lula como um aceno de confiabilidade ao imperialismo.

O dirigente também apontou o avanço da extrema direita e o uso de recursos financeiros externos para desestabilizar governos progressistas moderados, como o de Gustavo Petro, destacando que a falta de firmeza programática e a tendência à conciliação das lideranças de esquerda na região fragilizam a sustentação de seus mandatos.

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