O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, denunciou nessa sexta-feira (14), em entrevista à TV247, a operação da Polícia Filial realizada em sua residência no início da semana. Ele sustentou que a investigação sobre a utilização de recursos eleitorais não apresentou qualquer prova de desvio e a ação policial, realizada poucos dias depois do lançamento de sua candidatura presidencial, constitui perseguição política.
A entrevista ocorreu no programa semanal de Pimenta na TV247, às sextas-feiras, às 13 horas. Na abertura, Leonardo Attuch manifestou solidariedade ao presidente do PCO e pediu que ele relatasse o que havia ocorrido.
Pimenta contou que agentes da PF chegaram por volta das 6 horas e arrombaram o portão da casa onde mora de aluguel, em um bairro popular de São Paulo. Cerca de seis policiais entraram armados, sob a justificativa de que haviam recebido a informação de que existiria uma arma no imóvel.
“Eles estavam quase derrubando a porta, daí eu fui lá, abri a porta, aparece aí uma meia dúzia de agentes da Polícia Federal armados. Aí eu falei: ‘o que é isso, o que está acontecendo?’. O delegado falou que tinha um mandado de busca e apreensão. Depois ele meio que se desculpou, falou que eles tinham informação de que havia uma arma na casa. Por isso entraram desse jeito, com arma na mão e tudo. Aí revistaram a casa. Não sei o que eles estavam buscando. Não sei se queriam joias, ouro, dinheiro. Não acharam absolutamente nada. Eles falaram que estavam atrás de contratos também, também não acharam nada e acabaram levando meu celular e os HDs que eu tenho, onde guardo filmes, livros e música.”
A própria situação encontrada pelos policiais, destacou Pimenta, contradizia a acusação de que ele teria enriquecido com recursos partidários. A residência é alugada e possui poucos bens além de sua biblioteca. Não foram encontrados dinheiro, joias, armas ou objetos de luxo.
O presidente do PCO relatou ainda que o delegado chegou a comentar que a casa não correspondia ao que a polícia costuma encontrar em investigações de suposto desvio de dinheiro.
‘É pura perseguição política’
A investigação gira em torno de pagamentos realizados a empresas, principalmente gráficas, que teriam entre seus responsáveis militantes ligados ao PCO. Pimenta rejeitou a tese de que a proximidade política entre fornecedores e o partido constitua qualquer irregularidade.
O que caberia à Justiça Eleitoral verificar, explicou, é se os serviços foram efetivamente realizados. O PCO apresentou documentos comprovando a impressão do material de campanha, inclusive notas fiscais referentes à compra de papel, chapas e tinta pelas gráficas.
https://pco.org.br/2026/08/11/perseguicao-politica-policia-federal-invade-casa-de-rui-costa-pimenta/
“O centro do problema está no trabalho gráfico, só que tem um pequeno detalhe. Nós demonstramos aí juntamente com o pessoal das gráficas que todo o material foi impresso. Foi demonstrado isso. As gráficas têm nota fiscal, de compra de papel, de compra de chapa, de compra de tinta, quer dizer, não há a menor possibilidade de que esse inquérito tenha uma base realmente legal. É pura perseguição política.”
Pimenta também criticou a inclusão de seu filho João Jorge Caproni Costa Pimenta na investigação. João não recebeu recursos relacionados aos pagamentos investigados.
Entre os elementos levantados contra ele estaria ainda uma suposta relação com a Fundação João Jorge Costa Pimenta. A entidade, porém, leva o nome do avô de Rui Costa Pimenta, que foi um dos fundadores do Partido Comunista no Brasil. Seu filho se chama João Jorge Caproni Costa Pimenta.
O caso foi citado para mostrar, na avaliação de Rui, a disposição dos investigadores de estabelecer relações inexistentes para ampliar o processo.
A operação também resultou em bloqueios patrimoniais e restrições às funções administrativas de Pimenta dentro do partido. Ele continua presidente nacional do PCO, mas ficou impedido de assinar documentos e movimentar recursos partidários.
https://www.youtube.com/watch?v=0fOY76yZVs4
Método da Lava Jato
Pimenta comparou a operação aos métodos empregados pela Lava Jato. Não haveria qualquer necessidade, segundo ele, de uma busca realizada às 6 horas para localizar uma pessoa pública, de endereço conhecido, que nunca havia se recusado a prestar depoimento.
