Entrevista

Rui Pimenta debate inevitabilidade do socialismo na Tenda do Necromante

Em quatro horas de conversa, presidente nacional do PCO debateu vários assuntos no programa comandado por Osvaldo Luiz Ribeiro

Em entrevista bastante aguardada ao canal Tenda do Necromante nesta quinta-feira (18), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, debateu marxismo, materialismo histórico, sociedade de classes, religião e o papel da ciência na interpretação da história. A conversa foi conduzida pelo professor Osvaldo Luiz Ribeiro e teve como eixo a importância do método marxista para compreender a realidade social.

Logo no início, Pimenta apresentou sua trajetória política e intelectual. “Eu sou militante trotskista, marxista, desde a juventude, desde os meus 20 anos, aproximadamente, na universidade”, afirmou. Segundo ele, sua prioridade intelectual sempre foi o marxismo, cujo estudo em profundidade foi decisivo para sua atividade política.

“Eu me convenci que seria necessário fazer um estudo, uma leitura em profundidade. Então é uma coisa que eu me propus a fazer, percorri um grande caminho, mas não consegui até agora fazer tudo que eu queria. Mas eu consegui bastante coisa e eu acho que essa iniciativa foi o que mais me ajudou na luta política que nós travamos todos os dias”, disse.

A entrevista começou com uma discussão sobre a relação entre aparência e essência. Questionado sobre a opacidade da realidade, Pimenta citou Marx e afirmou que o mundo das aparências oculta, mas também revela a essência dos fenômenos.

“Marx, acho que foi no prefácio de O capital, disse que se a aparência e a essência das coisas coincidissem, não seria necessária a ciência. Agora, eu acho que nós temos que considerar que o mundo em que a gente vive, o mundo de aparências, ele oculta, mas ele também revela a essência”, afirmou.

Segundo Pimenta, há duas camadas principais de ocultamento na sociedade capitalista. A primeira decorre do próprio funcionamento da sociedade fundada na mercadoria; a segunda é produto da luta de classes e da propaganda política.

“O próprio movimento da sociedade que a gente vive oculta os fatos. O movimento da mercadoria, que é a célula-base da sociedade em que nós vivemos, oculta para os seres humanos a essência, a realidade da mercadoria”, disse.

Em seguida, acrescentou:

“Eu vejo o movimento ideológico que existe na sociedade capitalista de hoje, que é uma sociedade em declínio, como quase uma força totalitária de controle da consciência dos seres humanos. É muito forte.”

Ao tratar do materialismo histórico, Pimenta afirmou que a interpretação materialista da sociedade feita por Marx e Engels está entre as maiores conquistas da ciência.

“Eu considero o materialismo histórico, quer dizer, a interpretação materialista da sociedade feita por Marx e Engels, como uma das maiores descobertas da ciência humana em todas as épocas”, afirmou. Para ele, não é possível interpretar adequadamente a história sem o marxismo.

O presidente do PCO criticou a historiografia que se limita à descrição de acontecimentos isolados, sem estabelecer as conexões profundas entre os fatos. A partir de suas leituras para o curso sobre a história do Irã, Pimenta afirmou que muitos livros de história se reduzem a um “anedotário”.

“Você lê, se você não sabe nada e não for marxista, não conhecer nada do marxismo, você vai ler um conjunto de histórias. Não há ligação entre uma coisa e outra. E quando eles tentam analisar um determinado problema, você olha e fala: ‘Ixe, já se perdeu completamente aqui na tentativa de analisar a coisa’”, disse.

Outro tema discutido foi o surgimento da sociedade de classes. Pimenta afirmou que a divisão social em classes está ligada à revolução neolítica, isto é, ao aparecimento de uma atividade econômica regular e à formação de excedentes.

“Uma pesquisa cuidadosa vai mostrar que o surgimento da sociedade de classes é um fenômeno do que os cientistas chamam de neolítico, quando começa a haver uma atividade econômica regular”, afirmou.

Pimenta também mencionou a hipótese do arqueólogo Gordon Childe, segundo a qual a escravidão pode ter surgido a partir da dominação de um agrupamento humano por outro. Para ele, a hipótese é relevante porque mostra que o surgimento das classes sociais exige uma crise profunda da sociedade anterior.

“O surgimento das classes sociais precisa de um abalo social. Essa sociedade precisa ser abalada, precisa ter uma crise”, explicou.

