O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, analisou nesta quinta-feira (27), no programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária, a crise política que atinge os Estados Unidos e os principais países europeus. A guerra contra o Irã, a situação da Ucrânia, as eleições na França e na Alemanha e a posição de setores da esquerda diante do imperialismo estiveram entre os principais assuntos.
Para Pimenta, a guerra contra o Irã é o principal fator da crise política enfrentada por Donald Trump nos Estados Unidos. Ao atacar o país persa, o presidente norte-americano rompeu com um dos elementos que deram sustentação ao movimento MAGA: a oposição às guerras promovidas por Washington.
“Acho que o principal problema do Trump foi a guerra com o Irã. Essa guerra foi uma violação flagrante da política apregoada pelo Trump o tempo todo. […] O pilar fundamental de sustentação do movimento MAGA sempre foi a oposição à guerra. Esse era o pilar fundamental desse movimento. O Trump fez bastante propaganda contra as guerras, a invasão do Iraque, a invasão do Afeganistão, isso teve um resultado catastrófico para o imperialismo e ele montou o seu movimento em cima disso fundamentalmente.”
A promessa de encerrar guerras estava ligada, ainda, à proposta de utilizar recursos gastos pelo gigantesco aparelho militar dos Estados Unidos para recuperar a produção interna. Com a ofensiva contra o Irã, Trump atingiu os dois elementos de sua própria política.
“Com a guerra do Irã, ele joga na lata do lixo os dois pilares, num certo sentido. Primeiro porque ele está numa guerra que não tem saída, que ninguém queria essa guerra, ninguém é a favor dessa guerra, ninguém acha que ela tem nenhuma legitimidade. […] O problema econômico também é um fracasso pelo seguinte: ele vinculava o fim das guerras ao investimento econômico nos Estados Unidos, quer dizer, tirar dinheiro do aparato militar hipertrofiado dos Estados Unidos.”
O presidente do PCO aproveitou o caso para criticar o desprezo dos partidos brasileiros pelos programas apresentados durante as eleições. Para ele, o eleitor pode não conhecer todos os detalhes de uma plataforma política, mas vota com determinadas expectativas e reage quando o candidato passa a governar contra aquilo que prometeu.
“No Brasil, os partidos todos têm um profundo desprezo pela ideia de que você tem que ter um programa. Acham que o negócio são as combinações inescrupulosas da política, isso é que tem valor. Mas isso não é verdade. Pode ser que o povo não entenda bem que programa a pessoa tem, o alcance desse programa, mas, no final das contas, o programa tem, sim, importância. As pessoas votam por um determinado objetivo. […] O povo não votou nos belos olhos do Donald Trump, votou no programa dele e ele rasgou o programa.”
Pimenta relacionou o problema à situação de Lula no Brasil, que também enfrenta desgaste ao contrariar expectativas da população que o elegeu.
Na economia, avaliou que as tarifas de Trump podem produzir algum retorno da indústria aos Estados Unidos, mas estão longe de resolver o problema fundamental da produção norte-americana. O peso do capital financeiro faz com que grandes empresários prefiram a especulação ao investimento industrial.
Ao tratar dos efeitos das tarifas para o Brasil, Pimenta defendeu a diminuição da dependência econômica em relação aos Estados Unidos e separou os efeitos sobre setores industriais, que empregam grande quantidade de trabalhadores, daqueles sofridos pelo agronegócio exportador.
“Eu, inclusive, acho que seria melhor para o Brasil diminuir as relações com os Estados Unidos, porque diminui a dependência desse tipo de relacionamento, diminui o poder dos Estados Unidos sobre a economia brasileira. […] Nós temos que lembrar também o seguinte: tem muito produto agrícola que poderia ser vendido no Brasil, não é vendido no Brasil porque o produtor ganha melhor em dólar. Simplesmente por isso. E o povo não ganha nada, quem ganha é só o produtor.”
Na França, centro pode marchar com Le Pen
A possibilidade de Jean-Luc Mélenchon chegar ao segundo turno da eleição presidencial francesa levou Pimenta a tratar da chamada frente democrática contra a extrema direita.
Para ele, uma eventual disputa entre Mélenchon e Marine Le Pen revelaria que a burguesia está muito mais disposta a chegar a um acordo com a extrema direita do que permitir uma vitória eleitoral da esquerda.