“Para que fazer todo esse espetáculo no meio da eleição? Primeiro não havia necessidade de espetáculo. O policial, o delegado, ele se confundiu lá e falou assim: ‘você não atende o nosso chamado para depor’. Eu falei: ‘meu amigo, eu não recebi nenhum chamado, nada. Eu estou aqui, o meu endereço é conhecido, manda um oficial de Justiça e pronto’. Eu já depus aí na Polícia Federal em vários inquéritos. Eu sou uma pessoa muito pública. Como é que ele não vai conseguir me encontrar? Tudo é uma coisa absurda.”
A operação ocorreu no começo do período eleitoral e poucos dias depois do lançamento da candidatura de Pimenta à Presidência da República. Para ele, o momento escolhido não pode ser separado do caráter político da ação.
Outro aspecto destacado foi a rapidez com que informações da investigação chegaram à imprensa. Logo após a operação, o caso foi publicado pelo portal Metrópoles.
Pimenta comparou o episódio à propaganda criada pela Lava Jato em torno das ações policiais, nas quais o investigado era exposto nacionalmente antes de qualquer julgamento.
Ele lembrou que o mesmo procedimento foi usado contra Lula.
“Eles fizeram isso com Lula várias vezes, nós denunciamos. Eles chegavam na casa do Lula de madrugada também, seis horas da manhã, que é o horário permitido, mas era o mesmo esquema. Aí filmavam, passavam para a imprensa, era aquele carnaval. É a mesma coisa. Eles continuam com total liberdade para fazer essas arbitrariedades.”
Poder sem controle
Questionado sobre a origem da perseguição, Pimenta lembrou os diversos enfrentamentos políticos travados pelo PCO nos últimos anos, entre eles os conflitos com o movimento sionista, o Ministério Público, a Polícia Filial e o Supremo Tribunal Federal.
Mais do que apontar um único responsável, porém, o candidato destacou o poder cada vez maior assumido pelo aparato judicial brasileiro.
“Tem também o estado da Justiça no Brasil. Você não tem mais um sistema judicial. O juiz faz o que ele quer, o que ele achar na cabeça dele. Nesse caso aqui, ele nunca poderia começar um inquérito dizendo o seguinte: ‘essa gráfica que recebeu o dinheiro do fundo partidário é dirigida por militantes do PCO’. Isso não é irregular. O TSE não proíbe. Se não proíbe, não é crime. Se não é crime, por que eles estão investigando?”
O PCO, recordou, denunciou a perseguição contra o PT no chamado mensalão, o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Mais tarde, também denunciou medidas arbitrárias contra bolsonaristas, posição que colocou o próprio partido na mira do inquérito das chamadas “fake news”.
Pimenta contou que chegou a prestar depoimento à Polícia Filial por defender politicamente o fim do Supremo Tribunal Federal.
“Tive que dar depoimento na Polícia Federal para explicar por que eu estava defendendo o fim do STF, o que é o fim da picada.”
Defender a mudança ou mesmo a extinção de uma instituição, ressaltou, é uma posição política e não pode ser tratada como crime.
Polícia Filial acima de qualquer crítica
A entrevista também tratou do poder adquirido pela Polícia Filial. Pimenta criticou a política desenvolvida desde governos anteriores do PT de apresentar a instituição como independente do poder político e praticamente intocável.
“Tudo o que acontece com a Polícia Federal, e não é de hoje, já vem do governo Dilma lá atrás, esse discurso foi criado pelo ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. A Polícia Federal é intocável, ela não persegue nem protege. Então virou assim uma instituição acima do bem e do mal. Então, ai de quem fala mal da Polícia Federal, porque aí o cara vai ser o próximo.”
Para Pimenta, a experiência da Lava Jato deveria ter demonstrado o perigo de entregar tamanha liberdade de ação ao aparato policial. Mesmo depois da perseguição contra Lula, os métodos que marcaram aquela operação continuaram sendo utilizados.
Liberdade de expressão
A discussão chegou então à liberdade de expressão, tema que o PCO vem colocando no centro de sua intervenção política.
Para Pimenta, trata-se do direito democrático que permite o exercício dos demais.