O dirigente do PCO destacou que hierarquias podem existir em sociedades sem classes, mas isso não basta para caracterizar uma divisão de classes. Para isso, é necessário haver uma base econômica estável, com excedente permanente.

“O ser humano viveu aí um longo período numa sociedade sem classes. Com hierarquia sempre vai haver isso, e até algum privilégio material. Mas isso não caracteriza divisão da sociedade em classes. Para isso você precisa de uma estabilidade econômica. Você precisa de uma geração de um excedente econômico permanente, estável, durante um longo período”, afirmou.

A entrevista também tratou da religião. Pimenta diferenciou magia e religião, afirmando que a religião propriamente dita aparece ligada à estratificação social.

“O período anterior não tem religião. O homem primitivo do comunismo primitivo, ao invés da religião, tem a magia, que é uma coisa diferente. A magia é parecida com a religião porque apela para o sobrenatural, mas a magia não cria essa estratificação social que a religião cria: superiores e inferiores, dominados e dominantes”, disse.

Ao comentar a famosa definição de Marx segundo a qual a religião é o ópio do povo, Pimenta afirmou que a frase costuma ser interpretada de maneira superficial. Segundo ele, Marx não estava apenas denunciando uma fraude, mas explicando uma necessidade social produzida pela miséria.

“O que ele disse é que a sociedade dividida em classes, que coloca uma série de pessoas numa situação de miséria, não apenas material, mas espiritual, ela é uma necessidade da pessoa para enfrentar essa realidade social. Ele está dizendo que a religião é necessária”, afirmou.

Pimenta ressaltou que a religião não pode ser eliminada por decreto. Para que ela perca sua base social, seria necessário transformar profundamente a vida da população.

“Marx mostra nessa frase como a religião é um fenômeno social necessário e como você não vai conseguir extinguir a religião com decreto. Você precisa mudar profundamente a vida social para acabar com a religião”, disse.

O dirigente também afirmou que a religião pode ter papéis políticos distintos. Citou o xiismo no Irã como exemplo de uma doutrina religiosa que serviu como ideologia da Revolução Iraniana de 1979 e continua ligada à defesa da soberania nacional do país.

“Você tem a religião como fator reacionário, mas você tem a religião como fator revolucionário também. Pega, por exemplo, a religião xiita no Irã, que foi a ideologia da revolução iraniana de 1979 e continua sendo uma ideologia da soberania nacional iraniana”, afirmou.

Na parte final, Pimenta discutiu o modo de produção e rejeitou a ideia de que a sociedade capitalista possa ser organizada racionalmente por meio de acordos entre as classes. Segundo ele, as relações sociais não são voluntárias.

“O ser humano é dominado pelas forças sociais. Se fosse voluntário, nós viveríamos numa sociedade racional, onde as pessoas tomam as decisões sobre as coisas que vão acontecer. Não. O relacionamento social, que é o modo de produção, o relacionamento econômico, as pessoas ingressam nele involuntariamente, impelidas pela própria situação social”, disse.

Para Pimenta, a sociedade capitalista funciona por leis objetivas, não por simples decisões individuais.

“A sociedade funciona, mais ou menos, do ponto de vista da relação entre as classes sociais, como um mecanismo, como um relógio”, afirmou.

A entrevista terminou com uma discussão sobre a relação entre história humana e história natural. Pimenta rejeitou a separação rígida entre ciências naturais e ciências humanas e afirmou que a sociedade também deve ser compreendida como regida por leis.

“A ciência natural é uma coisa, ciências humanas são outra coisa? Não. Elas são ciências iguais. O que muda é a maneira como você vai fazer a pesquisa”, afirmou.

Segundo ele, a política e a história também têm leis próprias e podem ser estudadas cientificamente. “O que predomina na ciência social é a lei histórica. Ela é regida por leis, ela é determinada, é uma relação de causa e efeito, como é a ciência natural”, afirmou.

Pimenta concluiu que a superação do capitalismo é inevitável, embora não seja possível determinar exatamente quando e em que condições ela ocorrerá.

“A humanidade vai superar o capitalismo indubitavelmente. O difícil de prever aqui é quando, em que condições, como é que vai acontecer isso. Mas eu pessoalmente acho que nós não estamos longe do desenlace”, disse.

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