“O caso francês é muito ilustrativo porque mostra que o inimigo do imperialismo é a esquerda, não a direita. Enquanto todo mundo está aí acreditando que nós estamos numa cruzada internacional contra a extrema direita, que abrange partidos de esquerda, partidos do chamado centro político, na realidade isso é uma farsa e a luta é contra a esquerda. Nós vamos ver isso na eleição francesa. A campanha contra o Mélenchon vai ser dez vezes mais dura do que contra a Marine Le Pen.”
Caso os dois sejam os candidatos do segundo turno, Pimenta acredita que os setores ligados ao presidente Emmanuel Macron se deslocarão para Le Pen.
“Vai ter uma frente ampla, só que não vai ser com a esquerda, vai ser com a extrema direita”, resumiu.
O presidente do PCO comparou a situação à política brasileira. Figuras atualmente apresentadas como integrantes de um campo democrático estiveram do lado de Bolsonaro quando a disputa real se deu entre a extrema direita e o PT.
“Um problema que nós temos aqui no Brasil é que o pessoal rejeita a realidade. Então o pessoal chega aqui e fala assim: a Simone Tebet é a nova Rosa Luxemburgo, o Alckmin é o novo Che Guevara e tal, tudo uma baboseira isso. Todo esse pessoal foi Bolsonaro. Quando a questão foi PT ou Bolsonaro, era Bolsonaro.”
Ucrânia ‘está praticamente falida’
Pimenta analisou ainda a situação da guerra da Ucrânia e considerou que a Rússia evita uma ofensiva de tudo ou nada porque pode continuar avançando sem assumir o enorme custo de uma operação desse porte.
Do lado ucraniano, os ataques contra refinarias e outras estruturas russas não teriam sido capazes de alterar a situação militar.
“A Ucrânia não tem estratégia nenhuma. Estão fazendo tentativas, tentando ver se acerta. Sobre essa campanha de 40 dias, essa campanha já foi feita. Durante 40 dias, eles atacaram centros de distribuição de mantimentos e alimentos, atacaram refinarias e tudo mais. Acontece que a maioria dos drones lançados nessa operação, quase todos eles, foram abatidos. Poucos atingiram o alvo, apesar da comemoração que vem sendo feita pelas agências de notícias internacionais.”
O dirigente criticou a cobertura dos grandes veículos, citando a GloboNews como exemplo de uma tentativa de apresentar a Rússia como se estivesse sofrendo derrotas que não aparecem no quadro geral da guerra.
Também destacou os obstáculos às exportações ucranianas pelo Mar Negro e pelo Danúbio, além dos conflitos com produtores agrícolas da Polônia. Somam-se a isso a escassez de recursos para a guerra e a corrupção.
“A Ucrânia realmente está em maus lençóis e ela está praticamente falida”, declarou.
‘A única política aceitável é a deles’
Na Alemanha, o crescimento eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD) e as medidas adotadas para limitar a atuação do partido foram apresentados como sinais de uma crise muito mais profunda do regime político.
Durante o programa, foram mencionados impedimentos de candidaturas, ameaças de sanções econômicas contra governos estaduais e articulações de partidos adversários para impedir que a AfD assuma governos mesmo quando obtém grande quantidade de votos.
“Isso aí mostra que o sistema democrático alemão, que nesse ponto segue todo o sistema democrático do imperialismo, está caindo aos pedaços. Não pode funcionar mais porque eles estão perdendo o controle. A única política aceitável é a deles.”
Pimenta considerou o crescimento da AfD e de outras organizações fora do centro político tradicional como consequência da desagregação do sistema partidário que governou os países imperialistas durante décadas.
“Tanto o partido da Marine Le Pen quanto a AfD, mais do que partidos, eles são sintomas das desagregações da democracia tradicional, essa democracia que atravessou o século XX e entrou no século XXI, que na verdade essa democracia é uma oligarquia. Oligarquia de quem tem dinheiro, ganha sempre as eleições, que representa um centro que ora se vira para a esquerda, ora se vira para a direita, dependendo da situação. Essa é a tal da democracia, que não é muito democrática, por sinal. Então o povo está cansado disso, isso já não resolve mais o problema.”