“Nós temos a consideração de que a liberdade de expressão é a pedra angular dos direitos democráticos. Se você não pode pensar uma coisa e falar, os outros direitos ficam extremamente restritos. Você pode ter o direito de manifestação, mas se você não pode falar, de que adianta o direito de manifestação? Porque a manifestação é fundamentalmente um ato político para você falar alguma coisa. O mesmo vale para o direito de associação ou de organização.”
O candidato também rejeitou a fórmula segundo a qual a liberdade de expressão não poderia ser irrestrita. Na sua avaliação, aceitar a censura contra um adversário significa criar mecanismos que amanhã poderão ser usados contra qualquer outro setor político.
Pimenta relacionou esse processo às campanhas de cancelamento e perseguição judicial. Se durante a ditadura os militantes revolucionários temiam sequestros, torturas e assassinatos, hoje há também mecanismos para destruir política e socialmente uma pessoa.
“Como você não pode matar a pessoa, você tem que liquidar ela politicamente”, resumiu.
O PCO, contudo, não pretende recuar diante da ofensiva.
“Nós, do PCO, não estamos aqui para ser esmagados por esse tipo de campanha, não. Nós vamos reagir com tudo.”
Campanha presidencial
Na parte final da entrevista, Attuch perguntou quais seriam os principais pontos da candidatura do PCO à Presidência.
Pimenta colocou a situação econômica do País e dos trabalhadores no centro do programa. Entre as propostas citadas estão a luta contra as privatizações e os bancos, a defesa de um salário mínimo vital, a redução da jornada de trabalho, a recuperação dos direitos retirados pela reforma trabalhista e o fim da terceirização.
“A nossa grande preocupação é econômica. Resgatar a economia brasileira, lutar contra privatizações, combater os bancos. Tem toda uma plataforma que nós já estamos finalizando para publicar, e a defesa econômica do trabalhador. O salário mínimo vital é um ponto central da nossa plataforma. O Dieese calcula esse salário mínimo vital hoje em dia, para tomar um parâmetro, em R$8 mil. Eu já vi que teve gente que falou assim: ‘ah, mas isso aí não é viável’. Não, viável não é o nosso problema. O nosso problema é reivindicar aquilo que o trabalhador precisa. Redução da jornada de trabalho, que na minha opinião teria que ir além do fim da escala 6×1, restabelecimento dos direitos trabalhistas que foram retirados da CLT, fim da terceirização em particular. A gente precisaria ter uma lei que proibisse em termos absolutos a terceirização.”
Pimenta acrescentou que a campanha também será utilizada para fazer propaganda aberta do socialismo, do comunismo e da revolução.
“É para isso, é para fazer propaganda das ideias centrais”, disse.
Sem expectativa de espaço significativo no horário eleitoral, o candidato pretende concentrar parte da campanha em entrevistas e programas na Internet. Ele informou já ter recebido diversos convites para participar de programas acompanhados por milhares de pessoas.
‘A divergência política não elimina o dever da solidariedade’
Pimenta relatou ter recebido manifestações de solidariedade de diferentes setores políticos após a operação, inclusive de pessoas que se identificam com a direita e são críticas ao poder adquirido pelo Judiciário.
Também criticou organizações de esquerda que permaneceram em silêncio diante do episódio.
Ao recordar a solidariedade dada pelo PCO a outros grupos perseguidos, resumiu sua posição:
“A divergência política não elimina o dever da solidariedade.”
O dirigente disse não acreditar que o inquérito impeça sua candidatura à Presidência. O processo ainda está em fase de investigação, sem julgamento ou condenação.
Pimenta lembrou ainda que os obstáculos impostos ao PCO durante períodos eleitorais não começaram agora. Nas duas últimas eleições, o partido recebeu os recursos do fundo eleitoral com atraso. Na eleição passada, o dinheiro chegou faltando aproximadamente uma semana para o fim da campanha.
Ao final da entrevista, Pimenta informou que viajará ao Rio de Janeiro, onde o PCO realizará neste sábado (15) o lançamento de suas candidaturas no estado. Diante dos bloqueios financeiros e da necessidade de contratar advogados para enfrentar o processo, o partido também prepara uma campanha de arrecadação para custear sua defesa e manter suas atividades.