A crise alemã está relacionada também aos gastos destinados à Ucrânia. Para o presidente do PCO, o envio de recursos para a guerra exige cortes internos e aumenta a oposição à política seguida pelo governo.
“Para manter essa situação desastrosa do jeito que está, eles têm que controlar as eleições. Essa é a democracia contemporânea”, afirmou.
O crescimento dos partidos contestatórios no território da antiga Alemanha Oriental também foi abordado. Pimenta rejeitou a explicação de que os problemas econômicos dessa região sejam mera herança do antigo regime.
Segundo ele, a reunificação teve o caráter de uma anexação, com destruição de indústrias, privatizações e desmonte de importantes estruturas científicas e esportivas.
“O que houve na anexação não é que houve uma reunião dos dois países, houve uma verdadeira anexação. […] A indústria local foi totalmente esfacelada, muitas indústrias foram privatizadas à força. […] Eles tinham vários centros de pesquisa na área de física e na área de biologia, muito importantes, referências mundiais nessas áreas, foi tudo aniquilado. E foi uma região que acabou na unificação sendo empobrecida. Natural que ali surgissem partidos revoltados com a situação política do restante do país.”
Ataques ao Irã favorecem o imperialismo
No final do programa, Pimenta comentou a carta assinada por intelectuais como Angela Davis, Judith Butler e Michael Löwy em defesa de supostos presos políticos iranianos.
O dirigente classificou a iniciativa como uma colaboração com a agressão sofrida pelo Irã.
“Primeiramente, a carta é uma canalhice política. […] É óbvio que, se você escreve uma carta dessa contra o Irã no meio da agressão imperialista contra o Irã, você é um agente dessa agressão imperialista. […] Você atacar o país que está sendo atacado pela esquerda, o país está sendo atacado militarmente pelo imperialismo, pela direita, você vai atacar o país pela esquerda. É indecente.”
Pimenta também rebateu setores que justificam sua oposição ao Irã pelo caráter capitalista ou religioso do regime. Para ele, esse raciocínio coloca em pé de igualdade um país oprimido e a principal potência imperialista mundial.
“Eles se consideram neutros no conflito entre um país capitalista atrasado e um país imperialista. Eles não sabem quem domina o mundo. Não há equivalência entre Irã e Estados Unidos. É totalmente absurdo. […] Ou você luta contra o imperialismo ou você luta do lado do imperialismo. Não dá para ficar dos dois lados ao mesmo tempo. A posição revolucionária é muito clara.”
Para explicar a posição, recuperou a Guerra das Malvinas, de 1982. Mesmo sob a ditadura militar argentina, responsável pelo assassinato e desaparecimento de milhares de pessoas, a organização que posteriormente daria origem ao PCO apoiou a Argentina contra a Inglaterra.
Pimenta lembrou a participação das Mães da Praça de Maio numa manifestação pela retomada das ilhas:
“A melhor coisa que a gente pode dizer sobre o Galtieri é que ele era um bandido. […] Aí eles invadiram as Malvinas. Nós apoiamos a Argentina. Toda a esquerda argentina apoiou. […] Compareceram ao ato as Mães da Praça de Maio e elas foram com uma faixa que dizia: ‘As Malvinas são argentinas e os desaparecidos também’. Ninguém chegou lá e falou: ‘precisamos atacar a ditadura’. Não. A luta naquele momento era contra o imperialismo.”
No caso iraniano, Pimenta destacou ainda o apoio oferecido pelo País à resistência palestina, ao Hesbolá e à luta do Iêmen contra o imperialismo.
Ao responder a uma pergunta dos espectadores, o presidente do PCO encerrou a discussão relacionando diretamente o domínio político ao poder econômico:
“O poder político é um instrumento para garantir o dinheiro dos poderosos. Sempre foi assim. Tem gente que acha que o poder político é uma coisa em si. Não. O poder político é um instrumento para garantir os privilégios de uma determinada classe social. O imperialismo precisa controlar a economia mundial. Não dá para fazer isso só com jogadas econômicas e diplomáticas. Tem que usar a força, porque os países se rebelam contra a espoliação.”
O Análise Internacional vai ao ar às quintas-feiras, às 12h30, nos canais do Diário Causa Operária.





